Antes sequer de sair o seu primeiro álbum de estúdio, em 2013, os Bastille decidiram abrir as hostes com duas mixtapes. Denominadas de Other People’s Heartaches Part 1 e 2, os trabalhos eram homenagens às inspirações da banda e às canções que eles cresceram a ouvir, já com algumas referências ao álbum Bad Blood.

O som era mais experimental e também feito em parceria com outros artistas que o grupo admirava ou com quem trabalhava em conjunto na altura. As mixtapes foram retiradas da Internet, devido a ameaças de processos de tribunal por parte de alguns dos autores das músicas originais. Contudo, numa boa pesquisa é possível ainda encontrar as duas partes e também se salvaram algumas músicas para os primeiros trabalhos de estúdio do quarteto (como é o caso do single Of The Night). A banda manteve tanto carinho por este projeto que lançou VS., a terceira parte, em 2014, e a quarta, que saiu no dia 7 deste mês.

O novo projeto foi descrito pela própria banda como “uma ponte entre o anterior álbum e o próximo”. Wild World, lançado em 2016, era uma analogia para os problemas que se vivem no mundo, sem ser uma chamada de atenção ultra politizada. Já Doom Days, com lançamento previsto para o próximo ano, foi falado pelos membros em várias entrevistas como um “apocaliptic party album”. Os problemas ainda ali estão, mas simplesmente os aprendemos a ignorar e a divertirmo-nos enquanto eles acontecem.

Entrar logo com uma versão acapella de Wild World, de Cat Stevens, mostra que as referências não são, de todo, discretas. O final com a canção Warmth (que fez parte do anterior álbum dos Bastille), também em acapella, abre a porta para a próxima era da banda. Em vez da música toda, a última faixa termina repentinamente com o verso “Deafen me with music”, que parece ser o objetivo da banda para o seu próximo trabalho: ensurdecer e fazer esquecer os problemas com música.

Esta temática faz com que o mais recente Other People’s Heartache seja talvez a mais coesa das mixtapes que a banda lançou. As outras três sentiam-se mais como experimentações que foram lançadas ao mundo com uma introdução e uma conclusão definidas e algumas referências comuns pelo meio. Contudo, variavam muito em géneros, adaptando-se também aos músicos com os quais colaboravam em cada uma das canções. Esta parece ter um fio condutor mais vincado que as une em termos de temática e sonoridade, sem que as diferenças sejam demasiado dispares.

O trabalho remete para o universo dos anos 90/início de 2000, seja pela escolha das próprias músicas em cover (Would I Lie To You?, de Charles & Eddie, Don’t Let Go, das En Vogue, e Flowers, das Sweet Female Attitude), seja pela roupagem que lhe deram. Até a presença do cantor Craig David (que regressou este ano com o álbum The Time Is Now, onde os Bastille estão presentes em I Know You) transporta para os sons do início do século. Grip (um original da banda, numa parceria com o duo de produtores Seeb) é o outlier do conjunto, a mais moderna e electrónica de discoteca. Ainda assim, funciona no contexto da track list, como a representante da música mais recente na ‘pseudo viagem no tempo’ que OPH4 faz.

É nos covers que a força da mixtape se concentra. Os Bastille nunca se contiveram nas versões que fazem, nem tiveram medo de pegar em canções de géneros diferentes. O regresso à ideia que fez nascer as mixtapes em primeiro lugar (a terceira parte era só composta por originais) torna OPH4 um trabalho fresco e uma boa preparação para o próximo disco que aí vem.

Porém, para mim, o momento mais bonito dos 25 minutos de OPH4 é no final de The Descent. Enquanto a voz do vocalista Dan Smith vai desaparecendo e sendo substituída pela do convidado Jacob Banks (que participa juntamente com Lily Moore e Moss Kena), entra um teaser do próximo álbum com uma versão reimaginada da canção Million Pieces (ainda por lançar). O excerto é curto, mas tão simples, sentimental e grandioso, que deixa a pedir pela versão completa da música.

Sete músicas e 25 minutos podem parecer pouco, mas tendo em conta o projeto, faz sentido ser um trabalho mas concentrado. É verdade que os Bastille têm sido associados ao universo mais comercial e, ao mesmo tempo, renegados e subestimados no que toca à cena indie pop (importante frisar que a própria banda se recusa a ficar associada a um único género). Contudo, quem tem a curiosidade de procurar mais na discografia da banda descobre muitas pérolas escondidas e representativas da versatilidade do grupo. E são projectos como esta mixtape que provam que o grupo britânico não é de todo um para jogar pelo seguro e não deviam ser unicamente “aquela banda da canção do ehoh”.