Final do ano é a altura para fazerem as escolhas dos sons e discos que se destacaram durante 2018. A equipa de música do Espalha-Factos reuniu-se, debateu o que de melhor se fez este ano e decidiu os seus tops de álbuns de 2018. Em primeiro lugar, aqueles que foram, para nós, os 20 melhores álbuns internacionais.

20. Anderson .Paak – Oxnard

Muitos não esperavam, outros provavelmente nem conheciam o seu nome. A verdade é que Anderson .Paak deixou a sua marca e a sua essência, tão distinta, vingar no ano 2018. No mesmo registo de sempre como background, fez parcerias com Kendrick Lamar em TINTS e até com Dr. Dre em Mansa Musa. Oxnard faz sentir o groove, o jazz, a bateria, as back voices. Anderson .Paak elevou a fasquia e mexeu com o público português no Super Bock Super Rock deste ano, agora é esperar que o seu regresso não tarde.

Daniela Carmo

19. Nao – Saturn

A atravessar um ponto de rutura na sua vida, a londrina Nao traçou um caminho até si mesma. Caminho esse em que converteu dores de crescimento em música, onde prefere não se dissecar. Há, sim, referências a traumas e amores defuntos; expõe-se um coração ciclicamente despedaçado—os sentimentos de impotência fazem de Make It Out Alive uma ligação à terra, reflexão contundente sobre o que falhou. Mas a sua prioridade natural é reunir os pedaços, suturar as fendas do desencantamento, alimentá-lo de novas luzes e vê-lo candente.

Não há descuidos sónicos em Saturn, cuja nébula de som descarna o funk eletrónico do predecessor; geram-se panos de fundo espaçosos de R&B progressivo, Afrobeat, soul ao vivo. Ainda assim, o ‘wonky funk’ definidor de For All We Know não está a anos-luz: basta ouvir a sumptuosidade angular, sensual de Gabriel.

O suprassumo aqui é Orbit, um organismo vivo, vulnerável e propulsivo, que se reinventa em ascensão. É a síntese da grande odisseia regenerativa que é Saturn, que leva Nao do epicentro de um cataclismo emocional até à sua libertação psicológica e sexual. É pura evidência de que fragmentar o mito do ‘difícil segundo álbum’ é fácil: basta cruzar inteligência emocional e sensibilidade musical.

Pedro João Santos

18. Jonny Greenwood – BSO Phantom Thread

Jonny Greenwood é um talento raro no mundo do cinema. Quando a música cruza a sétima arte, o virtuoso compositor (e membro dos Radiohead) sabe o que fazer para preencher os espaços deixados para trás pelo que é representado no grande ecrã. A banda sonora de Phantom Thread, dirigido por Paul Thomas Anderson, foi o trabalho mais extraordinário de Greenwood. A vibe dos anos 50 é exposta pelas cordas românticas e exuberantes do compositor, que doma o tempo de antena de Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps.
Além de soundtrack, isto é um álbum para ouvir em qualquer momento e sem associação ao filme. O esplendor das composições do músico auxilia o clímax emotivo das personagens e a catarse de quem as observa. Sem dúvida que Jonny Greenwood elevou a fasquia para os próximos filmes.
Carlota Real

17. Anna von Hausswolff – Dead Magic

annavonhausswolffmusic.bandcamp.com

Até agora, Anna von Hausswolff apresentava uma carreira musical que facilmente passaria despercebida aos ouvidos de muitos. No entanto, com Dead Magic, a pianista sueca fez justiça merecida ao seu potencial e a receção da crítica ao álbum comprova-o. Casando o grotesco com o belo, Anna afoga-nos no seu imaginário fantástico com uma destreza que tanto nos encanta como arrepia. As porpoções épicas de Dead Magic são impossíveis de ignorar.

Nuno Santos

16. The Weeknd – My Dear Melancholy EP

Depois de ter fugido um pouco para o pop, os fãs de The Weeknd foram surpreendidos com este álbum deliciosamente melancólico. Quando My Dear Melancholy foi lançado, o mundo ficou em êxtase quando viu que Abel Tesfaye estava de volta. Marcado pelo amor, The Weeknd expôs a sua dor no seu novo álbum e sonoridades de Trilogy e de Kiss Land vieram à superfície.

O disco é o primeiro EP de Abel e foi lançado no dia 30 de março deste ano. Composto por apenas seis músicas, conta com a participação de vários artistas. Entre eles Gui-Manuel de Homem-Cristo, o produtor musical de descendência portuguesa e membro dos Daft Punk, na música Hurt You.

