Os caóticos Idles estiveram em Portugal com dois concertos esgotados no Porto e em Lisboa, tendo atuado pela primeira vez em território nacional no NOS Primavera Sound  este ano. Poucas horas antes de se apresentarem no Hard Club (Porto), Joe Talbot, vocalista, e Mark Bowen, guitarrista, conversaram com o Espalha-Factos.

Foram trocadas ideias sobre a visão do grupo sobre o seu próprio trabalho, vulnerabilidade, amor próprio e expectativas, tanto artísticas como pessoais. Ambos apresentaram-se bastante serenos, em contradição com a sua presença feroz em palco, mas de espíritos extremamente amigáveis.

Espalha-Factos: Qual a diferença entre a reação que esperam obter de Joy as an Act of Resistance e a de Brutalism?

Joe Talbot: A diferença é que deixamos de esperar por uma reação. Focamo-nos na nossa criação, compusemos o álbum e deixámo-lo viver. Tem sido uma surpresa muito agradável esse positivismo e compreensão universal do mesmo. Como não estavamos à espera de nada, não ficamos desiludidos. Deste modo, conseguimos prestar mais atenção à nossa criação e não à expectativa de gratidão, o que resultou num melhor álbum, penso, por ser mais transparente. Daqui para a frente descartamos a expetativa da audiência ou reação.

EF: Falando da receção positiva que o álbum tem recebido, esta altera a vossa perspetiva em relação à vossa própria música? Dá-vos a ideia de que estão a fazer algo bem?

JT: Sim, penso que sim. Não é que estejamos a fazer algo bem, definitivamente faz-nos reparar que há mais pessoas a prestar atenção e temos de fazer um esforço por nos desprendermos disso e desfrutarmos a nossa própria criação. Quer dizer, é ótimo, é muito bonito. É impossível ignorá-lo.

Mark Bowen: Foi neste álbum que estivemos mais felizes na última etapa da sua gravação. Sentimos que era o mais próximo da nossa linguagem artística e do que ambicionavamos alcançar desde o início. Por isso, penso que o reconhecimento por parte das pessoas é ótimo. A audiência agarra-se a isso, valorizam boa forma e a nossa honestidade porque conseguem identificar quando é que uma pessoa está a ser honesta.

EF: É possível haver honestidade em demasia, ao ponto do exagero?

JT: A isso se dá o nome de narcissismo. Ninguém precisa de saber tudo. Podes ser aborrecido com a tua própria honestidade. O que importa é ser-se honesto quando é necessário. Honestidade é transparente mas não podes deixar de ser interessante.

MB: A nossa honestidade e a das nossas músicas geralmente lida com um problema maior, mas através da nossa visão como uma banda ou da perspetiva do Joe. É uma questão de darmos ênfase à nossa relação com os tópicos que abordamos. Por exemplo, masculinidade e a nossa relação com a ideia da masculinidade ser algo negativo. É daí que a honestidade vem. Nós não decidimos em concreto escrever uma canção sobre honestidade. É uma questão de querermos atacar um tópico e sermos honestos e abertos em relação a isso, porque é assim que se inicia diálogo. Usamos honestidade e vulnerabilidade como um ponto de interesse.

EF (para Joe): Inspiras-te bastante em aspetos da tua vida pessoal para a tua música.

JT: Só me inspiro nela.

EF: Como é que consegues filtrar essa inspiração e introduzi-la na criatividade coletiva da banda?

JT: Da mesma maneira que qualquer amizade saudável o faria.

EF: Transparência.

JT: Sim. Manter transparência e falar das coisas pela minha perspetiva. Eu sou a voz da banda. Eu escrevo as letras e canto-as depois das músicas serem compostas pelos rapazes. Eu ouço o que eles compõem, devolvo-as com letras e melodia e pergunto o que acham. Se gostarem é ótimo, se não gostarem eu repito o processo.

EF: Nunca sentiste nenhum tipo de embaraço em fazê-lo?

JT: Sim, claro.

EF: Como é que o ultrapassaste?

