Variety

Roma: Panorâmicas invertidas, para que vos quero…

Alfonso Cuarón foi pessoal comigo, portanto vou responder na mesma moeda.

À socapa da mãe, dois irmãos sobem ao telhado de casa, onde a criada vai lavando a roupa. Imitam, sem dar por ela, o que por aí ouvem, entre correrias e tiros que não querem magoar. “Ai, se a vossa mãe vos apanha…“, replica a heroína do filme, Cleo (Yalitza Aparicio), com aquela voz carregada das promessas de que ninguém vai saber que os dois cowboys andaram ao tiro outra vez.

Por ser baleado quando a brincadeira pedia o contrário, um dos pistoleiros sai para casa e, supõe-se, vai fazer queixinhas à mamã. Mas nunca ficamos com a certeza disso. Desolado, o outro irmão recusa responder à sempre preocupada empregada. “Estou morto, não posso falar“, justifica. A água escorre da roupa que pendia das cordas de a estender, e imerge a que fica por lavar, num pequeno tanque. Pelas crianças não faz mal abandonar o ofício.

Também eu me lembro deste sentimento, pois também eu tive um irmão mais velho que, quando me deixava desconcertado na bola, ou quando eu tanto permitia que a derrota nesse ou noutro jogo me envolvesse, dava conta da dificuldade que é a de tudo ser tão fácil… da dificuldade que é levar um tiro a brincar e não poder responder a sério.

Depois, já deitada simetricamente contra o pequenino, que, triste, quer falar com ela, mas não obtém resposta de imediato, Cleo remata finalmente: “Desculpa, mas não posso falar. Estou morta.” E tudo volta a estar bem.

Esta é a primeira dica que Alfonso Cuarón nos deixa – a de que vai ficar tudo bem; a de que, mesmo aleijada, a criada vai ficar do lado das crianças. Sempre. O realizador deste Roma (2018) usa e abusa deste tom misterioso, que paira sobre o filme e, como a água que vai caindo da roupa, nos atinge de quando em vez. Os detalhes passam-nos levemente pelos olhos, mas atingem-nos de forma pesada o coração.

Há mais duas crianças em volta do cerne desta história. Os quatro irmãos mexicanos, agora sem a figura paternal que sempre os envolveu, vêm-se na angústia de não sentir a buzina a tocar, som esse que lhes garantia que o papá está a chegar, e que o carro – um belo Galaxy – não vai ficar riscado quando for estacionado na apertada garagem de sua casa.

Esta é outra dica de Alfonso Cuarón, que insiste em nos pregar partidas. Mas o segredo de Roma está nas panorâmicas, que aqui se fazem insistentemente ao contrário. A casa de família, reconstituída diretamente da memória do realizador (sim, ele era uma das quatro crianças), é-nos apresentada também através desta técnica.

Mas, como em todos os grandes filmes, vão surgindo premonições.

A panorâmica passa então a ser feita da esquerda para a direita, como é comum. A técnica recorrente é roubada a outros filmes para nos ajudar a situar a perdida Cleo, depois de partir numa corrida doida rua fora para encontrar os rapazes que dispararam para o cinema. Tudo está bem, como a panorâmica feita no sentido ocidental nos indica, até que o pai das crianças, que supostamente investiga no Canadá, sai do tal cinema a correr atrás doutra mulher. “É o teu pai“, diz o amigo de um dos quatro filhos, agora são e salvo porque já está aos olhos da criada. “Não é, não“, garante o protegido. E a fita volta a rolar.

Pela segunda vez aplicada, a panorâmica mais usual serve para nos levar de Cleo, entretida pelo estoicismo que reside na lida da casa, à figura do menino que ouve a mãe chorando ao telefone e, por isso, descobre que o pai está para os deixar.

Uma das cenas mais marcantes em Roma passa-se numa loja de berços. A empregada, grávida de um rapaz que a abandonou, vê naquelas camas um lugar seguro para o filho que está para ter. Outra vez somos trazidos por uma panorâmica normal para um momento de alta tensão: uma revolução estudantil decorre lá fora, e isso pode comprometer a segurança de Cleo e, sobretudo, do seu feto.

Por fim, depois de umas férias em família longe de casa, feitas para o pai poder recolher o que é seu da habitação, os restantes regressam. “Ficou feia!“, concordam os irmãos sobre a casa despida das estantes e respetivos livros do pai. E não preciso de dizer que tipo de panorâmica usou Alfonso Cuarón neste momento.

Uma distribuição atribulada

Pois, também eu estou desolado com Roma. Esta obra chama-nos para a vida, embora chame pouca gente para os cinemas. Em Portugal, teve exibição limitada a Lisboa e Porto. A produtora do filme, a plataforma de streaming Netflix, assegurou a distribuição a nível nacional.

Ainda assim, tudo isto não deixou de ter forte impacto: no Festival de Cannes, foi pedido à produtora e distribuidora que respondesse às exigências de colocar os filmes no circuito tradicional, o que levou a que a Netflix abandonasse a competição francesa.

Resta-me questionar: Como é possível um elenco tão pobre em nomes ser tão rico em prestações? Como é possível um realizador brincar tanto connosco, recorrendo a uma subtileza tão incomum no modo de contar histórias tão esbatido dos dias de hoje, ao mergulhar no próprio passado? E pensar que já não se justifica ir ao cinema…

Roma é perfeito e, por muito que venha a ser ignorado, vai deixar o seu realizador na história. Há, nesta crónica mexicana, alusões a toda a obra cinematográfica do autor, que foi à América aprender mais cinema para se poder dar ao luxo de coisas destas. Mas a brincadeira não acaba aqui, porque está na hora de rever esta obra de arte. E vou fazê-lo regularmente para, caso alguém me venha recordar do filme, eu possa dizer: “Não posso falar. Estou morto.

Título original: Roma

Realização: Alfonso Cuarón

Argumento: Alfonso Cuarón

Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey

Género: Drama

Duração: 135 minutos

Reader Rating0 Votes
0
10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Cristina Ferreira
‘O Programa da Cristina’ bate máximo anual