Depois de terem esgotado o Hard Club, no Porto, foi a vez dos IDLES se estrearem em Lisboa. Os britânicos mostraram o porquê de serem catalogados como a banda mais importante do momento. Houve cuspo, mosh pits, palavras de ordem, punhos levantados, sorrisos e abraços. A lição punk que todos precisávamos.

Subversiva nos versos crus e agressivos, mas alimentada por uma alegria persistente. Um sentimento que resiste a qualquer sistema fascista e opressor, a qualquer desigualdade social, a qualquer ‘Brexit’ desta vida. E não somos nós que o dizemos. Joy as an Act of Resistance, último disco do quinteto de Bristol lançado em agosto, é o arquétipo perfeito dessa ideia.

O quinteto liderado por Joe Talbot transpira juventude, mas emana consciência. O mundo que os rodeia não os agrada e o punk electrizante que produzem é o maior reflexo dessa insatisfação. É um grito de revolta de uma geração que se quer fazer ouvir em todos os cantos do mundo.

Nesta terça feira (28) à noite, o grito fez-se ouvir na capital portuguesa. O Lisboa ao Vivo estava a rebentar pelas costuras para receber os IDLES. Com a moldura humana de olhos colados no palco, as primeiras notas do baixo Adam Devonshire e da bateria de John Beavis marcavam o compasso tenso de Colossus – faixa número 1 do último LP. Uma entrada a pé juntos que Joe Talbot concretizou assim que cantou o primeiro verso da canção, em perfeito uníssono com o público.

A tensão transformou-se em explosão quando Joe gritou o verso “I don’t wanna be your man” repetidamente e a música ganhou outra vida. Assim como o mosh e as danças descontroladas que efervesciam em frente ao palco e que cresceram com o riff hipnotizante de Never Fight a Man With a Perm, a segunda do alinhamento e do último trabalho da banda.

“Sou feminista” assumia Joe Talbot antes de se atirar a MOTHER, faixa de Brutalism, do primeiro disco lançado em 2017. A música é o retrato de um homem que vê a sua mãe ser explorada por uma sociedade sem igualdade de género. Esse homem bem pode ser Joe. O frontman que não precisa de encarnar nenhuma persona. Ele canta aquilo que escreve e expressa aquilo que sente, com a transparência e fúria de quem viveu as histórias por detrás das suas letras. Perdeu a mãe entre a gravação dos dois discos, a filha logo após o nascimento e pelo meio teve problemas com o álcool e com as drogas. Mas ali está ele, a bater com o punho no peito e a mostrar como se faz.

Na plateia, grita-se com a mesma alma que vem do palco. Há saltos, empurrões e suor. Expulsa-se tudo o que há para expulsar. Da fúria à alegria. Da angústia ao amor. Pelo meio do mosh, há um grupo de amigos que se parece desentender mas tudo se resolve com abraços. Há também um sapo em forma de peluche que Joe cumprimenta em bom português “olá, sapo!” e que sacou umas gargalhadas no público. Momentos que se repetiram durante todo o concerto.

“Esta música é dedicada a toda a escumalha nesta sala”, era o prenúncio deixado por Joe para I’m Scum, uma malha que fala sobre a aceitação pessoal e que levou o guitarrista Mark Bowen num crowdsurf. Se Joe é o frontman dos frontmans, o corpo dos IDLES, Mark é a alma, o homem que não pára, que vai para o meio das pessoas e que canta junto delas.

LÊ TAMBÉM: ‘JOY AS AN ACT OF RESISTANCE’: O MERECIDO TRIUNFO DE IDLES

Danny Nedelko era uma das mais aguardadas pelo público. Uma música sobre “o amor pelos imigrantes” , aqueles que “tornam o nosso país um sítio lindo” no sotaque british de Joe Talbot. Seguiu-se uma visita a Brutalism com Divide & Conquer 1049 Gotho. Depois, “I’m a real boy / Boy, and I cry” versos de Samaritans desmascaravam todos os estereótipos de masculinidade e Television dava um soco no poder dos ecrãs sobre as pessoas e levava Joe a levantar o dedo do meio enquanto cantava “F*** TV”.

O alinhamento continuou a visitar os temas dos dois discos dos britânicos e seguiu com Great, Love Song, White Privilege e Glam Rock. Nesta última, Mark Bowen voltava a fazer das suas e a dar trabalho ao técnico de palco e aos seguranças que o acompanharam em mais uma visita à plateia.

Subitamente, uma rapariga sobe ao palco e numa questão de segundos o palco é invadido por uma dezena de raparigas. Umas dançam apenas, outras tocam guitarra e há uma que se aventura na bateria. O som é desordeiro mas não é inquietante. É bonito o que acontece no palco. Há sorrisos e mais sorrisos. Os músicos abraçam os fãs e os fãs abraçam-se entre eles. Deverá ser esta a arma de resistência?

“Vocês são o melhor público da Europa. Percebi isso ontem no Porto e hoje aqui”. Se há elogio que nós portugueses estamos cansados de receber provavelmente, será este. Mas Joe é um homem de palavra e nós aceitamos o elogio em troca de uma última música. Rottweiler, um hino anti fascista, foi a música escolhida para fechar um concerto que já ultrapassava a hora e meia.

“Não vos esquecemos”, despediu-se Joe Talbot de punho erguido e sob um merecido mar de aplausos. Com certeza que quem lá esteve dificilmente se irá esquecer. Obrigado pela lição, lads.