Foi no dia 30 de novembro de 1935 que Fernando Pessoa faleceu. A data de hoje marca 83 anos sobre a sua morte e os mistérios são infinitos. Ficam inúmeras perguntas sem resposta e a incógnita de como Pessoa sentiu a chegada da sua morte.

“Dá-me os meus óculos”, estas foram as últimas palavras conhecidas de Fernando Pessoa antes de abandonar o seu corpo com mentes infinitas. Morreu no hospital de S. Luís dos Franceses, no Bairro Alto, em Lisboa. Português de gema, morreu num hospital estrangeiro não fosse ele estrangeiro também no seu coração e mente.

No seu epitáfio pode ler-se:

“No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

– Duas, de lado a lado -,

Jaz morto, e arrefece.”

João Gaspar Simões, no seu livro de 800 páginas acerca da Vida e Obra de Fernando Pessoa, acrescenta: “Jaz morto e arrefece, jaz morto e apodrece. Mas enquanto o seu corpo apodrece, a sua alma ressuscita. É agora que Fernando Pessoa vai principiar a viver!”.

Uma negação cara

Dizem quem o conheceu, que meses antes da sua morte, Fernando Pessoa negava a sua condição. Estava já doente, nos seus escassos 47 anos, doença do fígado. Ao longo da sua vida, a criatividade e os laivos de loucura tiveram um preço: a cirrose. O Dr. Jaime Neves, primo do poeta, avisou-o várias vezes de que mais um copo de absinto seria o seu fim. “O poeta, serenamente, como quem, na verdade, está persuadido de que a morte não existe: Neófito, não há morte”. No entanto, lá continuava Pessoa a beber, no balcão do Val do Rio.

“Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?

Não: vou existir. Arre! Vou existir.

E-xis-tir…

E-xis-tir…

Dêem-me de beber, que não tenho sede!”

fernandopessoa

Viver, existir. Era isso que movia Pessoa e que lhe dava ânimo para continuar a escrever, até ao leito da sua morte. Três dias antes de morrer, segundo o que se sabe, ainda foi Pessoa ao seu café da Baixa; bebeu um café com Almada de Negreiros, soltou gargalhadas “nervosas” e segundo os presentes tossia violentamente. Seria já a doença a dar os seus sinais.

“(…) foi acometido de uma fulminante cólica hepática. Era a noite de 27 para 28 de Novembro.(…) o poeta apesar de completamente prostrado opunha-se: que era uma crise como qualquer outra, já tivera mais assim”. Nessa noite, Pessoa insistiu em barbear-se, e o seu mordomo serviu-o pela última vez. “Fernando Pessoa, numa cama de hospital, entrava no ‘abismo’ e no ‘silêncio’”, pelas palavras de João Gaspar Simões.

Pessoa, pessoas, e uma morte iminente

Nunca será clara a forma como Pessoa via a morte ou a chegada da mesma. Há quem pense que o poeta nem a temia, por negá-la de forma tão evidente. Existem, no entanto, muitos poemas de variados heterónimos que podem dar pistas acerca deste tema e da forma como o poeta o pensava.

“Se te queres matar, porque não te queres matar?

Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,

Se ousasse matar-me, também me mataria…”

Assim descreveu a morte Álvaro de Campos, certo de que, morrendo de uma certa forma, voltaria a renascer. Esta ideia volta a ser reiterada num outro conjunto de versos:

“De que te serve o teu mundo interior que desconheces?

Talvez, matando-te, o conheças finalmente…

Talvez, acabando, comeces”

Álvaro de Campos acreditava veemente que ao morrer iria renascer de uma outra forma, finalmente conhecer o seu verdadeiro eu, ou os seus vários “eus”. Será que na morte Pessoa encontrou a sua paz?

fernando20pessoa

Fernando Pessoa ortónimo era um eterno saudosista da sua própria infância. Sempre quis voltar a ser criança e a evitar a “dor de pensar” que o atormentou durante uma eterna vida. Talvez no leito da morte, onde dizem que voltamos ao início quando atingimos o fim, tenha encontrado a paz de espírito que tanto procurou em vida. Ou talvez não. Tudo isto são suposições e interpretações que vários especialistas ou até simples leitores fizeram desde que o poeta morreu. Serão sempre perguntas sem respostas certas.

O heterónimo que nunca morreu e o poeta que nunca morrerá

Apesar da obra de Saramago se intitular de O ano da morte de Ricardo Reis, sabe-se que Fernando Pessoa nunca deu um ano para a morte do seu heterónimo pagão. Todos os outros heterónimos tiveram o seu ano de morte, mas Ricardo Reis não, daí o romance do Nobel português.

Escreveu sobre a morte um dia Reis o seguinte:

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa

Se é para nós que cessa. Aquele arbusto

        Fenece, e vai com ele

        Parte da minha vida.

Em tudo quanto olhei fiquei em parte.

Com tudo quanto vi, se passa, passo,

        Nem distingue a memória

        Do que vi do que fui.”

Certo é que, mesmo com inúmeras perguntas que ficaram sem resposta antes da sua morte, Pessoa ficará para sempre na História como o maior poeta português do século XX.

Morto fisicamente, eterno na mente.

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