A Avenida da Liberdade encheu-se, novamente, para receber inúmeras actuações de diferentes géneros musicais, umas já bem conhecidas do público e algumas estreias em território nacional. Este segundo dia de Super Bock em Stock ficou marcado pelo intimismo do concerto de Tim Bernardes, a lufada de ar fresco que foi Lolo Zouaï  e a necessidade de uma segunda oportunidade para os Jungle.

Darksunn foi o responsável por abrir este segundo dia de Super Bock em Stock. As condições meteorológicas não permitiram que a atuação decorresse no Terraço do Capitólio, tendo o DJ e produtor atuado no palco do Cineteatro. Esta alteração levou também a um ligeiro atraso no início do concerto, rapidamente esquecido logo que Darksunn invadiu o palco e tomou as rédeas da mesa de mistura.

Cada vez mais gente se foi aproximando e abanando a anca ao ritmo dos instrumentais sublimes, que ligam o hip hop ao soul, ao jazz e ao funk. Para muitos, esta foi uma brilhante introdução à sonoridade de Darksunn, um dos fundadores do coletivo Monster Jinx e presença assídua na noite lisboeta e portuense. Para outros foi a confirmação de que existem grandes talentos na produção, dentro do género, em território nacional.

Mal entramos no Teatro Tivoli para ver Tim Bernardes sentimos algo completamente diferente do que experienciámos em qualquer um dos concertos deste Super Bock em Stock. Ou talvez em muitos dos concertos que vimos na vida. Um Tivoli completamente cheio veio, claramente para prestar reverência ao músico brasileiro. Até porque a sua atuação, mais do que um espetáculo de música ao vivo, viveu-se como um ato solene.

Tim encontra-se sozinho no palco, com uma luz dirigida unicamente para a sua figura, encontrando-se o resto do teatro submerso numa escuridão e silêncio total – o que se tornou raro ultimamente em qualquer espetáculo ao vivo. Ninguém ousa dizer uma palavra. O único ruído que se ouve é o dos aplausos, no fim de cada tema de Renascer. São longos e determinados, são de quem está demasiado embevecido e inebriado, que põe tudo o que tem naquele bater de palmas. Tim Bernardes partilhou connosco a dor das canções que compôs e escreveu, “todas as coisas que passam pela cabeça e pelo coração” quando caímos e temos que voltar à vida. E mais uma vez, não conseguimos fazer mais nada se não aplaudir.

Assim que Lolo Zouaï  entra em palco, tiramos-lhe a pinta. Uma menina bonita, no início dos vintes, com argolas gigantescas e um puffer amarelo. Sozinha em palco, apresenta-se à audiência, ainda pequena em número, e ouve-se começar uma batida de trap. Zouaï é claramente invejada na sala: pelos rapazes que olham com fascínio (e tecem até alguns comentários) e pelas miúdas que lhe querem copiar o estilo. Mas não reduzamos um concerto à mera componente estética: Lolo Zouaï  não é extraordinária mas é extremamente competente e eficaz. Reconhecemos-lhe o talento, a voz doce, as letras sobre temas que são lugares comuns (“quem é que aqui já enviou drunk texts?”), e até o fator novidade – as letras escritas em inglês, francês e árabe.

“Há um ano estava a trabalhar num restaurante e agora estou aqui”, diz, admirando-se por haver quem na sala soubesse cantar as letras. E ao longo da sua atuação no Capitólio foi enchendo a sala, aos poucos, terminando com High Highs to Low Lows, o seu single de estreia, que chegou a atingir meio milhão de audições no Spotify em menos de um mês, sem qualquer tipo de promoção. E aos poucos fomos deixando de nos concentrar nos pormenores estéticos, que se foram dissolvendo, para nos focarmos no talento da menina do R&B que é, sem sombra de dúvida, uma surpresa, e um nome para manter debaixo de olho.

E foi no Capitólio que demos continuidade às festividades. Rejjie Snow atuava pouco antes das onze da noite e previa-se uma enchente, tal como aconteceu em Masego no dia anterior. A primeira passagem por Portugal de um dos nomes de maior destaque no hip hop, a nível internacional, tornava indispensável a presença neste concerto. Antes da entrada de Rejjie, o DJ que o acompanhava ficou encarregue de criar o ambiente certo para a entrada do rapper irlandês, disparando temas bem conhecidos da plateia que enchia a sala principal do Capitólio.

Ouviu-se Drake, Travis Scott, A$AP Rocky com Skepta, mas nenhuma canção gerou tanto entusiasmo como a entrada em palco de Rejjie Snow. Os fãs entoaram as letras, aplaudiram consistentemente e criaram o ambiente certo para, mais ou menos a meio do concerto, receber com entusiasmo Egyptian Luvr, tema mais aclamado do seu novo trabalho, lançado este ano. Longe de ser a atuação mais marcante do festival, Rejjie foi competente e deixou satisfeito quem o tinha como um dos artistas mais relevantes desta edição de Super Bock em Stock.

Como se aproximava a hora de um dos espetáculos mais aguardados, para muitos, de todo o festival, decidimos que era hora de regressar ao Coliseu. A quase uma hora do início do concerto de Jungle, o público começava já a ocupar os seus lugares e a aguardar por uma banda que, por mais vezes que passe por Portugal, mantém uma audiência fiel. Prova disso é que ainda há cerca de três meses atuaram no festival Vodafone Paredes de Coura e conseguem encher um coliseu num ápice. Mas remetamo-nos ao concerto propriamente dito.

Os Jungle sabem como encher um palco. Sabem como jogar com as luzes e sabem, sem sombra de dúvidas, como contagiar centenas de pessoas. Nota-se que os temas do novo disco da banda não têm a mesma recetividade dos do seu disco de estreia, que põe verdadeiramente o público a vibrar e a cantar em uníssono.

Apesar disso, os problemas técnicos acabaram por deixar os britânicos em desvantagem. Duas grandes paragens, que deixaram os presentes algo confusos com o que teria acontecido, prejudicaram uma atuação que já estava a ter alguns problemas de som. Não acreditamos, porém, que os fãs tivessem abandonado o Coliseu com pena. Acreditamos apenas que os Jungle merecem mais uma oportunidade de se redimir, por tudo o que já demonstraram em terras lusas.

Deixamos-te ainda com alguns registos fotográficos captados nesta segunda e última noite de Super Bock em Stock: