A Fundação Calouste Gulbenkian inaugura esta sexta-feira, dia 30, a exposição Eça e os Maias para celebrar o 130.º aniversário da publicação deste título. O Espalha-Factos foi espreitar os últimos preparativos antes da inauguração a convite da Gulbenkian e conta-te porque vale a pena visitá-la.

Na exposição podemos ver um pouco de tudo: excertos da obra, partes de filmes d’Os Maias, caricaturas de personagens, fotografias de época e tantos outros objetos que fazem parte do espólio de Eça de Queirós.

Eça e os Maias

Numa visita guiada por Isabel Pires de Lima, pudemos conhecer a exposição com todos os deliciosos pormenores que Eça merece ter narrados e que enaltecem a sua obra.

Numa carta dirigida a Ramalho Ortigão, em 1881, Eça de Queirós conta que tinha quase pronto o romance mais completo da sua vida de escritor. “Decidi (…) fazer não só um ‘romance’, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco”, palavras de Eça. Este foi um romance que demorou 8 anos para ser publicado (após 10 anos a ser escrito). Nunca foi reeditado em vida. Por oposição, O Primo Basílio teve duas edições no mesmo ano em que foi publicado.

A exposição

A exposição presente na Gulbenkian, em torno do realismo de Eça, dirige-se a um público amplo: é visitável por adultos e por jovens (de lembrar que esta obra faz parte do programa da disciplina de Português do 11.º ano). Por quem quer fazer uma visita breve e absorver apenas a informação exposta e projetada nas paredes ou por quem adora este mestre da literatura e observa cada pormenor da exposição, podendo até levar uma parte para casa.

Na verdade, para os verdadeiros amantes de Eça (e não só – todo o público poderá fazê-lo), é possível levar um pouco das palavras de Eça para casa. Ao longo da exposição, existem mesas com textos que dialogam com o que é mostrado em cada núcleo. Como que a resposta de Eça a cada conteúdo apresentado. Com o bónus de que o visitante pode levar as ‘palavras’ de Eça consigo.

A abrir a exposição, como que a receber os visitantes, está a escrivaninha em que grande parte das obras de Eça foram escritas. Apesar de lá podermos ver um banco, Eça escrevia essencialmente de pé, daí a altera deste móvel. É também no topo deste móvel que podemos ver a carta que escreveu a Ramalho de Ortigão, falando-lhe sobre o seu romance. Vemos igualmente um baú onde Eça guardava os seus manuscritos e onde, após a sua morte, foram encontradas obras inéditas. A cidade e as serras, é um exemplo de uma obra encontrada dentro deste baú.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Esta exposição está dividida em oito núcleos, cada um com uma especificidade da obra maior de Eça, misturada com fragmentos de outras obras do autor, pertinentes para o tema em observação.

1845-1900

Este é o tema transversal a toda a exposição. Trata-se de uma cronologia de episódios importantes de Eça de Queirós neste período de tempo. E porque Eça era transversal a tantas outras artes, a sua relação com elas está bem patente nesta exposição. Aqui, neste núcleo, podes ouvir música selecionada por Rui Vieira Nery, presente nas obras do escritor. A Ópera e a Opereta francesa mas também a Valsa, a Polka são exemplos do que podes ouvir enquanto visitas a cronologia.

Esta barra cronológica termina com um tributo aos autores que, ao longo dos anos, se inspiraram na obra Queirosiana para a sua própria obra: José Eduardo Agualusa, Mário Cláudio, José Matias, são exemplo disso.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Do outro lado do corredor, podemos ver várias peças patrimoniais, que nos levam até ao tempo em que Eça escrevia as suas histórias.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

1888 – A Vasta Máquina

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Aqui podemos ver caricaturas das personagens de Eça presentes nos mais importantes textos que escreveu. O Conselheiro Acácio, d’O Primo Basílio, Teodoro, o burocrata d’O Mandarim, Jacinto, o protagonista d’A Cidade e as Serras, estão, entre muitos outros, expostos para que possam ser conhecidos ou reconhecidos pelo público.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Ainda nesta fração da exposição, podemos ver a primeira edição d’Os Maias, (ainda em 2 volumes), uma edição da obra da comemoração do centenário, uma edição crítica e ainda uma antologia ilustrada do centenário deste texto.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

O resto da sala é dedicada à crítica feita à obra, às dificuldades por que passou até à sua publicação, e até as críticas negativas de amigos próximos do escritor (por exemplo, de Fialho de Almeida) estão expostas, com direito a resposta do próprio Eça. Mas como que a mostrar a qualidade da obra, ao lado das críticas estão as várias traduções da obra do homenageado.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Aprendizagens

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Nesta parte da exposição, podemos acompanhar o percurso da vida de Eça. Desde os anos de universitário em Coimbra, passando pelos vividos em Lisboa, mas também parte da sua viagem ao Oriente.

