Depois dos discos internacionais, é tempo de revelar as escolhas do Espalha-Factos no panorama nacional. Podes ver agora aqueles que escolhemos como os 20 melhores álbuns de música portuguesa:

15. Dino D’Santiago – Mundu Nôbu

A meio do segundo disco de Dino D’Santiago, há um momento que dissipa a suspeita de que poderíamos estar a ouvir apenas uma coleção gingante. Pelo final de Nôs Crença, irrompe uma melodia que arrefece repentinamente o ritmo kizomba—primeiro bela, depois progressivamente mais inquietante. E faz a transição perfeita para a cortante Africa di Nôs, os seus dois nobres minutos de tom confessional, sobre progresso e tradição.

É esta a peça central de Mundu Nôbu, documento monumental e fidedigno do som de Lisboa hoje, em que o artista cabo-verdiano cristaliza o diálogo—sónico e temático—entre a vanguarda em que é jogador nato e a herança cultural que carrega. D’Santiago entende-o, sente-o, vive-o melhor que ninguém: a sua dança sempre prospectiva, a sua reflexão sempre em ginga.

Pedro João Santos

14. Dead Combo – Odeon Hotel

O regresso de Tó Trips e Pedro Gonçalves trouxe-nos o seu sexto álbum de estúdio, Odeon Hotel. Para além de apurarem o seu som cinemático característico, que se traduz lindamente ao vivo, Dead Combo convidaram a voz inconfundível de Mark Lanegan para cantar versos de Fernando Pessoa. Odeon Hotel evidencia facilmente o quão recheado está de bom espírito e competente instrumentação.

Nuno Santos

13. Sérgio Godinho – Nação Valente

Sempre com a palavra certa na língua e na ponta dos dedos, Sérgio Godinho regressou aos discos (após inúmeros projetos colaborativos) com este Nação Valente. É ao mesmo tempo um disco que não abandona o seu caráter interventivo mas que está também pejado de futuro. Não só no optimismo que transmite mas também na própria reinvenção musical que traz spoken word, melotron ou riffs de guitarras. Valente e imortal!

Alexandra Correia Silva

12. Glockenwise – Plástico

Foi uma das belas surpresas de fim de ano, este disco dos barcelenses Glockenwise que, pela primeira vez, escrevem e cantam tudo em português. Plástico é ao mesmo tempo um disco que orgulha a música portuguesa atual como de alguma forma presta homenagem à sua história. Se as referências aos GNR saltam de imediato, também o sotaquedo norte nos traz uns Ornatos Violeta à boa memória.

Alexandra Correia Silva

11. D’Alva – Maus Êxitos

O regresso dos D’Alva parece uma resposta nacional a Melodrama de Lorde ou Emotion de Carly Rae Jepsen: uma nova entrada (editada independentemente) no catálogo de triunfos pop com receção (comercialmente) muda. Mas a palavra-chave é triunfo, através da produção reluzente de Ben Ferreira e Alex D’Alva Teixeira, cuja prestação vocal é uma revelação. A aderência sobrenatural das faixas à membrana auditiva atesta ao seu sucesso imperial e desafia os picos de #batequebate.

O magnetismo de Maus Êxitos não deve esconder a sua maturidade e perspicácia emocional: é magistral como o álbum faz a travessia entre os hemisférios do indivíduo e o seu exterior. Começa por posicioná-lo perante a cobiça, as falhas de comunicação (propositadas e não), as construções do género, o poder da música. Volvida a primeira metade, a história escreve-se na primeira pessoa. Testam-se os limites do amor, media-se uma discussão sensível sobre sexualidade, verifica-se a expansão pessoal.

É uma obra elétrica e hiper-reativa. Se merece mais oportunidades e plataformas para ascender? Claro; cabem ainda mais vidas neste disco. Mas os D’Alva continuarão sempre a pavimentar o seu caminho. E, só neste álbum, mesmo antes de ter chegado aos nossos ouvidos, já fizeram parte substancial.

Pedro João Santos

Ler também: Entrevista – Os bons, os maus e os novos êxitos dos D’Alva

10. Joana Espadinha – O Material Tem Sempre Razão

Joana Espadinha esteve perto de seguir uma carreira de advocacia mas o amor pela música trocou-lhe as voltas . Deixou o direito de parte e dedicou-se inteiramente ao versos e às canções. A aparição na última edição do Festival da Canção despertou a atenção de muitos mas foi com o seu segundo disco de originais que conquistou os ouvidos dos portugueses.

