Rui Veloso lotou a arena do Campo Pequeno e propocionou um concerto mágico com quase três horas de duração, digno de um milagre de Natal.

O pretexto para o concerto agendado no Campo Pequeno deve-se à época natalícia. Rui Veloso, uma das maiores figuras da música portuguesa, prometia surpreender o público e por isso trouxe consigo convidados de luxo para que o serão se tornasse ainda mais especial.

A parcos minutos do início do concerto, consegue-se perceber que o público presente na sala é diversificado e, sobretudo, familiar. Há pais, filhos, avós, netos. Todos eles ansiosos que o apelidado de “pai do rock português” suba ao palco para atuar.

O calor do Ecce Ensemble

No entanto, antes de Rui Veloso, o Ecce Ensemble entra em cena para assegurar um momento erudito, invocando o espírito natalício como principal ingrediente. As cercas de 30 vozes, guiadas pelo maestro Paulo Lourenço, usaram Os Putos e Lisboa Menina e Moça, de Carlos do Carmo, para trazer familiaridade ao público.

Depois de 15 minutos sublimes do coro vindo do Porto, o conterrâneo Rui Veloso entra em cena, juntamente com a sua banda constituída por seis elementos. O músico de 61 anos começa por estender a toalha na Praia das Lágrimas, dando início ao concerto de uma forma um pouco melancólica.

Todo o tempo do mundo é o primeiro êxito que se segue e põe o público a cantar e, ao mesmo tempo, consegue arrepiar com a letra intimista que o tema contém. Rui Veloso aborda, pela primeira vez, o público presente no Campo Pequeno.

“Estou meio adoentado. Tenho renite ou sei lá o que isto é mas tomei tudo o que havia para estar bom hoje”, proclama Rui Veloso visivelmente feliz, conseguindo também arrancar umas gargalhadas aos espetadores. Estando doente ou não, a verdade é que o timbre inconfundível de Rui Veloso permanece intacto.

“Se não fosse o rock n’ roll, o que seria de mim?”

Segue o alinhamento da noite com um clima blues a pairar no ar. Ouve-se a sequência Já Não Há Canções de Amor, Fado do Ladrão Enamorado, Nunca me Esqueci de Ti e Guadiana. Destaque para secção rítmica desta última canção que deu ênfase a dinâmicas folclóricas com o público a acompanhar com palmas ritmadas

Não Há Estrelas no Céu põe o público em coro em uníssono e Jura prolonga o sentimento intimista criado pela música tocada por Rui Veloso e sua banda. Depois deste momento, o música chama a palco, o espanhol António Serrano para assumir a harmónica no tema Fado Pessoano. Nas palavras de Rui um tema “raro” de se ouvir ao vivo.

No mesmo registo de canções que raramente toca em concerto, Rui Veloso dedica Eléctrico Amarelo aos filhos e ao colega da música Vitorino. A titulo de curiosidade, na mesma fila onde está Vitorino avista-se também António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa e Eduardo Ferro Rodrigues.

“Everyday I Have The Blues”

De seguida, acontece uma sessão improvisada de Blues e, depois isso, há mais uma sequência de clássicos do repertório de Rui Veloso: Porto Sentido, Porto Covo e À sombra da Tamareira.

Rui Veloso apresenta um desfile de temas do seu repertório, sob a forma de medley. Da Rapariguinha do Shopping até à Máquina Zero e sem esquecer a Morena de Azul, o músico apresentou uma nova roupagem a estes temas face à forma como estes foram gravados originalmente.

Há tempo para recordar o Lado Lunar mas é o blues que volta a reinar através de Chico Fininho. A harmónica de António Serrano volta a brilhar nesta cancao..

Já no encore, A Paixão (segundo Nicolau da viola) faz com que a arena do Campo Pequeno fique iluminada e coloca Rui Veloso completamente rendido ao carinho do público. Quase três horas depois, o concerto termina com o Ecce Ensemble em cima de palco, acompanha o Presépio de Lata que o músico dedica às famílias com dificuldades financeiras.

Apesar não editar música nova há mais de uma década, é impressionante presenciar a influência que Rui Veloso ainda possui. Um concerto soberbo de um dos maiores nomes da música popular portuguesa

Fotografias de Rodrigo Santos