A noite fria e chuvosa de Lisboa deste domingo (18) pedia um refúgio. Distante da realidade cinzenta e nostálgica típica das noites do último dia da semana. Um sítio que nos fizesse viajar e esquecer o mundo por umas horas. Um abrigo que nos fizesse, ao mesmo tempo, embarcar numa odisseia espacial e regressar. Nils Frahm conhece bem esse recanto.E, pela segunda vez no espaço de dois dias, abriu-o aos portugueses. Depois de atuar no Festival Para Gente Sentada, no sábado (17), o músico e compositor alemão abriu as portas do seu universo à capital portuguesa para apresentar All Melody. Trata-se do seu mais recente disco, lançado no primeiro mês deste ano.

A Aula Magna foi o local escolhido para a segunda paragem da tour europeia de Frahm e já não sobravam lugares no auditório. A escuridão tomou conta da sala e as luzes focavam apenas os mil e um instrumentos minuciosamente dispostos no palco. O vistoso grande piano, o Roland Juno-60, um Mellotron, um Fender Rhodes entre outros. A nave espacial estava pronta. O comandante, esse, chegaria exactamente em cima da hora da partida, quando os ponteiros marcavam as dez da noite. Harmonium in The Well, faixa de Encores 1, EP lançado em junho deste ano, dava início à viagem à boleia de um french piano com contornos simples.

No auditório, o silêncio era absoluto e conseguia-se facilmente ouvir o soar das teclas. Segue-se Sunson, tema de All Melody, e o casamento entre a música clássica e a electrónica dá-se pela primeira vez. Os loops de piano encaixam encontram os beats criados pelo sintetizador e a fusão é agradavelmente boa.

Depois da segunda ovação da noite ouviu-se “Abram a pista de dança c*” da plateia. A sonoridade de Nils Frahm oscila num espectro que resiste à catalogação do seu registo, mas isso não nos interessa. A verdade é que se de facto abrissem uma pista de dança, a sua música seria facilmente dançável.

Obrigado“, agradecia Frahm ao auditório em bom português, língua que confessou apreciar. A cumplicidade começava a crescer entre o público e o alemão, que interagia com o público sempre com um toque de bom humor.

A viagem continuava com My Friend The Forest e os corpos voltavam a imobilizar-se. Ao comando da nave, lá estava Nils Frahm, calmo e sereno como a melodia da música que tocava. “No Primavera Sound, não podia tocar esta“, confessa, recordando a sua passagem pelo festival portuense em maio passado. “Gosto mais de tocar em espaços como este“, dizia.

O músico é rodeado dos seus instrumentos, parecendo sentir-se no seu habitat natural; a forma como se movimenta é reflexo disso. Sabe perfeitamente como balançar o frenético e o calmo, da euforia de uma batida à tranquilidade de um piano. A sua sensibilidade musical não está ao alcance de qualquer um.

A sua veia clássica vem da infância, onde cresceu em Hamburgo. Foi lá que desde muito cedo teve aulas de piano e um contacto direto com a composição clássica, muito influenciada pelo registo de Tchaikovsky. A sua pele mais electrónica surgiu quando se mudou para Berlim, em 2006, onde foi buscar influências à cena techno da cidade.

No alinhamento desta noite, seguiu-se uma viagem pela sua carreira. Move, Ode e Fours Hands foram tocadas intimamente ao piano. HammersThe Whole Universe Wants To Be Touched e All Melody provam o porquê de Frahm ser um dos artistas mais versáteis da sua geração.

É a última música antes do encore“, anunciava o músico de forma bem disposta. Vinha aí o seu tema com maior sucesso e bastaram as quatro notas em loop de Says para o perceber. A faixa de Spaces, de 2013, conquistou o título de momento mais marcante da noite.

O encore estava prometido e o alemão cumpriu. Em For – Peter – Toilet Brushes – More, vimos Frahm pegar em duas baquetas, fazer do grande piano um instrumento de percussão e mostrar toda a sua genialidade técnica tocando quase todos os instrumentos de que dispunha em palco.

Duas horas e vinte minutos depois, a odisseia terminou. Frahm subiu a um banco e, sob um mar de aplausos, fez uma vénia a um público que foi fiel e respeitador. Obrigado pela viagem, comandante.