JT: Concretizando-o. Joy as an Act of Resistance é uma grande mudança. Alcançar vulnerabilidade é difícil. Eu estou exposto a maior escrutínio do que os restantes membros dada a natureza da minha função, mas acaba por ser a mesma coisa. Tu apresentas e eles dão-te uma opinião. A minha vulnerabilidade é sobre a minha opinião ou uma ocorrência na minha vida, mas a crítica trata da abordagem artística e não da escolha de tópico. Isto resulta: somos um grupo forte e aberto e permitimos uns aos outros a nossa vulnerabilidade. Encaixa no período das nossas vidas, como por exemplo, a minha experiência com terapia a aprender que não sou vulnerável o suficiente. Começamos a falar mais de como nos sentimos como um grupo, tomando decisões pragmáticas para melhorar a nossa relação de trabalho e de amizade. Tem tudo a ver com apoio e ser ouvido.

MB: A crítica que é apresentada dentro da banda é sempre artística com a intenção de prosseguir em frente, é algo positivo. Todos nós queremos a mesma coisa, queremos criar uma canção ou um álbum que está nas nossas cabeças. Concordamos com a ideia que partilhamos e exploramos o seu significado para cada um de nós. Portanto, a crítica e a discussão que advém dessa partilha vai de encontro com o reconhecimento de que queremos a mesma coisa.

JT: Nós aprendemos com o último álbum aquilo que é o melhor para uma canção e isso impede-te de ser egoísta e obriga-te a ser mais aberto porque deixa de ser algo que é sobre ti: é sobre a canção. A vulnerabilidade na minha vida tem origem na terapia e na minha parceira, não na música. Tu aprendes a ouvir mais os outros. É um grande truque da democracia: essa ideia de liberdade de expressão e a sua destreza é ouvir, não falar.

EF: A autoaceitação desempenha um papel em tudo aquilo que falamos. Dirias que através da autoaceitação nós aceitamos os outros e que esta parte de nós mesmos?

JT: Com certeza. As pessoas que estão tão chateadas e são tão odiosas e racistas têm sempre problemas com o seu papel na sociedade, o seu papel na sua família e na vida. Parte sempre de dentro. Quando era o mais violento e abusivo, era quando eu mais me desprezava. Quando era a pior pessoa, era porque me odiava.

EF: Em Danny Nedelko, é constatado que o medo acaba por se converter em ódio. Como é que a sociedade consegue, em si mesma, combater preconceito e racismo que são propagados tão facilmente através de desinformação?

JT: Amor, empatia e ouvir.

EF: Amor e empatia, são ensinados?

JT: Depende da escola. No socialismo, no liberalismo, no humanismo e no budismo, sim. No islamismo às vezes. Mas na escola do fascismo, neoliberalismo e capitalismo, não.

MB: Voltando à questão anterior, penso que o reconhecimento de que há um problema na tua vida, compreender o que é que está a correr mal e mudar isso para o melhor através de empatia para contigo mesmo e amor próprio. Se conseguires fazer isso contigo, vais estender isso até às outras pessoas e o “bem maior” virá.

EF: Mas é um combate árduo, não é? É mais fácil odiares-te a ti mesmo do que amares?

JT: Sim. A maioria das pessoas aprendeu a sentirem-se imperfeitas dadas as exigências da sociedade. A maioria das pessoas olha ao espelho e vê outra pessoa. A maioria das pessoas reflete na sua vida, deseja ter mais dinheiro e ressentem os seus empregos. Já agora, lamento ter dito anteriormente que o Islamismo e o Budismo não ensinam amor suficiente, eles ensinam medo e julgamento porque são religiões e todas as religiões ensinam a mesma “merda”.

EF: Em relação às músicas em si, Joy as an Act of Resistance tem muitas mais canções cantáveis do que Brutalism. Isso foi de propósito?

JT: Sim, fomos nós a tentar ser mais ingénuos, simplistas e criticáveis ao mesmo tempo. Queríamos ser aceites pela nossa inteligência e pela nossa profundidade como artistas e de modo a combater esse desejo egoístico de gratificação concebemos músicas cantáveis com letras ingénuas e melodias poppy como uma resistência alegre para com os nossos egos. Acho que fizemos algo melhor e mais importante musicalmente. Faz tudo parte do mesmo ethos que é desconstruir e ser o mais ingénuo e simples possível.

EF: Quando é que souberam que era essa a direção que queriam prosseguir?

JT: Desde o início, que foi cerca de um ano e meio antes de acabarmos de gravar o Joy as an Act of Resistance.

