Perdoe-se o timing deste artigo, mas quem o escreveu passou dias a fio a tentar perceber como o fazer sem soar saudosista. É que quando menos se esperava, a televisão portuguesa dá uma oportunidade de auto-reflexão. Pensar a televisão dentro dela mesma e através da mais brilhante série, Sara. Partiu de uma ideia original de Bruno Nogueira, passou pelas mãos do Ministério dos Filmes e aterrou na RTP2.

Quem é a Sara e como é que entrou na nossa mente?

Beatriz Batarda é Sara Moreno, uma atriz de renome de teatro e cinema, que deixa de conseguir chorar nos papéis que vai abraçando. Há dor na personagem que Batarda lança para o ecrã, que leva consigo tantos papéis intensos que deixa de os conseguir aceitar. E com isto, sucumbe ao mundo das telenovelas, dos photoshoots glamorosos, das redes sociais e afins. Rita Blanco é a sua melhor amiga, Bruno Nogueira torna-se o life-coach pouco profissional e Nuno Lopes transforma-se num ator de novela, no mínimo, hilariante. Já Albano Jerónimo tem a seu cargo a personagem mais intrigante e misteriosa: o agente desvairado de Sara.

Atenção, não é só mais um agente. Não é apenas alguém que a guia e acompanha nos trabalhos que faz: há algo mais que percebemos ao longo da série. Na verdade, ele é a consciência da atriz, com o twist de ter tanta vida em si como qualquer outro corpo que ali caminha.

O enredo de Sara é incontornavelmente genial e mordaz. O pai da protagonista está gravemente doente e ela é confrontada com demasiados dilemas em pouco tempo. Se não chora, não pode aceitar os papéis que costuma e é preciso continuar a pagar contas e a pôr comida na mesa. E é aqui que começa a sua aventura ao fazer televisão pela primeira vez. Veja-se: Marco Martins, o realizador, também aqui se iniciou no formato ao realizar a série.

Sara, que fizeste tu ao levantar as expectativas de quem vê televisão?

Não sabia se rir ou chorar quando um novo episódio surgia. É uma mistura q.b. de ambas, com uma dose generosa da triste realidade e uma pitada de surrealismo. Vemos Sara no seu quotidiano, no íntimo, a confrontar o que o comum mortal encontra na vida. Observamos as suas lutas, os demónios que a assombram e a consciência singular que tem (já agora, uma vénia a Albano Jerónimo). É tudo tão cru, racional, emocional, confuso, impetuoso e real.

Ao procurar o guru espiritual, interpretado por Bruno Nogueira, Sara tenta simplesmente encontrar sentido no que está a fazer. Fá-lo como faz todos os dias em que a realidade a puxa para o chão e a força a estar consciente.

É o pensar o confronto entre o comercial e o intelectual dentro da indústria. Curiosamente (e mais do que gostávamos de admitir) eles cruzam-se e é isso que traz à tona o interesse pela série. Repensar os moldes do entretenimento sabendo que assistimos àquilo que não dizemos em público, apesar de termos razões para tal. No fim do dia, tudo serve para escapar da realidade. Sara foi esse porto de abrigo para quem já tinha perdido a esperança na ficção portuguesa.

E depois do adeus…

Esta foi a série que finalmente deu às pessoas uma nova razão para voltarem a ver televisão. Foi o que prendeu, durante semanas, uma audiência que esperava a chegada dos domingos à noite sem pensar que a segunda-feira estava à porta. Foi o que fez o meio audiovisual olhar para o seu umbigo, rir e torná-lo tema central da melhor série portuguesa alguma vez feita.

Sara deixa-nos no sofá a olhar o nosso reflexo no ecrã. É tudo tão transparente nela que nem ficção parece ser. E não o é, muitas vezes. “Satírico” é a palavra que melhor descreve o que vimos na televisão (esse aparelho que apanhou o pó das narrativas vazias que a percorrem diariamente).