Com a chegada do final do ano, chegam as listas do melhor que a arte nos deu ao longo de 2018. O cinema não escapa, e o Espalha-Factos reuniu-se, como já é tradição, para elaborar a sua própria lista.

A equipa de Cinema discutiu quais os melhores filmes estreados em solo português e o resultado é o top 10 que hoje apresentamos. Foram considerados filmes estreados no nosso país nas salas de cinema, de janeiro a dezembro, e também, pela primeira vez, nos serviços de VOD e streaming.

Quem participou: Diogo L. Magalhães, Gonçalo Silva, Lara Cardoso, Maggie Silva, Matilde Castro, Miguel Mesquita Montes, Ricardo Rodrigues.

10. Suspiria

suspiria

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Luca Guadagino realizou esta nova versão de um dos melhores filmes de terror da história do cinema. O resultado é um remake que o é sem o ser: o grosso do enredo não muda muito, mas depois envereda por caminhos que surpreendem (pela positiva) tanto os que não viram e os que viram o clássico de Dario Argento, de 1977. O que este consegue fazer melhor que o original é a música, muito bem composta por Thom Yorke e que se adequa na perfeição ao ambiente do filme. Outro ponto muito positivo de Suspiria é mostrar que Dakota Johnson é muito, mas muito mais do que o boneco quase sem emoção que apareceu na hórrida saga As Cinquenta Sombras de Grey.

Diogo L. Magalhães

9. Assim Nasce uma Estrela

a star is born

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Um triunfo, a auspiciosa estreia de Bradley Cooper na realização. Se é possível fazer do velho novo, que o diga a quarta versão da já clássica história de amor. Uma obra em que cada imagem e cada nota transbordam de paixão devota ao cinema, Cooper sabe o que é fazer um filme, e em igual medida, maravilhar a audiência. De montagens de esboçar um sorriso, a números musicais de fazer cair o queixo, há aqui um coração para lá de todo o espetáculo, e se Cooper nunca foi tão bom ator, a surpresa maior é a Lady Gaga atriz. Nasce mesmo uma estrela.

Gonçalo Silva

8. Ilha dos Cães

isle of dogs

Fonte: Divulgação/Big Picture Films

Ilha dos Cães marca o regresso de Wes Anderson ao mundo da animação, depois do seu enorme sucesso com O Fantástico Sr. Raposo. Num futuro distópico, os cães foram banidos da cidade de Megasaki, no Japão. O pequeno Atari, parte em busca do seu amigo de quatro patas, Spots, com ajuda de uma matilha de cães. O filme traz tudo o que há de melhor no trabalho de Anderson: uma meticulosa atenção ao detalhe, visuais fascinantes e um enredo que tem tanto de simples como extravagante. A peculiaridade inocente do stop-motion contrasta com a seriedade dos temas abordados. Uma história estranhamente humana, contada pelos olhos nossos melhores amigos.

Matilde Castro

7. Lady Bird

lady bird

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Um filme e obra tão genuína e pura que nos é impossível de não sorrir de volta a Greta Gerwig. Lady Bird é um exercício fabuloso das memórias que todos nós guardamos mais íntimas: as do fim da nossa infância e a travessia pelo mar de contradições da puberdade. Este é um cinema marcante e uma grande primeira incursão de Gerwig enquanto realizadora.

Ricardo Rodrigues

6. BlacKkKlansman – O Infiltrado

blackkklansman

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Realizado por Spike Lee, este filme apresenta uma grande narrativa e grandes interpretações, principalmente a de John David Washington, filho de Denzel Washington. A longa metragem é uma poderosa experiência cinematográfica que tenta e consegue passar uma mensagem de problemas raciais. Mesmo que menores em comparação aos anos 70, Lee expõe essas questões que ainda existem na sociedade de hoje em dia.

Lara Cardoso

5. The Florida Project

florida project

Fonte: Divulgação/Alambique Filmes

Sean Baker explora uma realidade muito específica, a dos que a sociedade não quer ver ou sequer reconhecer. Em contraste evidente temos a experiência de viver um dia de cada vez, com muito pouco, tendo como residência sempre provisória e instável o Magic Castle, um motel pobre junto à estrada. No extremo oposto, a opulência da Disney World de Orlando. Fisicamente muito perto, mas ainda assim tão longe. Contudo, o filme jamais procura julgar a realidade dura que apresenta. Muito pelo contrário, é uma bela e genuína exploração da infância vista a partir do olhar das crianças. Uma representação alegre, uma explosão de cores que transporta consigo a promessa de um futuro melhor.