Em O Material Tem Sempre Razão, Joana afirma-se como uma das artistas mais emergentes dos últimos anos na música portuguesa. A presença constante das suas músicas nas rádios nacionais é a confirmação disso mesmo. Mas basta uma audição do álbum para perceber as razões de tanto hype. São onze faixas que emanam alegria, sonhos pop com referências assumidas a artistas como Fleetwood Mac e The Beatles e convites para a pista de dança. Mas se a produção minuciosa de Benjamim é de louvar, as letras coloridas e a voz doce de Joana merecem também merecidos elogios. Leva-me a Dançar e Pensa Bem são duas músicas que vão ficar marcadas no cancioneiro nacional de 2018.

Edgar Simões

9. David Bruno – O Último Tango em Mafamude

O Último Tango em Mafamude é uma autêntica carta de amor de David Bruno a Vila Nova de Gaia. Contudo, quem não conhece tão bem a cidade, sente-se igualmente bem recebido neste pequeno roteiro que o músico nos faz. É também uma excelente peça de música, cujo som é tão atual mas remete igualmente para as últimas décadas do século passado. Maioritariamente instrumental, consegue ser hipnotizante e utiliza engenhosamente as poucas vozes que usa. É aconselhável perder-se meia hora para ter a experiência completa e ver o filme editado propositadamente para acompanhar o álbum.

Ana Rosário

8. Best Youth – Cherry Domino

O álbum produzido pelo duo maravilha que se formou em 2011, no Porto, é obrigatório no top de discos do ano. Composto por Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, o disco Cherry Domino foi lançado em junho. Com músicas apenas em inglês, Cherry leva-nos numa viagem de dream pop eletrónico. Neste disco, onde se ouvem 19 canções, destacam-se Midnight Rain e Nightfalls, que giram em torno de temas como o amor.

Jenifer Tang

7. Conjunto Corona – Santa Rita Lifestyle

David Bruno e Logos são os personagens por detrás de um dos projectos mais irreverentes da nova vaga do hip hop nacional. Camaleónicos e multifacetados, os dois rapazes da invicta transportam para os beats e versos o ambiente único e peculiar vivido na periferia da cidade do Porto. Santa Rita Lifestyle é uma homenagem honesta (e saudavelmente satírica) a Valongo, Ermesinde, Gaia, Trofa, Santo Tirso, Gondomar, Vila do Conde e Rio Tinto. É uma glorificação à mítica rotunda de Santa Rita, onde os edifícios religiosos coexistem com um McDrive, um restaurante em horário 24/7 e um Repsol. É um tributo aos Honda Civic, aos drifts, aos despiques ilegais, às raspadinhas da sorte e aos samples mais incríveis da internet. Mas acima de tudo, é a injecção de frescura que o hip hop português precisava.

Edgar Simões

6. Paus – Madeira

Quim Albergaria, Fábio Jevelim, Hélio Morais e Makoto Yagyu são já conhecidos artesãos sonoros aos ouvidos de quem os conhece como PAUS. Depois do lançamento de Mitra, em 2016, veio Madeira, surgido a convite de uma residência artística na ilha portuguesa com o mesmo nome. Com ele, retornam os ritmos incessantes, as composições psicadélicas e a energia constante e insustentável. No quarto trabalho da discografia, os rapazes da periferia mergulham de cabeça num mar de experimentações tropicais e constroem uma embarcação sólida, coesa e bem estruturada, sempre com a ilha em mente. Todos a bordo.

Pedro Dinis Silva

5. Salto – Férias em Família

O indie português fica sempre a ganhar com um novo disco dos meninos Salto. O terceiro trabalho da banda traz-nos a tranquilidade dumas férias em família, sem dúvida, através duma sonoridade coesa lançada com sintetizadores dreamy e guitarras calminhas. O sonho, o tempo parado (ou tempo para tudo) e a tranquilidade são os motores de Férias em Família, que tendo chegado depois do verão nos transportou novamente à calmaria da estação. O ambiente pacífico gerado em volta deste disco absorve-nos para aquele quentinho que nos envolve enquanto o escutamos à sombra duma árvore. A new wave dos portugueses atinge o seu pico máximo com Casa de Campo, um dos temas mais ricos em texturas sónicas do álbum.

