O primeiro dia de Super Bock em Stock fez-se da genialidade de Johnny Marr, da verdade de NGA e da doçura dos Birds Are Indie. Com tanto para ver e ouvir pelo meio, trazemos-te as atuações que marcaram este primeiro dia de festival. 

Abrir as hostes deste primeiro dia de Super Bock em Stock coube a Maria e a Sensei D. Os produtores alternaram, atrás da mesa de som, entre a música eletrónica e o hip hop, criando o ambiente certo para dar início às sonoridades que iriam tomar conta do Capitólio. Apesar dos poucos presentes, dada a hora da atuação, ambos foram capaz de proporcionar um fim de tarde ritmado e para além de agradável.

Pedro Mafama reunia um público considerável para a hora da sua atuação. Talvez enfeitiçados pela mistura de sonoridades – é o próprio que repete, numa das suas letras, “eu faço feitiço” -, reuniram-se alguns fãs e conhecedores da obra, e outros que tentavam perceber o que se estava realmente a passar nos Bastidores do Capitólio. Não sendo completamente alheios à fórmula nos dias que correm (e a prova é que Conan Osiris teria, mais tarde, um Tivoli repleto à sua espera) ainda nos desperta interesse a fusão entre géneros tão díspares com trap, kizomba, fado e kuduro. Pedro Mafama faz jus à expressão primeiro estranha-se e depois entranha-se. Que o digam as ancas das pessoas que o viram em palco.

Entre o tempo que nos demorava a circulação entre os vários palcos do festival, fomos até ao Palco EDP comprovar que os fogo fogo estavam a cumprir com a festa prometida. E a grande fila na Casa do Alentejo provava haver muita gente sedenta de participar no baile ritmado, ddo contágio por batidas quentes nesta noite fria de novembro. Mas havendo outras formas de aquecer, menos ao nível do corpo e mais ao nível do coração, decidimos fazer um pequeno desvio até à Sala Santa Casa, onde estavam a tocar os Birds Are Indie.

Acompanhámos desde início o percurso dos Birds are Indie e o seu crescimento a nível musical. O casal que outrora começou a procurar sonoridades na simplicidade de instrumentos fáceis de manejar, junta agora dois novos elementos à banda, acrescentando um baixo, uma guitarra elétrica, teclas e precursão. Os Birds are Indie cresceram na música, mas mantém a sua essência. A música atinge-nos diretamente no coração e saímos com um estranho sentimento de conforto da Garagem EPAL.

Sentimento de conforto esse que se transforma logo que regressamos ao Capitólio. A essa altura, NGA acabava de entrar em palco para nos brincar com uma atuações mais consistentes da noite. Sentimos verdade naquilo que nos transmite e temos a certeza que para o rapper, a música é o extravasar de todos os sentimentos que o invadem. Sentimos a sua raiva, dor, revolta, indignação. A sua presença enche o palco e, a esta altura, reconhecemos mais uma vez que artistas como NGA ganham muito mais ao vivo do que na mera audição em disco, no recato do lar.

“Eu sou igual a ti, cheio de defeitos” repete, à capela, antes de dar início a Perfeito, tema do seu mais recente trabalho, Filho das Ruas II, e dos que geram mais excitação entre os presentes. E é este sentimento de igualdade que junta todos aqueles que sentiram as batidas e as frases de NGA naquele palco.

A dúvida sobre a afluência ao coliseu para ver Johnny Marr levou-nos a chegar cedo. O público que esperava Marr era ainda pouco e destacava-se, claramente, uma faixa etária superior à de atuações anteriores, que tem o guitarrista como referência desde que formou os Smiths ao lado de Morrissey. A estes juntavam-se aqueles que apesar de terem nascido pouco depois da formação da icónica banda, a seguem como se de uma religião se tratasse. E tornou-se completamente impossível alguém sair defraudado do Coliseu. Marr foi irrepreensível, do princípio ao fim. Desde a interação com o público que nem careceu de comunicação verbal, da presença em palco, da alternância de temas da sua carreira a solo e da sua altura como membro dos Smiths e até da camisa florida com aspeto impecável.

 

O concerto da tour Call the Comet fez-se de temas do novo disco, dos primeiros trabalhos a solo de Marr, e enormes êxitos, cantados em uníssono, como Bigmouth Strikes Again, How Soon is Now ou o clássico There is a Light That Never Goes Out. Na verdade, por vezes sentimos que talvez Morrissey fosse até facilmente substituível e que eram os extintos Smiths a atuar naquele palco. “I am human and i need to be loved/Just like everybody else does”, entoa em How Soon Is Now. Para nós, Marr, é mais que humano e foi hoje amado mais do que qualquer um.

Enquanto Johnny Marr ainda atuava no Coliseu, Masego começava, pelas 23:30h, a atuar num Capitólio à pinha, com uma fila à porta que desencorajava os mais fracos, não se podendo a sua estreia em solo nacional ter feito de melhor maneira.

Deixamos-te ainda com imagens captadas nos concertos de Manuel Fúria e Os Náufragos, Conan Osiris e Capitão Fausto, que também atuaram neste primeiro dia de festival.

O Super Bock em Stock continua hoje, na Avenida da Liberdade, com as atuações de Jungle, Rejjie Snow, Lolo Zouaï e Tim Bernardes.

 

Fotografias de André Pêga