Bandersnatch
Foto: Netflix

Black Mirror: Bandersnatch. Porque é que este é um grande passo para o entretenimento?

Black Mirror: Bandersnatch saiu a 28 de dezembro, depois de muita especulação. A Netflix conseguiu criar expetativa para o grande investimento que fez nesta experiência interativa.

Como é, então, o resultado final? O serviço de streaming voltou a acertar nas apostas?  Vamos por partes.

Talento despercebido

Ninguém para de falar das escolhas e finais alternativos de Bandersnatch. É, de facto, o ponto principal do projeto e já lá vamos. Não obstante, a equipa que trouxe este filme à vida merece algumas palavras.

Comecemos pelo protagonista, Fion Whitehead. A sua interpretação de Stefan, o jovem programador a nosso comando, é de louvar. A execução das diversas personalidades que a personagem assume, consoante as escolhas do espetador, é de uma perícia tremenda.

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A nível do restante elenco, os papéis são bem interpretados por todo o conjunto. Destaque, em particular, para Will Coulter, um interveniente relevante na história. O ator cativa as atenções na totalidade dos diálogos que trava com a personagem principal.

Por último, uma menção à componente audiovisual. A realização de David Slade é ótima, ajudada por uma banda sonora com o melhor do que os anos 80 têm para oferecer.

Bandersnatch
Foto: Netflix

O poder da escolha e o horror das consequências

A componente interativa de Bandersnatch era o propósito que fez meio mundo assistir ao novo capítulo de Black Mirror. O produto final é uma aventura surreal e marcante.

Nem todas as escolhas têm uma influência definitiva no desenlace dos acontecimentos, se bem que existe sempre, no mínimo, uma mudança estética. Mesmo assim, esses pequenos pormenores causam uma sensação que, até agora, só podia ser experienciada nos videojogos.

Os primeiros momentos do filme servem, precisamente, para o espetador se habituar ao sistema. Este funciona num paradigma de duas escolhas alternativas, com um limite de tempo associado. A contagem decrescente causa pressão para se decidir da melhor forma e é um método eficaz.

Na verdade, a tensão trata-se da componente principal de Bandersnatch. A progressão do enredo vai levando Stefan a uma dose cada vez mais intensa de paranóia e, por consequência, o espetador entra no mesmo caminho, com medo de estragar tudo.

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Estamos a falar de Black Mirror, portanto a probabilidade de correr tudo bem à primeira é uma expetativa que não se pode ter. Aliás, a aventura acaba por nos fazer sentir presos num labirinto complexo de decisões, onde as consequências são incertas até à sua revelação impiedosa.

Este escalar de nervos do protagonista e da audiência entram numa espécie de simbiose, o que nos faz questionar até que ponto é bom estar em controlo do destino de Stefan. Haverá uma ou outra escolha em que nenhuma alternativa parece indicada e a consciência começa a pesar.

De frisar a tremenda diversão que se alcança quando se tem companhia. Tomar as decisões em conjunto, poder escolher coisas diferentes, culpar o outro por ter estragado a vida à personagem. É uma forma engraçada de passar o tempo e a maneira ideal de visualizar o filme.

Bandersnatch
Foto: Netflix

O toque de génio

Existem, ao todo, sete finais principais para Bandersnatch. Todos os restantes desfechos são variações, com pormenores ligeiramente diferentes. É de louvar a forma como, independentemente da conclusão que se obtém, sentimo-nos sempre responsáveis pelo caminho que percorremos.

No entanto, a maioria dos finais não é inteiramente satisfatória. De facto, apenas três realidades acabam a história com qualidade e, desse conjunto, só um é que fará o espetador sentir o dever cumprido.

Existe um desenlace, particularmente repetitivo (ao todo são mais de meia dúzia de variações da mesma ideia), que poderia ter uma alternativa aos acontecimentos mais acentuada. Num desses caminhos há uma reflexão crucial da personagem e a audiência é obrigada a acertar no raciocínio. É dececionante quado se descobre que, quer se consiga ou falhe, o final será o mesmo.

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Por outro lado, um dos finais mais bem executados leva a uma quebra das barreiras entre a realidade e a ficção nunca antes vista numa experiência cinematográfica. É um momento que arrepia e causa tremores de ansiedade para o que virá a seguir. Uma sensação tão surreal como assustadora e o ponto exato onde reparamos que o futuro pode estar à nossa frente.

E é esse o feito genial de Bandersnatch. O filme não se resume a uma experiência interativa bem feita. Charlie Brooker vai mais além e decide estrear este conceito com um enredo que analisa as consequências dessa mesma experiência.

A forma como as empresas nos fornecem um sentimento falso de segurança e poder para nos fazer sentir em controlo e, ao mesmo tempo, a nossa cegueira em relação àqueles que nos controlam são as temáticas principais da aventura. Bandersnatch é uma história interativa claustrofóbica sobre os horrores da interatividade. Um contraste brilhante e a característica que faz deste projeto um sucesso tremendo.

Bandersnatch
Foto: Netflix

A caixa de Pandora

Netflix obteve excelentes resultados com este filme. Os derradeiros dias de 2018 passaram-se a debater e a desvendar os segredos de Bandersnatch. Mais uma vez, Black Mirror afirma-se como um fenómeno cultural.

E agora? De todas as questões que possamos ter quando somos confrontados com os créditos finais, esta é a mais relevante.

O serviço de streaming deu o primeiro passo no mundo da interatividade. É expectável que mais apostas no conceito surjam nos próximos tempos. Por consequência, os rivais (AmazonHuluDisneyApple) tentarão fazer o mesmo.

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O sucesso das ideias que se seguirem vão determinar se isto é uma moda passageira ou o futuro da ficção. Num mundo em que se valoriza cada vez mais a imersão e fuga da realidade, as experiências como Bandersnatch têm um mercado amplo para explorar.

Será que um dia haverá salas de cinema equipadas com tecnologia para escolher o desfecho do filme? Esta é uma ideia que existe desde os anos 40.

Será que haverá possibilidade de nomear um filme interativo para os Óscares? Ou haverá a criação de uma categoria própria?

Bandersnatch
Foto: Netflix

Netflix abriu a caixa de Pandora. Agora, o futuro vai ditar se esta é mesmo uma revolução para o entretenimento ou não.

Por enquanto, Black Mirror: Bandersnatch é um feito impressionante e único. Aguardamos, com muita expetativa, o que Charlie Brooker e companhia têm reservado para a quinta temporada, em 2019.

Nota Final: 9/10

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