Todos devemos ser feministas não é um livro novo, mas nem por isso deixa de ser um livro atual e necessário. Este livro, escrito pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um grito pela consciencialização da sociedade em torno da palavra “feminista” – e não, ser feminista não é algo mau.

Tudo começou numa das primeiras palestras TED da autora nigeriana, intitulada O perigo de uma só história. Nesse discurso, Chimamanda explorava os perigos e as limitações dos estereótipos, especialmente em África. Anos mais tarde, mais precisamente em 2012, a autora discursou para uma audiência cheia de homens e mulheres a TED Talk intitulada de Todos Devemos ser Feministas. Esta palestra correu o mundo gerando todo o tipo de reações. A verdade é que o discurso teve impacto e se fez ouvir.

O livro editado mais tarde em Portugal, surge da compilação do discurso dessa palestra juntamente com um conto da escritora chamado Casamenteiros. O conto relata a vinda de uma jovem nigeriana até Nova Iorque, após o seu casamento combinado na Nigéria. Vai para a América viver com um jovem médico nigeriano, também emigrado, que procurava  uma esposa nigeriana com quem casar. A curta relação desenvolve-se a partir daí, realçando as complexidades de um casamento que não tem amor na sua base e onde o homem controla a relação.

livro todos devemos ser feministas

Fonte: Wook

Muito provavelmente, o conto que se junta ao discurso não foi escolhido em vão. É precisamente da relação entre homens  mulheres e da sua complexidade que o discurso fala. Nele, a ideia defendida é clara: ser feminista não é algo mau, por muito que alguns sectores da sociedade atual tentem distorcer o seu significado.

É provável que já tenhas ouvido excertos deste discurso, sem saberes ao certo quem falava. A cantora Beyoncé utilizou passagens da TEDTalk na sua música Flawless, que abordava a temática do feminismo e da igualdade de género. Nesse excerto, a definição de feminista torna-se bastante clara: “feminista – uma pessoa que acredita na igualdade social, política e económica entre os sexos”.

Pormenores que contam

São vários os exemplos do dia a dia da vida de uma mulher que Chimamanda expõe no seu discurso e neste livro, entre os quais um que me marcou particularmente. É notório ao longo de toda a obra que Chimamanda cresceu num país onde as mulheres não são propriamente tratadas com igualdade, a Nigéria. Talvez nesse país se façam sentir com maior peso, algumas das consequências da desigualdade de género, em comparação com o mundo ocidental. No entanto, este exemplo, com toda a sua simplicidade e complexidade fez-me pensar:

“Sempre que vou acompanhada a um restaurante nigeriano, o empregado cumprimenta o homem e ignora-me. Os empregados são o produto de uma sociedade onde se aprende que os homens são mais importantes do que as mulheres, e sei que não o fazem por mal – mas uma coisa é entender algo racionalmente e outra é fazê-lo emocionalmente. Todas as vezes que eles me ignoram, sinto-me invisível. Sei que são detalhes, mas às vezes são os detalhes que mais me incomodam.”

Detalhes ou pormenores. “São pormenores, eles fazem a diferença”, já diziam os rappers Sam the Kid e Bispo numa das suas músicas. E penso que não poderia ser mais simples e ao mesmo tempo mais complexo do que isto. É nas situações mais diversas do dia a dia de uma mulher que muitas vezes o género feminino é desvalorizado, apenas por ser feminino. E estes pormenores acumulam-se no nosso subconsciente fazendo com que as nossas ações sejam condicionadas por estes ideias que assimilamos involuntariamente.

Alguns dirão, talvez, que estão fartos da vitimização da mulher, do exagero de algumas ações de protesto, do exacerbar de uma revolução relativamente recente. Concordo com essas pessoas e penso que Chimamanda também – mas não é disso que este livro fala. Este livro e o discurso que contém, ajudam a desmistificar aquilo a que associamos a palavra feminismo e toda a sua importância. Estamos numa sociedade envenenada pela praga do politicamente correto, onde o feminismo está injustamente inserido. Não são exageros, não são reações hormonais, não é ser “picuinhas”. A desigualdade de género, mais do que nas diferenças de salários, sente-se muitas vezes na pele e no comportamento de uma mulher.

mulher boca tapada, feminismo - pixabay

Foto: Pixabay

Chimamanda dá exemplos práticos e bastante elucidativos para fundamentar o seu ponto de vista: “uma vez que a questão de gênero incomoda, as pessoas recorrem a vários argumentos para se afastarem do tema. Algumas mencionam a biologia evolutiva e os macacos, lembrando como as fêmeas, por exemplo, se curvam perante os machos. Mas a questão é esta: nós não somos macacos”.

Este livro não se trata de uma vitimização, nem sequer é dirigido apenas a mulheres. Não se trata de apontar o dedo aos homens, nem muito menos diminuí-los. Estas ideias míticas que homens e mulheres (por incrível que pareça) tendem a associar ao feminismo são erradas e têm como único objetivo destronar uma causa demasiado importante para ser ignorada.

Todos são chamados a ler este discurso tão simples e fácil de folhear, mas tão complexo e importante, ainda hoje, nos dias que correm. Porque, tal como diz a música supra citada, os pormenores “fazem a diferença, princesa agora pensa” – princesas, príncipes, homens ou mulheres, pensemos todos.

Lê também: The Testaments: Margaret Atwood Anuncia Sequela para The Handmaid’s Tale