Eça fez esta viagem acompanhado do seu amigo e futuro cunhado, Luís de Castro, Conde de Resende. Com o pretexto de verem a inauguração do Canal do Suez, fizeram um percurso pelo Egipto, Síria e Jerusalém. Essa viagem torna-se seminal para Eça, com extrema influência na sua obra. Pela primeira vez, Eça de Queirós pode escrever sobre o que vê. Assim sendo, os visitantes também podem ver as notas de viagem de Eça, as inspirações que o levaram a escrever A Relíquia ou O Mandarim.

Guerra ao Romantismo

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Na obra Queirosiana, o Realismo está presente sempre por oposição ao Romantismo. É precisamente essa ‘Guerra ao Romantismo’ encetada pelo escritor em todas as suas obras que é aqui visível. Esta oposição, em que o Romantismo é mau e o Realismo é bom, torna-se observável nesta parte da exposição.

A proibição das Conferências do Casino, numa época de grande liberdade de expressão motivam Queirós a escrever As Farpas. Estes folhetos, impressos mais tarde na forma de livro, encontram-se aqui expostos também.

Norma e desejo

O desejo erótico, muitas vezes presente em obras como O Primo Basílio, Alves e Companhia ou O Crime do Padre Amaro, assim como o desejo de ascensão social e poder, estão representados através de ilustrações.

Podemos também aqui visionar o mais antigo filme feito sobre um livro de Eça: O Primo Basílio, de 1923, época em que o cinema ainda era mudo.

Olhares cruzados

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

A obra realista de Eça veicula uma diversidade de olhares sobre a realidade”, pode ler-se no folheto que acompanha a exposição. Essa diversidade está presente na estrutura labiríntica dos painéis aqui afixados: Frases, fotogramas, caricaturas, diálogos. A ironia, o excesso, a narrativa histórica, os diversos pontos de vista sobre o real.

A arte é tudo

Foto: Ana Correia Soares / Espalha-Factos

Na época da produção d’Os Maias, Queirós proclamou: “a arte é tudo – tudo o resto é nada”. Eça foi um obsessivo perfecionista ao longo de toda a sua vida. O Dandismo e o Vencidismo aqui presentes na exposição, são a prova dos princípios pelos quais Eça regeu a sua vida e obra.

Lugares

Foto: Ana Correia Soares / Espalha Factos

Por fim, os lugares por onde tão importante personagem da literatura portuguesa passou. De Havana a Baião, passando por Lisboa, Paris, Sintra, Londres ou Leiria.

Este espaço da exposição tem um forte caráter intimista (conferido pela baixa iluminação) e de intensa componente patrimonial: estão aqui presentes inúmeros móveis da sua casa de Paris, gentilmente cedidos pela Fundação Eça de Queirós.

Foto: Ana Correia Soares / Espalha Factos

A exposição e o programa complementar

Eça e os Maias podem ser vistos de 30 de novembro a 18 de fevereiro do próximo ano. Está presente no Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, das 10h às 18h (exceto às terças). A entrada é gratuita.

Para além da exposição com visita livre, podes agendar uma visita orientada (custo de 2 euros por pessoa) nos sábados 5 de janeiro, 26 de janeiro e 2 de fevereiro de 2019.

Podes também assistir a conversas de entrada livre (mediante reserva) sobre Os Maias na Geração de 70: o jantar do Hotel Central (dia 10 dezembro); Escritores de Eça de Queirós – Ficções da ficção (dia 17 de dezembro); As Músicas de “Os Maias” (7 de janeiro); Das Utopias: de Eça e de hoje (21 de janeiro); Eça: Pintura e Ilustração – os casos de Paula Rego e Rui Campos Matos (4 de fevereiro) e Ilustradores das obras queirosianas no fundo documental da Biblioteca de Arte (5 de fevereiro). Todas os certames decorrem pelas 18h.

Eça e Os Maias podem ser vistos na forma de filme: Amor & Companhia, de Helvécio Ratton, no dia 3 dezembro, pelas 18h30; Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira, dia 28 de janeiro, pelas 18h30; e Os Maias, de João Botelho, dia 16 de fevereiro, pelas 15h00.

Se és fã de jantares temáticos, esta é a melhor sugestão para ti: na Sala do Foyer, pelas 20h dos dias 5 de dezembro, 15 e 22 de janeiro ou 16 de fevereiro, com o Chef Miguel Castro e Silva. O preço é de 25 euros e a lotação é limitada a 25 pessoas por jantar.

Ao longo de toda a exposição podemos ver excertos ou trailers dos filmes a serem exibidos.

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