Jenifer Tang

15. Jorja Smith – Lost & Found

Jorja Smith surgiu nos radares do mundo após uma mão cheia de colaborações com artistas como Drake e Kali Uchis e de um BRIT Critics’ Choice Award conquistado. Mais tarde, com Lost & Found, assegurou o seu lugar como promessa do R&B mundial. O álbum da britânica faz transparecer uma independência e uma maturidade assentes numa artista que, com apenas 21 anos, já nos faz pensar no seu futuro. Repleto de canções sobre o amor, a emancipação e a liberdade no relacionamento, com produções musicais eficazes e, sobretudo, com a voz maravilhosa de Jorja, Lost & Found torna seguro afirmar que a artista chegou para ficar.

Pedro Dinis Silva

14: Janelle Monáe – Dirty Computer

Em Dirty Computer, Janelle Monáe constrói à sua imagem—e não à da androide Cindy Mayweather, que abandona ao fim de três discos altamente conceptuais—um clássico moderno, um blockbuster. Ouvimos (e vemos) Monáe dançar num tablado de melodias miscíveis, instantâneas, que vertem o funk e a soul numa solução inequívoca de pop, executada com mestria e propriedade. Make Me Feel é um ápice do funk eletrónico; So Afraid é um hino de soul psicadélica que desagua numa torrente de desencantamento e desesperança.

Continua a haver algo de subversivo em dedicar um álbum manifestamente pop a quem fica de parte da cultura dominante. E vem da senhora certa para tal—em 2018, poucos conseguem compreender a complexidade dos jogos de política, identidade e raça como ela. Janelle Monáe concedeu-se autorização para ser ela mesma. E, por extensão, a todos nós que ainda hesitamos.

Pedro João Santos

13. Nils Frahm – All Melody

Foi uma das melhores surpresas deste ano. Não que Nils Frahm não nos tivesse já tocado com discos anteriores, com os instrumentos que idealiza e os sons que compõe mas porque All Melody é, em todas as frentes, uma pedrada no charco. Ritmo, muito ritmo, sons etéreos, vozes espaciais, uma espécie de clássico moderno ou contemporâneo clássico, uma obra tremenda por parte de um músico que é simplesmente um génio.

Alexandra Correia Silva

12. Arctic Monkeys – Tranquility Base Hotel + Casino


Muitos se questionaram sobre a identidade dos velhos Arctic Monkeys após o lançamento do sexto disco. Afinal, estavam irreconhecíveis sonoramente e até visualmente. Há, no entanto, coisas que nunca mudam: o Sol é uma estrela, a Lua é um satélite e Alex Turner está cada vez melhor. Eles cresceram e tornaram-se homens, não sendo os mesmos da era de uma Brianstorm ou Mardy Bum.

O jazz e o glam rock são agora quem introduz os Monkeys num ambiente inconfundivelmente requintado (como em Star Treatment). Tiraram os pés do chão e lançaram-se na ficção científica (nomeadamente em Science Fiction). O retro-futurismo nunca surgiu tão claro como em Tranquility Base: Hotel + Casino, de um modo inesperado já que se trata dos Arctic Monkeys.

O sexto disco dos britânicos é um desafio fascinante a quem se propõe ouvi-lo. É extravagante e um statement ousado capaz de dividir os fãs.

Carlota Real

11. Beach House – 7

Ao sétimo disco, os Beach House não descansaram. Ofereceram, antes, um disco que não abandona o seu lado mais introspetivo e nostálgico mas pleno de temas psicadélicos e oníricos. Confirmaram com 7 a capacidade de se reinventarem contando com o toque do produtor Sonic Boom. Não obstante a base das suas músicas ser tão simplesmente o teclado de Victoria Legrand e a guitarra de Alex Scally, a banda de Baltimore conseguiu reinventar-se deixando um disco que marca este ano, mas possivelmente também a sua carreira.

Alexandra Correia Silva

10. Travis Scott – Astroworld

Já sabemos há muito da “maldição do terceiro álbum” de grandes artistas emergentes. ASTROWORLD é o terceiro álbum de Travis Scott, mas está longe de ser uma maldição. Ao longo dos 58 minutos e 33 segundos daquilo que é esta obra, o artista transporta-nos para o mundo que é só dele e que ele nos dá a vislumbrar com a sua música. Conta com uma panóplia de colaborações de artistas como Kid Cudi ou Drake, até Frank Ocean ou James Blake e de produtores convidados como Mike Dean, Allen Ritter e Kevin Parker, que chama um bocadinho a atenção pela sua assinatura óbvia em Skeletons.

Travis Scott assemelha-se assim a uma espécie de curador de museu que escolhe e seleciona a composição de artistas e da própria arte que expõe na sua obra maior, que é, neste caso, ASTROWORLD. Se o terceiro álbum pode ser visto naturalmente como uma maldição, Travis Scott pegou nesse preconceito e não só o ultrapassou, como o destruiu por completo.

