Beautiful Boy estreou esta semana nos cinemas nacionais. É a primeira obra em língua inglesa do realizador belga Felix Van Groeningen e conta com Steve Carell e Timothée Chalamet nos papéis principais. Os dois actores entraram já em plena campanha para os Oscars, num filme que vive das suas prestações. 

Beautiful Boy é uma história biográfica. Narra a vida de dois desconhecidos do grande público, já imortalizada em dois romances de sucesso. David Sheff, um aclamado jornalista, e o seu filho Nic Sheff, lutaram durante anos contra o vício de Nic, metanfetaminas e heroína. Vencida a luta, deixaram registadas as suas provações em duas obras biográficas, Beautiful Boy, por David Sheff, e Tweak: Growing Up On Methamphetamines de Nic Sheff. Destas duas obras nasceu o argumento de Beautiful Boy, um conto que nunca se torna demasiado intrusivo ou incómodo. 

Beautiful Boy narra a adolescência de Nic, vista maioritariamente a partir do olhar do seu pai. O início da vida adulta, os anos de universidade, sempre eles interrompidos e incompletos, atormentados pelo fantasma do vício. 

A Lógica Circular do Vício

O filme apresenta uma narrativa algo circular, na qual regressamos, em desespero, sempre ao mesmo ponto de partida. Esta lógica de repetição é, na realidade, um dos maiores trunfos desta fita. Este repetir de padrões é necessário no que diz respeito a um retrato fiel do que é o vício. Muitas são as recaídas a que assistimos ao longo das duas horas de filme. Este constante retrocesso permite-nos compreender como a vida familiar de David é progressivamente desgastada pelas promessas falhadas.

Beautiful Boy é o que podemos chamar um cautionary tale, uma história de: “não faças o que eu faço, faz o que eu digo e abre os olhos para os perigos que te rodeiam”. É uma carta de amor à família, celebrando os sacrifícios, assinalando a destruição que o vício opera. A narrativa muito ganha em não ceder à tentação de um final feliz. O final feliz de Nic deve ser conseguido todos os dias, operado numa lógica de luta constante. Também é bem claro, não depende dos esforços da sua família. A ajuda deve partir de uma predisposição pessoal, algo que nenhum elemento externo consegue impor. Uma mensagem importante para núcleos familiares que possam estar a atravessar provações semelhantes. 

Foto: NOS Audiovisuais

Um Elenco de Luxo

Dito isto, a beleza da mensagem e do sentimento de Beautiful Boy está assente nas prestações de Steve Carell e Timothée Chalamet, profundamente elogiados no que a esta produção diz respeito, e com legitimidade. Steve Carrell tem-se elevado, nos últimos anos, a um estatuto camaleónico, digno de louvores e premiações. De actor de comédia para actor de drama, a transição é dinâmica e credível. Aqui, apresenta uma prestação algo apática, concordante com este pai desesperado, incapaz de agir ou encontrar as palavras capazes de instigar a mudança. 

Timothée Chalamet prova, uma vez mais, que mereceu tornar-se no início de 2018, aos 22 anos,  o actor mais novo a ser nomeado para o Oscar de Melhor Actor em 80 anos. Chalamet é convincente neste registo de jovem viciado. Opera todas as transformações que a academia tanto aprecia, emagrecendo notoriamente para este papel, tornado-se uma figura franzina e fragilizada, dominada por alterações de humor pronunciadas. Nunca perdendo a credibilidade, Chalamet sabe operar estes picos, estas oscilações, e a euforia ocasional que aqui pretende transmitir. 

Carell e Chalamet são o melhor de um filme que consegue pecar por vezes por falta de profundidade. Nic e David Sheff nunca deixam de se apresentar como uma dupla algo genérica. São um pai e filho em crise, são uma família em crise juntamente com Maura Tierney, uma óptima intérprete na pele da segunda mulher de David. 

Foto: IMDB

Uma Narrativa Genérica

Infelizmente, estes podiam ser qualquer família de classe média a média alta, nos Estados Unidos, perante uma situação de vício cada vez mais generalizada. Poucas são as marcas distintivas de um ou de outro. David é um jornalista e afável pai de família de três, Nic é um golden boy que não correspondeu à promessa. Artístico, inteligente e astuto, deveria estar a fazer sucesso no mundo mas o vício falou mais alto. Podiam ser estes personagens, ou quaisquer outros, pouco sabemos sobre as suas motivações e pensamentos, o que enfraquece esta obra.

Para além disso, o suposto nível de desgaste físico sofrido por Nic nunca se torna inteiramente credível. Digamos que, até no seu ponto mais baixo, não deixamos de ver no personagem interpretado por Chalamet alguém repleto de vitalidade e esperança. Nunca vemos a verdadeira face negra do vício, não por culpa da interpretação aqui apresentada, mas devido a escolhas narrativas e de caracterização. O filme podia ir mais longe, mas procura poupar o espectador. Nunca Nic parece verdadeiramente à beira da morte, perto do abismo, como o argumento nos parece querer convencer. 

Foto: IMDB

Beautiful Boy é uma história inocente e inofensiva, bela, mas algo protegida contra a dureza da realidade. É uma produção cinematográfica, e apesar de baseada numa história verídica, não se desprende do sentimento de narrativa.

Uma bela narrativa, adornada com uma banda sonora exímia e uma leitura pós-créditos para a qual vale a pena ficar dentro da sala até ao fim. Uma história sobre esperança e responsabilidade pessoal, uma carta de amor à família, que mesmo ficando pela superfície, merece a visualização. 

7/10

Título original: Beautiful Boy
Realização: Felix Van Groeningen
Argumento: Luke Davies, Felix Van Groeningen 
Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet e Maura Tierney
Género: Drama, Biografia
Duração: 120 minutos