Fazer o remake de um clássico nunca é uma tarefa fácil. Geralmente, este é bem-sucedido se for fiel ao espírito do seu original e ao mesmo tempo oferecer uma perspetiva nova. Luca Guadagnino realmente ofereceu uma perspetiva completamente diferente da história anterior, mas ao mesmo tempo, também escolheu ir contra o espírito do seu antecessor.

O resultado é uma entidade que tem tão pouco em comum com o Suspiria de Dario Argento, que qualquer tentativa de comparação se torna fútil. Em vez de um “giallo” artístico com uma música bombástica, este Suspiria tem um tom mais ponderado e procura abordar o abuso de poder e a culpa.

A narrativa centra-se em Susie Bannion (Dakota Johnson), uma americana vinda de Ohio, que entra na prestigiada Academia de Dança de Markos. A sua entrada na academia coincide com o desaparecimento de uma estudante que dissera ao seu psiquiatra que a Academia é liderada por bruxas. Esta história passa-se ao mesmo tempo que os eventos reais do Outono Alemão, uma série de eventos de terrorismo que levou à morte de treze pessoas. Ambos os eventos têm uma forte ligação com tragédias do passado, mantendo uma sensação de permanente niilismo.

Apesar de entrar algumas vezes na mente de Susie Bannion, o filme tem a decisão ponderada de não nos aproximar demasiado dela. Na verdade, acabamos por passar quase tanto tempo com as bruxas da Academia, como com Bannion. A existência de uma presença sobrenatural nem é mantida como um mistério, visto termos acesso a cenas prolongadas das bruxas a discutir o que planeiam fazer às dançarinas.

Guadagnino oferece-nos uma constante perspetiva de observadores externos. Claro que não é por sermos mantidos nessa perspetiva que os horror cometidos dentro da Academia nos passam ao lado. Este pode ser um drama, mas não demora muito até vermos do que as bruxas são capazes, numa sequência que é possivelmente a mais macabra de qualquer filme lançado este ano. É nesse momento que dança e terror se juntam num momento que não vai ser facilmente esquecido.

Camaleão Tilda Swinton

Tilda Swinton toma conta da obra, ao interpretar três papéis ao mesmo tempo: Madame Blanc (a mentora de Susie Bannion), Helena Markos (a líder da coven de bruxas) e Dr. Josef Klemperer (o psiquiatra da jovem que desapareceu). Saber isto não arruína qualquer surpresa da narrativa, pois as três personagens são completamente diferentes uma da outra. É difícil compreender ao certo o que fez Guadagnino querer Swinton em todos estes papeis, mas também não é possível negar que a atriz os domina aos três. Em Madame Blanc demonstra uma presença gélida e dominadora que tenta desesperadamente esconder as ligações emocionais que vai criando. Em Helena Markos solta a sua Bruxa do Oeste interior no papel menos restrito de um ser com incrível poder e malícia que está desesperado para alcançar a imortalidade. Finalmente, em Josef Klemperer deixa-nos vislumbrar um homem que ainda hoje sente os efeitos do holocausto e que apesar de tudo continua a repetir alguns dos mesmos erros do passado.

Dakota Johnson também demonstra ser uma atriz com uma forte presença, entregando o seu corpo a um papel que vive imenso da dança da personagem. Para esta escola, a dança já não pode ser bela após os horrores do holocausto. Sendo assim, Johnson vê-se obrigada a um papel contorcionista em que as suas danças são fisicamente violentas. Há uma presença dominante comparável à de Madame Blanc que se esconde por trás da sua inocência exterior.

A música de Thom Yorke é muito mais calma do que a que a banda Goblin tinha composto para o Suspiria original. Em vez da agressividade do tema original, somos confrontados com uma melodia que deixa transparecer a dor emocional que tanto assombra as personagens. A bruxaria pode ser usada para infligir dor, mas também é uma forma das personagens revelarem o que realmente se esconde por trás das suas almas. A melodia alia-se aos visuais de uma forma hipnótica.

Terror “do real” 

A fotografia de Sayombhu Mukdeeprom procura maioritariamente retratar a realidade. Ao contrário da versão de Dario Argento, este Suspiria parece fazer parte da nossa realidade. Pelo menos até ao final…que aguarda surpresas que finalmente libertam as visões mais estranhas de Guadagnino.

Até ao seu último ato, Suspiria esconde segredos que poderão não funcionar para todos os membros da audiência. Tal como aconteceu com Susie Bannion, o espetador precisa de se entregar à dança.  Para além de todas estas temáticas de culpa e de abuso, este é um filme que serve como forma do seu realizador libertar a sua perspetiva do que o terror deve ser. É uma obra que também vive do facto de aceitar o bizarro e de deixar alguns dos seus acontecimentos livres para a interpretação. Apesar de potencialmente divisivo, Suspiria executa perfeitamente aquilo que pretendia.

9/10

Título original: Suspiria
Realização: Luca Guadagnino
Argumento: David Kajganich
Elenco: Dakota Johnson e Tilda Swinton
Género: Terror, Drama.
Duração: 152 minutos