Maggie Silva

4. Três Cartazes à Beira da Estrada

three billboards outside ebbing missouri

Fonte: Divulgação/Big Picture Films

Uma obra essencial numa época em que cada vez mais se discute os direitos e o papel da mulher na sociedade. Mildred (Frances McDormand) é uma das personagens femininas mais cativantes do cinema dos últimos anos, e o Oscar de Melhor Atriz Principal não foi conquistado por acaso. McDormand oferece-nos uma das melhores interpretações da sua carreira ao vestir o papel de uma mãe a procura de justiça pela morte da sua filha. Num filme em que todas as personagens são memoráveis, é importante destacar Sam Rockwell, que dá vida a um polícia racista mas que também se preocupa com a sua mãe, resultando numa personagem complexa.

Diogo L. Magalhães

3. Linha Fantasma

phantom thread

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Daniel Day-Lewis surge sempre penteado, sempre com o mesmo compasso de espera entre respirações; aliás, o seu comportamento não é mesmo uma espera, mas um hábito – a sua personagem é um monstro que é vítima do seu próprio amor: a arte (e tudo o que alcançar nela a perfeição pede). É incrível como Paul Thomas Anderson consegue impor a este Linha Fantasma elementos que são externos a um filme – como a banda sonora ou técnicas de filmagem – tão intrinsecamente, que eles passam a fazer parte indissociável do mesmo. Isto é obra dos grandes.

Miguel Mesquita Montes

Intrigante, sensual, inquietante e dolorosamente belo. É assim que podemos caracterizar este anti-romance de Paul Thomas Anderson. Sempre entre o academismo mais formal e o experimentalismo emocional, Anderson entrega-nos uma experiência cinemática que nos envolve tanto na sua beleza como na sua narrativa. Um anti-romance que nos enlouquece, feito por alguém apaixonado pelo cinema e pela forma como ele pode significar.

Ricardo Rodrigues

2. Chama-me Pelo Teu Nome

call me by your name

Fonte: Divulgação/Big Picture Films

Encontramo-nos num outro reino – o dos pessegueiros, das discussões acesas sobre arte, o de uma existência tranquila – que faz esquecer a lufa-lufa quotidiana. A beleza de tempos que já lá vão é evocada, e a natureza é generosa. Talvez seja até uma personagem participante. Um romance de verão é retratado na perfeição, e nada mais existe senão a emoção genuína da descoberta sexual e do primeiro amor. Luca Guadagnino criou aqui uma utopia sazonal, onde os personagens vivem no momento, e que belo e genuíno momento. Os protagonistas Armie Hammer e Timothée Chalamet convencem-nos inteiramente, relacionando-se com uma notável naturalidade. O verão chega inevitavelmente ao fim, mas muito para lá da summertime sadness, fica a memória desse momento quase perfeito.

Maggie Silva

Há amor em todas as formas: romance, família e amizade. Algures no norte de Itália, o jovem prodígio Elio apaixona-se pelo assistente do pai, Oliver. Mais que uma paixão de verão, a relação de Elio e Oliver é um amor sem limites, liberto dos clichés previsíveis tanto do coming-of-age, como dos romances LGBTQ+. Despojado de um antagonista que não o tempo, o filme de Luca Guadagnino não procura criticar ou moralizar. É precisamente nesta despretensão que se torna universal—embora protagonizado por dois rapazes, nos anos oitenta, é uma história sem género e intemporal. Chama-me Pelo Teu Nome veio para ficar.

Matilde Castro

1. Roma

roma

Fonte: Divulgação/Netflix

Uma obra-prima ensolarada no seu preto e branco, Alfonso Cuarón tece um microcosmos emocional tão avassalador quanto o imenso mundo que muda constantemente, lá fora das paredes da casa da família que retrata. Cada plano da câmara do mexicano é, de tão meticulosamente cuidado, uma obra de arte, num filme onde o próprio ainda se desdobra com mestria na produção, argumento e montagem. E que dizer dos grandes momentos, ancorados nas prestações perfeitas de Yalitza Aparicio e Marina de Tavira? Uma fita de uma perfeição intemporal.

Gonçalo Silva

É de louvar todo o cuidado tido nesta produção pela direção de arte, que contribuiu para uma cenarização perfeita, que nos permite remontar com todo o realismo necessário até ao México dos anos 70, onde Alfonso Cuarón viveu a sua infância. As prestações, embora muitas delas tomadas por atores amadores, são de uma inocência rara no cinema contemporâneo, e, em conjunto com a coragem do realizador em mergulhar no seu passado e trazer uma boa história, fazem de Roma aquele que é, certamente, o filme do ano.

Miguel Mesquita Montes