A abrir a noite de sexta (23) na Galeria Zé dos Bois, Cátia Sá torna um tributo a Puta, deusa romana, num momento luminoso. “Toda a vida foi uma rameira“, entidade mitológica que reconstitui em música, soprando-lhe o pó dos equívocos patriarcais. “Ceifa, grifa, limpa a peneira / Abre caminho, racha o pau, fica inteira“.

Fora de Deusa da Poda, as letras tornam-se prosaicas, elegias referentes a Neptuno, à antimatéria e ao Jardim da Estrela, mas são das menores considerações a ter aqui. Sá, ex-vocalista dos Guta Naki, não convida a lembranças da pop orgânica que a lançou. Preenche o escurecido Aquário com uma eletrónica dura e dissonante, provocativa, em adjacência ao footwork de Chicago; preside-lhe a voz doce—não compassiva—, compactada e pouco atlética. É como se Aluna Francis, dos AlunaGeorge, tivesse perdido a cabeça (isto só tem um sentido e é bom).

Em concordância, Sá tende a personificar uma frigidez titilante, como barreira entre si e o público. É como se estivesse a tocar para o seu exclusivo prazer, tendo calhado aparecer ali uns mirones, metade sentados, metade em pé, no fundo da sala. Eventualmente afasta-se do seu equipamento e dá o corpo literal ao manifesto figurativo.

Desenhado para cortar a respiração e levar a sala ao limite, é um set abreviado, que nem sempre resulta. Algumas das proposições são atulhadas de síncopes e polirritmias, indecisas entre agarrar com força a membrana auditiva ou apenas desorientá-la. Mas é um bom desafio para se ter, principalmente na presença de tanto potencial por refinar, ou desconstruir ainda mais.

A indecisão de Ricardo Dias Gomes

Ricardo Dias Gomes, o putativo protagonista da noite, brasileiro residente em Lisboa, tem feito por fazer confluir esses extremos na sua música. Mas houve um processo transformativo desde que se estreou a solo. E, claro, desde que deixou de acompanhar Caetano Veloso em digressão e no estúdio, na Banda Cê. –11 foi o disco que o trouxe à superfície, curiosamente, no que soa a uma expedição subaquática—o mergulho é promissor, o prolongamento roça a náusea. Ver a experimentação como um fim em si mesmo faz o registo alhear-se de valores estruturais e de controlo de qualidade (A Palavra Espanha) que seriam desejáveis.

As correções foram trazidas pelo sucessor Aa, que constitui o centro desta performance. São 20 minutos exímios de clarividência e potência artísticas. É um álbum que sutura, regenera, embala, reflete. É uma obra de fragmentação, perfeitamente unida pelos laivos do industrial, a volatilidade de espírito, as sugestões de musique concrète. Não querendo blasfemar, lembra-me o magnum opus de Arthur RussellWorld of Echo, menos longo e caleidoscópico; ancorado, em vez do violoncelo, no baixo.

Ricardo Dias Gomes. Fotografia gentilmente cedida por Vera Marmelo.

Em palco, Dias Gomes entrega muito do protagonismo à dinâmica baixo–mãos, a sua presença corpórea um mero adereço. É menos introspetivo do que a quase solipsa Cátia Sá—diz algumas palavras entre as canções—mas falta-lhe carisma, uma confiança inexorável. Aa sugere um olhar contundente e um balanço entre o caos e a suavidade; a dimensão performática que recebemos, na maior parte do tempo, é a de baixista (note-se: autodidata) tímido. Os tempos da Banda Cê já acabaram…

Não é fácil discernir entre faixas (e possível improviso), dada a atuação ser permeada por uma fluidez não tão desejável assim. Quando é mais fácil balizar as canções, apenas esporadicamente repetem o quão fantásticas são em estúdio. E há escolhas simplesmente erradas, como colocar a incómoda Pète a-ride no alinhamento. Ouvir “SEXUAL INTERCOURSE” em canto austero é menos que divertido no disco e aqui consegue ser pior.

A meio do concerto, o músico consegue suster o suspense de Paranormal, conseguido pela sucessão de acordes e a voz ofegante. Mas de que serve isto sem o desfecho, o magnífico duelo entre o título gritado e a distorção das cordas que reverberam na balbúrdia? Ao chegar à hora H, elide-se grande parte disto. A palavra é dita sem força motriz, a colisão de sons nunca chega a acontecer—de facto, durante a noite, todos os instrumentos e vozes parecem estar sobrepostos numa única camada ininteligível.

É um anti-clímax e não é isolado. Podia fazer várias extrapolações para o porquê disto, mas acho sinceramente que falta tempo para reconfigurar o novo material. Transvazar a esfera do estúdio não é instantâneo; o grande triunfo que é Aa precisa de cabedal para fazer vida de estrada e, dois meses depois do lançamento, isto ainda não se sente. E, por favor, que Dias Gomes seja mais seletivo relativamente a -11.

A absolvição vem quase no final, a partir da música que inicia Aa. É quando se despoja do baixo, canta sobre a batida mecânica e começa ali uma coreografia primal, de movimento livre dos membros, idêntica à do videoclipe.

É um momento belíssimo em que tudo se alinha para Dias Gomes; este parece esquecer-se de que já não está obscurecido, sempre atrás, lá no fundo. Contorce-se, liberta-se sem constrições, nada em fingimento. Torna-se mais iminente a decisão entre querer estar à frente, ou ficar na penumbra. O que espero? Que o vejamos convicto, diante de nós, saltar mais vezes desse precipício.

Fotos gentilmente cedidas pela fotógrafa Vera Marmelo, cujo trabalho pode ser visto no seu site.

Algumas músicas de Cátia Sá estão disponíveis no SoundCloud.