Rita Vieira

9. Drake – Scorpion

No auge da sua carreira, Drake lançou este ano mais um álbum de estúdio. Talvez um dos trabalhos mais consistentes da sua discografia, Scorpion oscila entre uma aparência gangster e um lado mais sentimental. Autêntica máquina de singles, Scorpion proporcionou alguns dos maiores hits deste Verão, alimentando pelo caminho bizarras teorias da conspiração. Com este álbum, Drake consolida-se como um artista cada vez mais consensual: presente tanto nas frequências de rádio mais comerciais como nas festas de hip-hop mais underground. Não percebemos nada do Zodíaco, mas acreditamos que este foi o ano do Escorpião.
Ana Manuel
8. Kali Uchis – Isolation

A colombiana Kali Uchis já fazia ondas com as suas parcerias com outros músicos, como foi o caso de Tyler, the Creator, Daniel Caesar e Gorillaz, mas agora foi a sua vez de brilhar em nome próprio. E tão brilhante que ela é! Isolation já prometia muito antes sequer de ser lançado, com os singles Tyrant, After The Storm e Nuestro Planeta a fazer ondas e a deixar os fãs cada vez mais impacientes para o lançamento do primeiro álbum da cantora.

A cantora não desiludiu e o álbum superou todas as expetativas. Isolation é um disco que é coeso no seu som, mas que se adapta às influências da cantora. Aliás, todas as participações foram bem escolhidas de forma a realçar os talentos de Kali. Ela é sempre a personagem principal e um camaleão que consegue complementar todos os sons que toca. Isolation é o primeiro passo de uma enorme carreira daquela que parece ser uma das novas divas da pop!

Ana Rosário

7. Kids See Ghosts – Kids See Ghosts

Kids See Ghosts, a união colaborativa de Kanye West e Kid Cudi, concebeu dos melhores momentos musicais deste ano com apenas 23 minutos. No seu álbum homónimo são abordados temas e experiências pessoais em jeito de terapia acompanhados por um replayable e cativante conjunto de sete músicas. Desde a tresloucada Feel The Love à relaxada Reborn, a produção de Kids See Ghosts nunca deixa de contagiar boas energias. Dá gosto ver amizades a resultar em arte tão positiva como a deste álbum.

Nuno Santos

6. Connan Mockasin – Jassbusters

Cinco anos depois de Caramel, Connan Mockasin voltou a servir-nos com o melhor do seu neo-psicadelismo. Jassbusters, terceiro disco do neozelandês, tem traços de romantismo, sensualidade e de atmosferas melancólicas. O riff de guitarra que se ouve em loop ao longo de Charlotte’s Thong, a primeira faixa do disco, é hipnótico e embala-nos numa viagem de trinta minutos ao universo particular e excêntrico de Connan.

Uma viagem que prossegue com temas como Last Night, Com Conn Was Impatient e que acaba com Les Be Honest. Paixão, atração e melancolia são os sentimentos por detrás da obra mais certeira da sua discografia. Um disco ideal para se ouvir com a cara metade.

Edgar Simões

5. Idles – Joy As An Act of Resistance

O rótulo de banda mais importante do ano assenta bem aos britânicos Idles. Joy As An Act of Resistance, segundo disco do quinteto de Bristol, é o retrato mais fiel de uma sociedade esmurrada pelo Brexit, pelas desigualdades, opressões e fascismos. Subversivo nos versos crus e agressivos, o disco é alimentado por uma energia punk incansável liderada pelo seu icónico frontman Joe Talbot.

É um grito de revolta revestido por uma alegria persistente e intocável. Sentimento esse que é a única arma de resistência perante o mundo. Colossus, Danny Nedelko e Samaritans são faixas obrigatórias. Irreverentes, eufóricas, mas conscientes. Fazem-nos bem aos ouvidos e à alma, mas também têm a capacidade de nos fazer pensar. E isso é algo raro na música de hoje.

Edgar Simões

4. Parquet Courts – Wide Awake!

Passaram dois anos desde que Parquet Courts não lançaram trabalhos a solo. Se com Human Performance, lançado em 2016, começavam a pronunciar-se sobre problemas sociopolíticos, em Wide Awake! já estão a perder a paciência: “Those who find discomfort in your goals of liberation will be issued no apology”, berra Andrew Savage em Total Football. O disco completa uma viragem na sonoridade da banda que o álbum anterior já adivinhava.

Se nos primeiros trabalhos os rapazes do Texas andavam a brincar às pistolas de água no meio do deserto sem qualquer tipo de preocupação, com Wide Awake! abrem os olhos e apontam o revólver a uma sociedade que consideram injusta e opressiva. O lápis de Savage continua afiado, o ritmo continua imposto e as guitarras continuam a rasgar partituras. O que muda é a atitude da banda que, apesar de continuar divertida e impulsiva, se mostra mais madura, crítica e adulta.