EF: Quem não vos conhece, ao pesquisar por vocês online, facilmente observará uma maior proximidade da vossa banda com a audiência. Esta atitude foi alguma vez ponderada antecipadamente ou é-vos instintiva?

MB: Não penso que foi necessariamente em comparação com outras bandas, foi algo que quisemos fazer como elemento da nossa atuação. Somos uma banda há 10 anos, foi algo que reconhecemos como uma parte importante da nossa performance. Se nos visses há 10 anos, não éramos nada parecidos ao que somos agora. Há elementos que agora exageramos e fazemos sobressaltar. Começamos a exagerar o importante elemento de um concerto dos Idles que é a relação entre a banda a audiência, a transmissão de energia para que possamos dar o nosso melhor. É definitivamente algo que reconhecemos e consideramos.

EF: O processo de uma tour e de gravar um álbum tão rapidamente depois de terminar a edição de outro tem algum efeito negativo a nível criativo?

JT: Não, nós simplesmente esperamos até que estejamos prontos. Não forçamos nada. Temos composto enquanto estamos em digressão mas vamos parar um pouco. Eventualmente regressaremos, faremos o que sentimos que é correto.

MB: Entre o primeiro e o segundo álbum, não sinto que pudéssemos esperar mais tempo para lançar novo material. Penso que tinhamos de lançar Joy as an Act of Resistance quando o fizemos porque precisavamos de novo material para tocar ao vivo, precisavamos de uma injeção do nosso registo criativo naquilo que estavamos a fazer para que pudéssemos manter a digressão e expandir os nossos horizontes. Mas nós agimos quando achamos que é correto, não queremos sucumbir a expetativas e não queremos lidar com esses elementos da indústria da música.

JT: Nós também temos sempre ideias. Temos fome.

EF: Têm mais expetativas de vocês mesmos ou da indústria?

MB: Não temos quaisquer expetativas da indústria da música. É um conselho crucial para qualquer pessoa que leia isto, não esperes nada da indústria musical.

JT: Espera o mínimo. Espera que ela não faça nada, é isso que deves esperar. A indústria nunca esteve menos imaginativa, menos generosa e importante como agora. É literalmente um lugar grotesco de merda bidimensional. Está cheio de pop repetitivo. Eu adoro música pop e não a estou a atacar, mas neste momento a música é desagradável.

EF: Estar em digressão como uma banda que passa tanto tempo junta ensinou-vos alguma coisa?

JT: Muito, porque é uma situação muito extrema. Aprendes os limites do teu amor aos teus amigos e à tua arte. Ensinou-me a saber quando descansar. Ensinou-me que as pessoas desumanizam-te como artista. Ensinou-me que não há muitos locais de evento com bons chuveiros. Deu-me a ver que a Europa tem uma atitude muito melhor em relação a novas ideias e pensamento criativo. Ensinou-me que há muito menos dinheiro investido em infraestruturas e no bem estar das pessoas na Europa, mas a vossa comida é melhor e o vosso povo é maravilhoso. Ensina-te tudo que podes esperar mas, principalmente, ensinou-me a descansar quando é necessário. Descansar é tão importante como trabalhar na arte do sucesso.

MB: E espaço. Dar espaço a cada um e saber quando é que devemos unir-nos.

JT: Três meses é demasiado tempo, aprendi isso. Para uma banda como nós, é demasiado. Se nós não nos movimentassemos muito em palco seria tolerável, mas como nos entregamos por completo a todas as atuações precisamos de descanso.

EF: Como é que processam as primeiras reações mais entusiasmadas da vossa audiência?

JT: É ótimo mas consegue ser desconfortável as pessoas dizerem que somos os melhores. Nós só queremos fazer música. Adoro a ligação e é mágico ouvir que mudamos a vida de alguém, no entanto ouvir que somos os melhores não tanto. Não precisamos de pensar no quão bons somos. O que importa é que a audiência se aprecie porque não somos nada sem ela. Absolutamente nada. Acho que é melhor que a audiência se aprecie e se considere a melhor.

EF: Se tivessem de escolher uma das vossas músicas para ser a mais famosa, qual seria e porquê?

JT: Escolheria a Mother.

MB: Television porque a sua mensagem é fundamental e com ela outras ideias podem aprender muito. Egoisticamente diria Colossus porque acho que é a nossa melhor criação.