Carlota Real

4. Cave Story – Punk Academics

Punk Academics foi o álbum a ser estreado no dia 27 de setembro na Galeria Zé dos Bois (Lisboa) e, no dia seguinte, no Maus Hábitos (Porto). Com edição da Lovers & Lollypops e da Hatsize, o seu disco é composto por 11 faixas a destacar Special Diners e a sua faixa homónima. Numa entrevista à Lusa, Gonçalo Formiga, o vocalista da banda, explicou que o disco era uma junção de tudo o que foram lendo, ouvindo e aprendendo sobre a música que gostam.

Este álbum trouxe também a novidade de um quarto elemento na banda, Zé Maldito, que apenas atuava em espetáculos ao vivo. Iniciaram a sua digressão no Porto, na data de estreia e terminaram no dia 8 de dezembro, no Stereogun, em Leiria. A banda passou noutros países como Espanha, França e Polónia.

Jenifer Tang

3. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo

Não é, de todo, uma novidade no panorama musical português. Filipe Sambado presenteou o nosso 2018 com um álbum onde a sua identidade foi finalmente homenageada. O segundo disco do artista traz-nos canções efervescentes e outras mais recatadas. Os desafios de ser peculiar deram corda ao génio de Sambado e culminaram em temas como Deixem Lá ou Indumentária, ambas explícitas no que têm a deitar cá para fora.

A liberdade e o desapego, segundo as palavras de Filipe, foram as asas para que o disco levantasse voo e nós concordamos a 100%. E se ele parecer uma mulher, o que é que isso quer dizer? Sambado veio para ficar e crescer connosco.

Carlota Real

2. Linda Martini – Linda Martini

Corria o mês de fevereiro quando Linda Martini apresentavam um álbum homónimo. A contar 15 anos de carreira, a banda já não é estranha ao público português. Em 2018, provou-o com as novas sonoridades em que se aventurou. Linda Martini compõe-se por 10 faixas que se ouvem em 45 minutos e onde constam sucessos como Boca de Sal, Gravidade e Semi Tédio dos Prazeres. As novidades mostram uma banda capaz de se reinventar de forma ténue, mantendo-se fiel ao seu estilo de rock alternativo, um álbum que faz jus à boa música portuguesa.

A capa do álbum mostra a figura feminina que emprestou o nome à banda, uma vez recuperada a sua fotografia – esse é o motivo da banda lançar um álbum homónimo, passados 15 anos. “O título do disco não tem a ver com essa ideia de acharmos que este é o melhor disco que já fizemos ou que isto consagra de alguma forma a banda. Teve única e exclusivamente a ver com o facto de o Pedro [Geraldes] se ter cruzado novamente com a amiga Linda Martini, que emprestou o nome à banda, em 2003”, explicou André Henriques ao Espalha-Factos.

Daniela Carmo

1. Conan Osiris – Adoro Bolos

Durante todo o ano, com particular incidência na época dos festivais de verão, o seu nome ecoou nas bocas dos portugueses. Tiago Miranda – aliás, corrija-se – Conan Osiris entrou de rompante em 2018 com Adoro Bolos (que, note-se, saiu no penúltimo dia de 2017, falhando as listas do ano passado), um álbum que, de tantas fontes e influências de onde bebeu, possui uma sonoridade única, só sua, cuja descrição chega a parecer impossível de tão eclética que se apresenta.

Tão depressa Conan canta o seu amor por pastelaria sobre ritmos e melodias à bollywood na faixa que dá nome ao disco como, ao jeito que só a si lhe pertence, deixa um agradecimento sentido na última música do álbum, Obrigado, orquestrada e interpretada quase como se de um fado se tratasse. Pelo meio, também se reconhece trap, metal, tarraxo. Entre celulites e titaniques, bolos e borregos, há risadas de quem brinca e lágrimas de quem sente.

Adoro Bolos é um uppercut que sabe a lufada de ar fresco, por ser tão repentino, imediato e inovador. É um trabalho dos tempos de hoje e de amanhã. É a prova de que Conan Osiris deixou saudade sem nunca ter ido embora. É, certamente, o álbum português do ano.

Pedro Dinis Silva