Mais um ano passou, e com ele uma panóplia de obras cinematográficas que tornaram a nossa vida um pouco melhor. Filmes que nos fizeram rir, chorar, contemplar e confrontar realidades diversas – questionar o mundo que nos rodeia através da lente da câmara.

Aqui deixo os 10 filmes, estreados nas salas de cinema portuguesas, nas plataformas de streaming  ou VOD em 2018, que mais me marcaram.

10. No Coração da Escuridão

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Fonte: Picturehouse Entertainment

No Coração da Escuridão é talvez a melhor criação de Paul Schrader. É certamente a mais celebrada entre a sua filmografia enquanto realizador. Ethan Hawke oferece-nos uma das prestações mais marcantes da sua carreira num filme sobre fé e falência de valores no incerto tempo presente no qual nos movemos. Um filme envolto na permanente dúvida: vale a pena nascer, viver e sonhar neste mundo cruel?

Não só a fé individual e coletiva é testada, como a fé nas estruturas que nos rodeiam. Um exercício de reflexão sobre as congregações religiosas  que é operado com perícia. Não sendo uma obra desencantada, é sem dúvida uma que nos provoca um desconforto justificado.

9. O Sacrifício de Um Cervo Sagrado

Fonte: IMDB

O elemento mais marcante de O Sacrifício de Um Cervo Cervo Sagrado é a sua evolução bizarra e inesperada. No começo, tudo é tão simples, tão banal. O ambiente asfixiante vai tomando conta dos personagens, até os consumir, até consumir também o espectador.

Uma experiência alucinante, onde Yorgos Lanthimos nunca abandona a herança das suas raízes gregas. A mais marcante é a evocação do mito grego de Ifigénia, a filha de Agamémnon. Ártemis, deusa da caça, prendeu Agamémnon, um distinto herói grego, numa ilha, impedindo o guerreiro e o seu exército de viajar até Tróia. Para continuar a sua demanda, Ifigénia deveria ser sacrificada. Agamémnon tinha sido previamente responsável pela morte de um cervo sagrado que pertencia a Artemis.

8. Loveless – Sem Amor

loveless sem amor

Fonte: Divulgação/Sony Pictures Classics

Andrei Zvyagintsev regressa após Leviathan (2014),  com um conto igualmente memorável. Aqui, a paisagem fria da Rússia espelha a indiferença de uma família. Zvyagintsev ataca, indirectamente e de forma astuta, os problemas da sua nação. Indo muito para além de uma mera crítica, o autor apresenta uma realidade política opressiva que funciona como pano de fundo do filme.

Emocionalmente devastador e desesperante, Loveless- Sem Amor é hipnótico e proporciona uma experiência algo rara que o cinema deveria ser capaz de cumprir – a de nos assombrar muito depois de abandonarmos a sala de cinema.

7. Assim Nasce Uma Estrela

Assim Nasce Uma Estrela: A Star is Born

Fonte: Distribuição

Bradley Cooper alcançou em 2018 um feito notável, o de conseguir um sem número de nomeações e louvores com a sua estreia na realização. Aqui, a relação entre Lady Gaga e Cooper – realizador, argumentista e co-protagonista do filme –  é simbiótica. Quem sabe talvez seja esta a chave para o sucesso de A Star is Born – Assim Nasce uma Estrela. 

Momentos  como Shallow ou I’ll Never Love Again provocam uma imersão total na narrativa. A musicalidade, a ambiência, o ritmo country profundamente americano. Aqui se cria uma atmosfera na qual a fama e a purpurina não são o elemento principal.

6. BlacKkKlansman: O Infiltrado

Fonte: IMDB

Spike Lee parece atingir o impossível. Um equilíbrio entre um tema sensível e o tratamento humorístico do mesmo. Claro, existem casos emblemáticos no passado. Recentemente, na Round Table do Hollywood Reporter, Lee relembrou o icónico Dr. Strangelove (1964), no qual a bomba atómica é objeto de uma ironia mordaz. 

