Chega ao fim 2018, um ano em que a sétima arte nos brindou com tanto. Desde todos os cantos do mundo, foi imenso o incrível cinema que teve honras de lançamento em Portugal, de entre tantos géneros e realizadores, realidades e perceções. Houve lugar para tudo e ainda mais.

Só de olhar para a lista de estreias em 2019, ficamos já a antecipar mais um fantástico ano de filmes, quer na sala escura, quer na sala de estar. Mas para já, de obras estreadas em sala ou em plataformas de streaming ou VOD, em solo nacional este ano, passo a destacar o melhor.  Um top 10 e algumas menções honrosas, do mais poderoso que o cinema me ofereceu em 2018.

Menções honrosas

 

10. Tully

tully

Fonte: Divulgação/Focus Features

Depois de Jovem Adulta, a nova parceria de Jason Reitman e Charlize Theron é um estrondo. Alimentada por uma montagem que induz o esgotamento e situações crescentemente desesperantes, gera-se um choque qual murro no estômago, somente aligeirado pelo bom humor constante. Maravilhosamente escrito por Diablo Cody, Mackenzie Davis é radiante, e Theron raramente esteve melhor, num papel que agarra e faz seu, à imagem de tantas mães por esse mundo fora. Um Reitman sem medos, até ao desfecho arriscado, com um twist que não esperávamos encontrar numa dramédia.

 

9. Um Pequeno Favor

um pequeno favor

Fonte: Divulgação/Lionsgate Films

E se Em Parte Incerta fosse uma comédia? É esse o desafio de Paul Feig, num genial thriller, tão tenso quanto cómico, adaptado do livro homónimo de Darcey Bell. A rara tramóia que sabe quão reles parece, e o abraça, de twist em twist, até um final que, quando chegado, já há muito que nos entregámos à mais merecida suspension of disbelief. Anna Kendrick veste a pele da sua personagem como uma luva, mas é a manipulação de Blake Lively que nos faz cair o queixo – a abraçar uma faceta que lhe era desconhecida, é simplesmente soberba.

 

8. O Estranho que Nós Amamos

o estranho que nos amamos

Fonte: Divulgação/Focus Features

Injustiçado pela distribuição portuguesa, que quis apenas que este título forte de Cannes de 2017 fosse lançado por cá em VOD, estamos perante uma das obras mais divertidas da carreira de Sofia Coppola. Num cenário arrebatadoramente captado, o convite é a uma atmosfera de cortar à faca. As palavras dos protagonistas nem sempre manifestam os seus intentos, mas a astúcia não precisa de explicações, nem a de Coppola, que reúne um elenco fabuloso. Kirsten Dunst, sua habituée, volta a brilhar, ao lado de uns não menos incríveis Colin Farrell, Elle Fanning e Nicole Kidman.

 

7. O Sacrifício de um Cervo Sagrado

o sacrificio de um cervo sagrado

Fonte: Divulgação/A24

Um thriller hipnótico de gelar o sangue, a incursão absurda de Yorgos Lanthimos lança um feitiço que não nos larga, à medida que os intervenientes descem a uma obnóxia espiral de loucura. Com uma montagem inquietante e uma cinematografia sem medos, há aqui um filme em que tudo o que é veiculado parece fora do lugar, e é essa a magia do cinema de Lanthimos. Colin Farrell e Nicole Kidman entram no jogo, sem medo de evocar risadas tímidas, mas é Barry Keoghan a grande revelação, num papel de relevo para lá de Dunkirk.

 

6. Loveless – Sem Amor

loveless sem amor

Fonte: Divulgação/Sony Pictures Classics

Austero e de cortar a respiração na sua frieza sem limites, a fita russa de Andrey Zvyagintsev consegue aparentar-se só disso, de ser um filme sem amor. Um retrato de uma família em colapso e sem volta a dar, reféns de uma sociedade que oprime e ninguém dá conta. O metodismo é quase cirúrgico, chegando ao suplício ver o casal principal movimentar-se sem nunca evocar um pingo de emoção, embalados por um cinema cruel, que não está aí para reconfortar ninguém. E no meio de tanto silêncio, que dizer de uns libertadores segundos ao som de Sleepwalking dos Bring Me The Horizon?

 

5. Linha Fantasma

linha fantasma

Fonte: Divulgação/Focus Features

Um dos grandes autores do cinema norte-americano contemporâneo, Paul Thomas Anderson regressa com mais uma obra única, um sumptuoso drama de época onde nada é o que parece. Ambientado no mundo da moda dos anos 50, é um romance que está ao centro, mas dada a volatilidade dos intervenientes tanto podia ser um thriller. Imprevisível e recheado de deliciosas gargalhadas, a comédia negra também é um prato forte, numa fita sem medo de desafiar quem está a ver. Daniel Day-Lewis é ele, o ator dos atores, mas é na oposição de Vicki Krieps e Lesley Manville que ganhamos ansiedade – e que ansiedade.

 

4. The Florida Project

the florida project

Fonte: Divulgação/A24

O filme mais injustiçado da passada awards season, Sean Baker idealiza uma obra brilhante, de um enredo mínimo, mas a transbordar da cor de qualquer infância. Um retrato cru, somente roubado de negativismo pelos olhos do grupo de crianças na pobreza dos arrabaldes da Disney World, que encanta na sua vividez e sinceridade. Não há palavras para Willem Dafoe, mas Bria Vinaite, vinda do “reino” do Instagram, é a descoberta do ano. Já a pequena Brooklynn Prince, a emocionar todos os corações no papel principal de Moonee, não há de ficar por aqui.

 

3. Três Cartazes à Beira da Estrada

três cartazes à beira da estrada

Fonte: Divulgação/Fox Searchlight Pictures

Uma sátira americana com um quê de muito britânico, a tragicomédia de Martin McDonagh é um filme sem quaisquer travões, a retratar a natureza humana no mais básico, no que toca a lidar com problemas. Sem medo de versar no polémico, o argumento cheio de coragem só oferece conflito, e a sabedoria de que nem sempre há respostas, até ao derradeiro final. Frances McDormand dá a performance de uma carreira, em toda a sua garra e ferocidade, mas é Sam Rockwell que rouba o espetáculo, no seu papel revelador e que lhe trouxe a aclamação há tanto merecida.

 

2. Assim Nasce uma Estrela

assim nasce uma estrela

Fonte: Divulgação/Warner Bros. Pictures

A auspiciosa estreia de Bradley Cooper na realização é também um feito triunfal. Se é possível fazer do velho novo, que o diga a quarta versão da já clássica história de amor. Uma obra em que cada imagem e cada nota transbordam de paixão devota ao cinema, Cooper sabe o que é fazer um filme, e, em igual medida, maravilhar a audiência. De montagens de esboçar um sorriso, a números musicais de fazer cair o queixo, há aqui um coração para lá de todo o espetáculo, e se Cooper nunca foi tão bom ator, a surpresa maior é a Lady Gaga atriz. Nasce mesmo uma estrela.

 

1. Roma

roma

Fonte: Divulgação/Netflix

Uma obra-prima ensolarada no seu preto e branco, Alfonso Cuarón tece um microcosmos emocional tão avassalador quanto o imenso mundo que muda constantemente, lá fora das paredes da casa da família que retrata. Cada plano da câmara do mexicano é, de tão meticulosamente cuidado, uma obra de arte, num filme onde o próprio ainda se desdobra com mestria na produção, argumento e montagem. E que dizer dos grandes momentos, ancorados nas prestações perfeitas de Yalitza Aparicio e Marina de Tavira? Uma fita de uma perfeição intemporal.