No contexto da Feira Internacional de Guadalajara, no México, que decorre até domingo, 2 de dezembro, o crítico literário espanhol Antonio Sáez Delgado, do jornal espanhol El País, reuniu numa lista aquelas que considera serem as obras de literatura portuguesa contemporânea mais marcantes juntando nela nomes como António Lobo Antunes, José Saramago e Sophia de Mello Breyner Andresen.

A Feira de Guadalajara, que será encerrada numa cerimónia com a presença de António Costa, tem este ano como convidado de honra Portugal. A feira tem assim diversas atividades e exposições focadas na literatura e cultura portuguesa, e conta com a presença de vários conhecidos autores portugueses neste que é o mais importante certame do mundo editorial.

Nós e a Europa ou as duas razões, Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço

Foto: Horst Tappe Foundation / página dedicada a Eduardo Lourenço

Delgado aponta este ensaio de Eduardo Lourenço como um brilhante ensaio sobre o espírito europeu e a relação portuguesa e ibérica com o resto da Europa que, apesar de publicado há mais de trinta anos, se mantém relevante e atual.

Todo el oro del día, Eugénio de Andrade

Fonte: Goodreads

Esta trata-se de uma colectânea espanhola da obra de Eugénio de Andrade, o segundo poeta português mais traduzido do século XX, a seguir a Fernando Pessoa. Esta trata-se de uma compilação, cujo nome provém de um dos poemas que nela configura, que mostra a escrita exata e essencial de Andrade, define Delgado, na exploração da temática do amor e de outras a ela associadas: a memória, a simbologia do corpo, da luz e das palavras.

Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago

Fonte: Goodreads

Nenhuma lista de obras e autores portugueses essenciais e influentes na cultura portuguesa do século XX estaria completa sem Saramago. O único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa, Delgado talvez surpreende algum do público português ao salientar O Ensaio sobre a Lucidez de entre a vasta e importante obra do autor, falecido em 2010, e laureado com o Prémio Nobel há precisamente vinte anos. Nesta obra, o crítico do El País salienta-lhe a reflexão inteligente, exímia e profunda da palavra democracia e dos males que afligem a nossa sociedade.

A Sibila, Agustina Bessa-Luís

Fonte: Divulgação Relógio D’Água

Se esquecida por uns, Agustina Bessa-Luís é, na verdade, de leitura imprescindível, como vem dizer o El País. A Sibila, a sua epopeia rural, mostra o realismo e profundidade da escrita de Bessa-Luís, que compreende e expõe a alma das suas vibrantes personagens. Muitas destas personagens são mulheres, que têm nesta e noutras obras da autora a chance de serem as protagonistas das suas narrativas, numa escrita absolutamente feminista, e simultaneamente de difícil classificação, isto porque Agustina Bessa-Luís não seguia nenhuma escola particular, e por isso se torna extraordinariamente moderna.

O Arquipélago da Insónia, António Lobo Antunes

Fonte: Divulgação, Leya online

O El País salienta o estilo inconfundível e a capacidade de marcar os leitores de António Lobo Antunes, atribuindo à sua experiência na guerra colonial a sua capacidade de emocionar até às lágrimas, criando um mundo de vozes e ecos no seu marcantes estilo de escrever prosa que soa a poesia.

Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares

Fonte: Goodreads

Um dos mais contemporâneos e novos autores nesta lista, o prolífico e estabelecido autor Gonçalo M. Tavares é nesta lista indicado com o seu romance Aprender a Rezar na Era da Técnica. A obra consiste numa exploração sobre poder e morte, com a linguagem precisa e dilacerante que marca o seu estilo e que guia os leitores através da sua obra, que engloba vários géneros.

Devastación de Sílabas, Nuno Júdice

Fonte: Goodreads

Outra antologia espanhola de poemas de um autor português, desta feita Nuno Júdice, também romancista e antigo professor universitário. Neste caso, o autor vê a sua poesia destacada pelo El País, que nela salienta a sua linguagem lírica e única, mas também todo o conjunto da obra de Júdice, a qual cativou o público espanhol.

A Costa dos Murmúrios, Lígia Jorge

Fonte: Goodreads

Um romance que serve de testemunha da queda do império ultramarino português e da guerra colonial, focando-se essencialmente em Moçambique. O El País destaca como este romance de Lídia Jorge mostra o papel da obra literária na manutenção da memória e de testemunhar a dor da ruína de uma sociedade, e do papel do autor em preservar valores humanos.

Tiempo Terrestre, Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia

Foto: Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna

A lista não estaria completa sem Sophia de Mello Breyner Andresen, através duma antologia poética espanhola que reúne 100 poemas da poetisa, no seu estilo puro, mágico, e pleno, que permite ao público espanhol entrar em contacto e conhecer este nome inescapável da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

O Retorno, Dulce Maria Cardoso

Fonte: Goodreads

Para terminar, o El País realça O Retorno como um dos melhores romances portugueses dos últimos anos. Com um ritmo envolvente e incansável o livro consiste num relato sobre os retornados de Angola após o fim da guerra colonial em meados do anos 1970, consistindo também, paralelamente, no retrato de um mundo em ruínas, e de um novo que das suas cinzas nasce.

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