Pode um músico de apenas 27 anos saber cantar o amor e o desamor à maneira dos clássicos cantautores? Pode. Marlon Williams, de facto, pode e comprovou-o no sábado (17) na sala Lisboa ao Vivo.

Marlon Williams vem quase do outro lado do mundo, da Nova Zelândia, mas em menos de quatro meses deu o seu terceiro no nosso país. Passou na última edição do Vodafone Paredes de Coura e regressou agora para o Festival Para Gente Sentada rumando de seguida para a capital. Lisboa, a cidade onde ele esteve há menos de dez anos, a cantar com o coro da Igreja. Lisboa, a cidade do fado, o género musical tão português que canta, melhor que qualquer outro, arriscamos, o amor e o desamor.

É nessa ambiguidade que se baseiam os dois discos de estúdio de Marlon Williams, até ao momento. Quer o álbum título (2015), quer sobretudo Make Way For Love (editado este ano) divagam sobre a beleza inexorável do amor, esse sentimento que tão oportunamente se liga com a saudade, o ciúme ou a dor.

São essas as letras que Marlon escreve, na ressaca do fim da sua relação com a também cantautora neozelandesa Aldous Harding (que passou pelo Vodafone Mexefest o ano passado) e que ao vivo, ontem, narrou com a alma e a ironia de quem sofre. Assim foi ontem quando começou sozinho ao piano com Modern Love e seguiu com Beautiful Dress cantando um dos versos mais bonitos do ano à medida que a banda suporte o acompanhava em palco. “Let me wear you like a beautiful dress” poderia muito bem figurar numa t-shirt ou tote bag do artista.

De seguida o artista toma a guitarra e liberta o seu vozeirão incrível com uma potência e uma clareza capazes de arrepiar o maior dos céticos no amor. É que os temas biográficos – Silent Passage, Can I Call You ou Lost Without You, só para nomear alguns – tocam nas feriadas de Marlon Williams mas também das de todos nós. E se isso até então já era visível, em Dark Child, tema do primeiro disco, torna-se ainda mais custoso. “Oh my darling I’ve been waiting for you”, somos nós com as dores da vida adulta a lembrarmo-nos que sempre soubemos que nos devíamos ter preparado para a agonia. Ou que, como em Party Boy, tenhamos aquele lado negro de que não nos orgulhamos nada.

Ele não quer ser um Party Boy

E é com este tema que Marlon Williams fica mesmo à vontade em palco, embalado pelos teclados e guitarras tempestivos da banda que o suporta, no significado mais anglicizado da palavra. É também nesse momento que se parte uma corda da guitarra e Marlon, nos seus imberbes 27 anos, fica completamente perdido sem saber o que fazer.

Foi a primeira vez que isto me aconteceu e estou um pouco perdido…”, confessa com um sorriso apreensivo. De facto, a maturidade da sua escrita e a desenvoltura em palco, não fazem antever que um pequeno incidente normal para as maiores estrelas, deixe o músico tão à toa.

É aí que volta ao piano e toca um tema novo, para o seus filhos, ainda que não os tenha, pois. Being Somebody é uma bonita carta ao futuro, carregada de esperança e que pode, eventualmente, trazer outros assuntos à escrita do músico. Mas antes, claro, Love Is a Terrible Thing relembra que Marlon se sente “as lucky as a snowman in the spring”.

Mas ele ri. Vai gozando com a sua própria desgraça amorosa de que parece agora despedir-se. Com Ryan Downey, que fez a primeira parte do concerto, clama o tema eternizado pelos Roxy Music, Jealous Guy. E se até então a composta plateia do Lisboa ao Vivo não estivesse já rendida, pois este seria o momento de estender a passadeira vermelha a Marlon, a sua banda e o amigo Ryan Downey. Que, já agora, se mantenha debaixo de olho e de ouvido atento ao seu disco de estreia, Running.

Com Vampire Again a festa volta ao Lisboa ao Vivo e Marlon Williams distribui sorrisos, para de seguida explicar que Nobody Gets What They Want Anymore foi escrita precisamente com a sua ex-namorada. Goza com o facto – “Todos deviam ter essa experiência” e de seguida lança-se a Make Way for Love, deixando essa como a derradeira mensagem do concerto.

Claro que se cumpriram os formalismos do encore e Marlon regressou ao palco, primeiro sozinho, para Devil’s Daughter em formato acústico e, de seguida, acompanhado pela banda para uma versão de Portrait of a Man de Screamin’ Jay Hawkins. E que versão, e que vozeirão, e que concertão.

Marlon Williams prometeu voltar em breve e estamos certos de que a história das belas relações que o público português costuma manter com quem sabe cantar o amor, conheceu aqui um novo capítulo.