Há suspeitas de instrumentalização das quatro crianças que fizeram parte dos júris nacionais da Arménia e do Azerbaijão na última edição da Eurovisão Júnior, que aconteceu este domingo (25). Tal como os jurados adultos, todas puseram os concorrentes do país vizinho em último lugar.

No final do Festival Eurovisão da Canção Júnior 2018 ninguém ficou surpreendido que os júris da Arménia e do Azerbaijão não tivessem trocado pontos entre si – acontece quase sempre entre os países do Cáucaso, para mais com um número recorde de países por onde escolher.

A revelação mais estranha chegaria depois: divulgados os detalhes da votação de cada júri nacional, tanto os jurados arménios como os azeris colocaram os seus vizinhos em 19.º lugar entre 19 possíveis. Todos eles. Os cinco arménios e os cinco azeris em sintonia, determinados a que os rivais não recebessem nenhum ponto. E o pior: quatros destes dez jurados eram crianças.

É um novo patamar a que chegou o conflito entre Arménia e Azerbaijão, e tem levado muitos a pedir intervenção da União Europeia de Radiodifusão (UER-EBU), a organização do Festival da Eurovisão. A origem deste tipo de agressividade está na região de Nagorno-Karabakh, um território que a ONU reconhece como parte do Azerbaijão mas que a Arménia ocupa desde 1993. Os dois países estão em guerra desde o colapso da União Soviética por causa daquela região e, mesmo com longos cessar-fogos, têm existido várias mortes nas fronteiras dos dois países. O conflito tem muitas vezes entrado também nos palcos do Festival da Eurovisão.

Quanto à troca de pontos entre os dois países, as contas são fáceis de fazer. Em 10 festivais onde estiveram juntos, a Arménia deu apenas 3 pontos ao Azerbaijão (2 pontos na semi-final de 2008 e 1 ponto na final de 2009); do outro lado, o Azerbaijão não deu nenhum ponto à Arménia. Zero. Mas mesmo assim foram pontos a mais para as autoridades de Baku. Em 2009, o governo do Azerbaijão terá identificado os 43 cidadãos azeris que votaram na canção da Arménia, “Jan Jan”, e chamou dois deles ao Ministério da Segurança Nacional. O caso levou a uma multa por parte da organização e a regras mais duras quanto à confidencialidade dos votos. Também nesse ano, os pontos da Arménia foram dados usando imagens de um monumento de Nagorno-Karabakh, o que enfureceu os azeris.

A vitória do Azerbaijão em 2011 com a canção Running Scared não contou com a colaboração dos votos da Arménia e no ano seguinte as autoridades de Yerevan previsivelmente boicotaram a presença em Baku. O Azerbaijão até tinha relaxado as proibições da entrada de arménios no país, mas a morte de um soldado em fevereiro de 2012 acabou levar a Arménia a recusar atravessar a fronteira para cantar. Foi a única vez que o país não participou desde a estreia em 2006.

A própria bandeira do infame território já causou problemas durante o Festival da Eurovisão. Em 2016, a representante arménia Iveta celebrou a passagem à final com uma bandeira de Nagorno-Karabakh nas mãos. A EBU proibiu a utilização futura da bandeira sob pena da Arménia ser proibida de concorrer em anos seguintes.

O ano foi especialmente tenso entre os dois países e levou a um momento que se tornou viral para os fãs eurovisivos – a relutância da representante azeri, Samra, em querer falar da adversária arménia com um jornalista francês.

https://twitter.com/yongwh0re/status/1064219964444483585

Mesmo entre os Festivais Júnior tem surgido controvérsia e em 2012 ficou claro que a disputa seguiria entre as crianças. Na votação desse ano, o Azerbaijão votou em todos os países menos na Arménia, e a Arménia votou em todos os países menos no Azerbaijão.

Instrumentalização?

O detalhes da votação deste ano põem a nu o nível de rejeição entre os dois países e têm levantado questões sobre a instrumentalização das crianças que servem como juradas nestas últimas edições do Festival da Eurovisão Júnior – mas não só. Nas fotos de grupo dos concorrentes, é raro ver as crianças arménias e azeris estarem sequer próximas uma da outra.

Apesar dos votos dos júris nacionais estarem detalhados no website da EBU, é impossível conhecer de onde chegou o voto do público, feito online nas edições júnior. Dos 30 pontos recebidos pelo Azerbaijão e dos 70 recebidos pela Arménia, algum poderá ter chegado de um vizinho sem medo da guerra que torna inimigos os dois países.