Pedro Dinis Silva

3. Jungle – For Ever

Desde que partilharam o álbum homónimo, em 2014, estávamos ansiosamente à espera de novos lançamentos. Quatro anos depois a banda ofereceu-nos um disco tão semelhante, mas ao mesmo tempo tão diferente do anterior. Lançado no dia 14 de setembro, a banda britânica ofereceu 13 novas canções aos ouvintes. Destaca-se o estilo particular da canção Casio e a melancolia de House in LA.

Los Angeles surge em várias músicas como um símbolo de fracasso. A história está ligada ao facto de a banda londrina ter tentado a sorte nessa cidade e acabaram por não ter o sucesso esperado. Josh Lloyd-Watson, um dos membros fundadores, terminou a sua relação enquanto lá estava.

Jenifer Tang

2. Thom Yorke – Suspiria (Music for the Luca Guadagnino Film)

2018 foi o ano que fez Thom Yorke aventurar-se pelo mundo das bandas sonoras. Luca Guadagnino convidou o músico britânico para compor para o remake do clássico Suspiria. Yorke tomou as rédeas do krautrock e trocou-lhe as voltas com o seu toque tão especial de eletrónica e desassossego. A narrativa sonora criada pelo artista leva-nos a uma casa assombrada apenas através das cordas arrepiantes ao longo de 25 temas. Unmade e Suspirium são as músicas mais imponentes que primam pela simplicidade e pianos morosos.

Suspiria é um disco extremamente visual, objectivo, evocativo. Uma estreia absolutamente bem conseguida pelo génio do inglês que teima em surpreender e elevar expectativas sempre que anuncia um novo trabalho.

Carlota Real

1. Rosalía – El Mal Querer

Se tivermos de petrificar o zeitgeist—o espírito (artístico) da época, o que nos marcou e esperamos não se apagar da nossa memória—do ano de 2018, poucos nomes emergirão tão vitais quanto Rosalía.

A figura internacional do ano para o Espalha-Factos tornou-se uma performer sanguinária, lançou uma linha de roupa, fez-se estrela. Todos os itens na história recente da catalã podem remontar à maior palma da sua carreira até agora: meia hora de música que constitui um portentoso artefacto de experimentação, um esforço conceptual de primeira água. Um álbum que atesta veementemente à vitalidade do formato cujos limites se tornaram mais difusos que nunca e que muitos pronunciam morto.

El Mal Querer chegou-nos um ano após a estreia discográfica da artista é gritante o quanto dista desse minimal e esquelético Los ángeles—um tabuleiro em que dois singelos peões se moviam em fricção: a tensa guitarra de Raül Refree, a voz libertada de Rosalía. Este é, sobretudo, um disco em carne viva, que é mais do que a mui-falada interseção entre flamenco e os tropos da pop e do R&B reverbera logo por Malamente, em si menos ecuménica do que orgânica e profundamente renovadora.

É a destilação das raízes de uma arte pelas mãos da vanguarda, é a cantora e produtora—com colaboração de El Guincho—a fazer tábua rasa tanto do que poderia ter sido um álbum de mera continuidade, como do que se espera de um sucesso global. De facto, é mais The Dreaming de Kate Bush do que 25 de Adele. Consecutivamente embala e violenta: Di Mi Nombre ou Bagdad são momentos imediatos, alquímicos desse “flamenco-pop“, de refrões que saltam à superfície, mas chegam muito depois da soberba De Aqui No Sales, em que a voz serrada e as palmas convulsas colidem no ouvido.

A inventividade musical corresponde à execução magistral do conceito. Partindo do romance medieval Flamenca, Rosalía mapeia a descida aos infernos de uma mulher enclausurada por um marido dominante, fazendo de cada faixa um capítulo (do augúrio de Malamente à retoma do poder em A Ningun Hombre).

Gerou debate intenso e necessário a dinâmica de uma artista catalã a trabalhar numa arte classicamente andaluza. Mas aquilo a que Rosalía se evade em todo o disco é a mínima vontade de a apropriar e escrever o seu nome por cima. Não há necessidade de encaixotar e embalsamar o flamenco. É uma arte viva. Respira. Mas mais do que isso: ama, chora, cospe, agride, contorce-se, grita. Emancipa-se.

Pedro João Santos

 

Escolhas de Alexandra Correia Silva, Ana Manuel, Ana Rosário, Carlota Real, Daniela Carmo, Edgar Simões, Jenifer Tang, Nuno Santos, Pedro Dinis Silva, Pedro João Santos e Rita Vieira