 BlacKkKlansman: O Infiltrado recupera a narrativa verídica de um polícia afro-americano que infiltrou com sucesso a organização KKK. Com um argumento quase genial, aqui se atinge o feito de nunca pregar moralismos. Esta obra consegue ridicularizar a estupidez do ser humano, sem nunca desvalorizar ou esquecer os fantasmas do passado.  Isto sim, é uma comédia. 

5. Ilha dos Cães

Fonte: The Daily Beast

A nova incursão de Wes Anderson no mundo da animação retém o encanto transversal a toda a sua filmografia. O realizador imagina um universo até ao mais ínfimo dos pormenores. Este cuidado quase obsessivo marca, de novo, uma estética e uma Mise-en-scène deslumbrantes. O realizador é também um mestre das influências. Aqui, encontra-se com Hayao Miyazaki, Akira Kurosawa e muitos outros.

A parábola apresentada denuncia a sombra dos regimes ditatoriais – alguma vez nos livraremos destes fantasmas? – e procura incutir uma mensagem de tolerância. O respeito pelo outro, pela diferença. Um esforço louvável, belo e cómico em igual medida.

4. Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões

Fonte: IMDB

A Palma de Ouro de 2018 –  Shoplifters – é um conto sobre moralidade, que transcende e questiona as noções que impingimos sobre esse conceito. Hirokazu Koreeda apresenta um cenário não tão comum na representação do povo japonês.

Aqui, “família” é uma palavra ambígua. Acima de tudo, é pouco convencional. Nunca o espectador é limitado a uma leitura da fita. Assim, a realidade do mundo de Koreeda é tão complicada quando o real onde nos movemos. A estrutura narrativa é astuta. O puzzle vai-nos sendo apresentado, e a informação nunca deixa de surpreender. Um verdadeiro tearjerker, um conto que não julga e emociona.

3. The Florida Project

Fonte: Distribuição

Sean Baker explora uma realidade muito específica, a dos que a sociedade não quer ver ou sequer reconhecer. Em contraste evidente temos a experiência de viver um dia de cada vez, com muito pouco, tendo como residência sempre provisória e instável o Magic Castle, um motel pobre junto à estrada. No extremo oposto, a opulência da Disney World de Orlando. Fisicamente muito perto, mas ainda assim tão longe.

Contudo, o filme jamais procura repreender a realidade dura que apresenta. Muito pelo contrário, The Florida Project é uma bela e genuína exploração da infância vista a partir do olhar das crianças. Uma representação alegre, uma explosão de cores que transporta consigo a promessa de um futuro melhor.

2. Roma

roma

Fonte: Divulgação/Netflix

Roma é uma carta de amor dedicada à mulher que criou Alfonso Cuáron – a sua ama. Esta é uma fita munida de uma simplicidade que parece agora rara no grande ecrã. Onde a inovação técnica de Cuáron se volta a manifestar, encontramos em contraste presunção narrativa limitada.

São muitos os momentos marcantes que ficarão gravados na memória do espectador. O tumulto social e político do México dos anos 70 espelha aqui a instabilidade familiar. Yalitza Patricio, atriz estreante e protagonista, desempenha o seu papel na perfeição.  Aqui temos um filme que pouco deve aos blockbusters da carreira de Cuarón , e ainda bem.

1. Chama-me Pelo Teu Nome

call me by your name

Fonte: Divulgação/Big Picture Films

Em Chama-me Pelo Teu Nome encontramo-nos num outro reino – o dos pessegueiros, das discussões acesas sobre arte, o de uma existência tranquila – que faz esquecer a lufa-lufa quotidiana. A beleza de tempos que já lá vão é evocada, e a natureza é generosa. Talvez seja até uma personagem participante.

Um romance de verão é retratado na perfeição, e nada mais existe senão a emoção genuína da descoberta sexual e do primeiro amor. Luca Guadagnino criou aqui uma utopia sazonal, onde os personagens vivem no momento, e que belo e genuíno momento. Os protagonistas Armie Hammer e Timothée Chalamet convencem-nos inteiramente, relacionando-se com uma notável naturalidade. O verão chega inevitavelmente ao fim, mas muito para lá da summertime sadness, fica a memória desse momento quase perfeito.