Poemas de Natal

O Natal aos olhos dos poetas

A poucas horas de comemorar o Natal, o Espalha-Factos reuniu estrofes, quadras e poemas de alguns dos mais aclamados autores portugueses e estrangeiros que descreveram e poetizaram esta época festiva.

Os poetas têm uma forma muito peculiar de ver o mundo e transformam em palavras as emoções, que o comum mortal não é capaz de descrever.

E porque no Natal não se economizam palavras e os sentimentos estão à flor da pele, a poesia junta-se à mesa com a família. Fernando Pessoa, Miguel Torga, David Mourão-Ferreira e Ary dos Santos, foram os portugueses escolhidos para protagonizar o recital de poesia natalícia.

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa, em Poesias
Fernando Pessoa

O poema de Fernando Pessoa descreve um Natal menos feliz, onde estão presentes sentimentos como a tristeza e a melancolia. O coração do poeta opõe-se ao mundo. Fernando Pessoa reconhece a família e a sua importância, todavia fá-lo sozinho, longe do mundo, numa conversa consigo mesmo. Embora a quadra natalícia apele a um sentimento de união e família, nem todos têm um lar para o qual possam regressar.

Natal

Soa a palavra nos sinos,

E que tropel nos sentidos,

Que vendaval de emoções!

Natal de quantos meninos

Em nudez foram paridos

Num presépio de ilusões.

 

Natal da fraternidade

Solenemente jurada

Num contraponto em surdina.

A imagem da humanidade

Terrenamente nevada

Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,

Só bonito na lembrança.

Natal que aos poucos morreu

No coração da criança,

Porque a vida aconteceu

Sem nenhuma semelhança.

Miguel Torga, em Poesia Completa, volume 2

Miguel-Torga

Para Miguel Torga o Natal é tempo de emoções, mas também de ilusões. Através de uma crítica à humanidade, o poeta afirma que o Natal das crianças se desvanece, quando a vida a acontece, de uma forma assaz diferente da prometida.

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, em Cancioneiro de Natal

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira reflete, neste poema, sobre a passagem do tempo. O poeta afirma que chegará o dia em que ele morrerá e deixará de estar presente no Natal, em que todos os seus conhecidos desaparecerão e tudo cairá no esquecimento.  Numa época em que todas as famílias se reúnem, à volta de uma mesa e ao redor de uma lareira, a ausência dos que já partiram é recordada. Para o poeta, o Natal perde o seu sentido, quando já não existem memórias vivas para recordar alguém que por cá passou.

Quando um homem quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

Natal é em Dezembro

mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

é quando um homem quiser

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher

 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, em As Palavras das Cantigas             ary-dos-santos

Ary dos Santos apresenta, no seu poema, o reverso da medalha, uma vez que o Natal não simboliza para todos uma época feliz. Segundo o poeta, nem todos têm um lar e dinheiro para gastar e assim alia-se aos que não vivem uma vida tão recheada e contente. Através das singelas palavras “irmão” e “amigo”, o poeta estabelece uma relação mais próxima com o leitor e demonstra compreender a dor dos que sofrem. Para o poeta o natal é “quando o homem quiser”, é sempre que o dia nasce, não precisamos de um dia específico para “presentear”, ajudar o outro.

LÊ TAMBÉM: O NATAL AOS OLHOS DOS GRANDES POETAS PORTUGUESES
E porque não foram somente os poetas portugueses que escreveram acerca do Natal, o Espalha-Factos selecionou dois poemas em inglês. Da autoria de G.K. Chesterton e Anne Brontë, os poemas que se seguem poetizam, numa língua universal, uma época de amor, união e partilha.

The House of Christmas

…This world is wild as an old wives’ tale,
And strange the plain things are,
The earth is enough and the air is enough
For our wonder and our war;
But our rest is as far as the fire-drake swings
And our peace is put in impossible things
Where clashed and thundered unthinkable wings
Round an incredible star.

To an open house in the evening
Home shall men come,
To an older place than Eden
And a taller town than Rome.
To the end of the way of the wandering star,
To the things that cannot be and that are,
To the place where God was homeless
And all men are at home.

G.K. Chesterton

G.K. Chesterton

G.K. Chesterton questiona a estranheza das coisas mais simples e estabelece um antagonismo com os valores da vida humana. De acordo com o poeta é tudo tão contraditório que o ser humano celebra o nascimento de Jesus, que não tinha abrigo, reunindo-se com a sua família no aconchego do lar.

Music on Christmas Morning

Music I love -­ but never strain
Could kindle raptures so divine,
So grief assuage, so conquer pain,
And rouse this pensive heart of mine -­
As that we hear on Christmas morn,
Upon the wintry breezes borne.

Though Darkness still her empire keep,
And hours must pass, ere morning break;
From troubled dreams, or slumbers deep,
That music kindly bids us wake:
It calls us, with an angel’s voice,
To wake, and worship, and rejoice;

 Anne Brontë

 Anne Brontë

Anne Brontë poetiza a música, salientando o seu poder. Para a poeta, as músicas de Natal, que marcam esta quadra festiva, aliviam a aflição e despertam corações. A música natalícia interpela, gentilmente, os que a escutam, porque embora “as trevas ainda mantenham o seu império”, é necessário “acordar, adorar e alegrar”.

Este natal declama um poema, aquece o coração de quem o escuta e reflete acerca do  verdadeiro significado desta época festiva.

LÊ TAMBÉM: 28 LIVROS PARA OFERECER NESTE NATAL

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Benfica Darwin Liga Europa SIC
Liga Europa leva SIC de volta ao primeiro lugar isolado