Quatro décadas após terem dado luz à sombra e uma após lhe sucumbirem, os Bauhaus reemergem. A tour de comemoração dos 40 anos da banda, pela mão do eterno líder Peter Murphy e o baixista David J, esgotou o LX Factory na noite de sábado (17).

É a terceira paragem da digressão em Portugal, no dia a seguir à atuação no Hard Club do Porto e meses após terem figurado no cartaz do festival Vilar de Mouros. David J e Murphy fizeram-se acompanhar de Marc Slutsky na bateria e Mark Thwaite (ex-The Mission) na guitarra.

O centro das performances—uma palavra aqui usada com a máxima precisão—tem sido o seu trabalho de estreia, um dos álbuns seminais do rock gótico, um clássico disforme, desconcertante e cru. In the Flat Field é uma tour de force libertina, de nove faixas profundamente entre o cinismo e o caos, pulsadas por uma torrente esmagadora de guitarras, o baixo pujante, a voz gloriosa.

Esta posição aproxima-se do consenso contemporâneo, mas, em 1979, o álbum fez os Bauhaus serem esquartejados na imprensa. Na NME, In the Flat Field dizia-se “merecedor de todos os adjetivos reprovadores“—o que não deixa de ser uma correspondência interessante, esta da estética da desgraça a ser cumprimentada com as palavras da desgraça.

Só uma das frases entre o emaranhado de vitupério poderia ser objeto de discussão real: “It’s doom for doom’s sake“. Seriam os Bauhaus a desgraça pela desgraça, a psicose em nome da psicose? Em 2018, Peter Murphy continua a pugnar pelas delícias do cinismo performático, a arte de uma magnética e pujante showmanship.

Pelas 21h, a fila era extensa, para entrar pela ambiência pseudo-rústica/industrial-chique da Fábrica XL. Fazer um concerto aqui sugere um satisfatório espetáculo de luzes tanto quanto equaciona o revestimento das frequências sonoras com reverb alarmante. Felizmente, os dolorosos graves do reggae que toca antes do concerto são corrigidos atempadamente, para que os ominosos acordes que abrem Double Dare comecem a fazer ferver a sala em êxtase pronunciado.

É uma longa ebulição a partir do alinhamento completo (pela ordem original) do álbum de estreia e seleções do repertório da banda, com dois encores. Entre reinventar a roda e apresentar o material em valor exato, a decisão passa pela reprodução quase milimétrica das composições originais, o que, suspeito, é a mais sensata opção tendo em mente o calibre destas canções, pilares permanentes do que se fez no rescaldo do punk.

Mas falar em sensatez é um desserviço ao monumento primal que é In the Flat Field e a energia que de o experienciar ao vivo se deriva, tanto quanto é um desafio à natureza corporal ficar estático perante o clamor abrasivo da faixa-título, o refrão de A God in An Alcove que Murphy potentemente esbraveja, como se a desesperança e o instinto de há quase 40 anos nunca se tivesse dissipado. Se é evidente que a voz é essencial no processo de replicar a acuidade destas músicas, também não seria repreensível alguma deterioração no canto.

A verdade é que, aos 61 anos, Murphy faz bombear novo sangue por todos os elementos da sua performance. Pode adivinhar-se pela sua entrada, num fato preto com apontamentos brilhantes a escarlate; prova-se na teatralidade que jorram os seus passos, a forma como se agarra em desequilíbrio aos pilares da sala. Lança-nos um olhar lascivo, posa como se do corpo fizesse arte. Fá-lo ao revisitar o espaço negativo de The Spy in the Cab, munido de um megafone em Small Talk Stinks, ou a percorrer o trilho tortuoso de Nerves, faixa depois da qual se recuperam outros momentos áureos da carreira dos Bauhaus.

Todos os discos são relembrados: o segundo disco, Mask, vem pelas mui celebradas Kick in the Eye e Passion of the Lover; até o derradeiro Go Away White faz uma aparição, na esquecível Adrenalin; o encore final é devotado a Telegram Sam e a Ziggy Stardust de David Bowie.

Murphy, mestre da cerimónia, não fez mais do que delinear-se como a figura esfíngica que sempre será, como se tivesse sido conservada em âmbar. E isso é algo tremendo. Na conclusão de A God in an Alcove, ergue uma coroa à luz intensa; talvez para uma ligação divina, talvez para mostrar que suportava todo o poder no mundo. Aqui, a ostentação é a sua simples prerrogativa.

Sem surpresas, a lânguida, pulsante Bela Lugosi’s Dead consubstancia a importância dos seus autores na história do rock. Todos gritamos undead, undead, undead. Nesses minutos, não há réstia de dúvida: nunca se pôde pronunciar nenhuma sentença de morte ao espírito dos Bauhaus.