Donald Trolha
Elenco da peça 'Donald, Trolha' | Fonte: página oficial do grupo teatral MALTA no Instagram

‘Donald Trolha’: rir é o melhor remédio, ou o nosso maior erro?

Donald Trolha é uma peça escrita por Miguel Partidário que estreou no passado dia 2 de novembro no Auditório Fernando Pessa, em Lisboa. E, porque o teatro existe para ser visto em palco, o Espalha-Factos não deixou escapar a oportunidade de assistir e de falar com o encenador. 

Um grupo de jovens, conhecidos como MALTA, decidiu levar a palco uma sátira política. O resultado? Uma comédia que inquieta para além de fazer rir.

Tudo começa com um conjunto de premissas já conhecidas pelo público: um empresário milionário, de nome Donald Trolha (Xavier Lousada), decide um dia candidatar-se à Presidência da República Portuguesa. Nacionalista, imperialista e de extrema direita, a personagem vai-se revelando cada vez mais ignorante, superficial e oportunista, como esperado.

Trolha defende o regresso ao Portugal do ‘Zé Povinho’ ou até mesmo à época salazarista. É uma personagem racista, homofóbica, machista, demonstrando-o sempre de forma cómica ou até mesmo ridícula. A sua mulher, Núria Trolha (Cláudia Nadine), espelha de forma clara o desprezo que Donald tem em relação ao sexo feminino. Núria serve apenas de acessório para a campanha eleitoral e para a fachada social.

A assistente de campanha (Joana Calado) revela ser a personagem mais inteligente de toda a peça, uma espécie de representação do bom senso. Apesar de estar a ajudar um candidato extremista a ser eleito, a verdade é que é a pessoa que chama sempre Donald à razão e o aconselha de forma realista. Apesar de tudo, isto leva o público a sentir uma certa empatia pela personagem, que aumenta exponencialmente no final do enredo. Faz o seu trabalho para sobreviver e essa é a mensagem que fica.

Margarida Martins interpreta a principal candidata da oposição, Maria dos Santos Vieira, e o restante elenco é constituído por uma série de personagens: jornalistas, empresários, representantes de lobbies económicos, cidadãos portugueses ou simples figurantes de cena.

Da crítica política ao papel do espetador

O grupo semi profissional MALTA tem um elenco composto por jovens atores. Alguns deles nunca tinham pisado um palco, outros já, evidenciando-se algumas diferenças naturais. A nível técnico, até o espetador menos entendido em teatro é capaz de dar conta de pequenos pormenores menos perfeitos. No entanto, nunca nos podemos esquecer que, no teatro, mais importante do que o mensageiro, é a mensagem.

Existem peças com atores tecnicamente perfeitos que nunca conseguem tocar a plateia, sair da caixa negra. A técnica aprende-se e o grupo MALTA tem bastante potencial bruto em fase de evolução. Os mensageiros cumprem a missão essencial do teatro e de toda a arte, independentemente dos pormenores técnicos: entregam a mensagem.

A  mais óbvia é a crítica política, mas existem outras pequenas mensagens subliminares que vão sendo lançadas ao público, em tom de desafio. A candidata da oposição é criticada pelos seus interesses; o sistema democrático e os media são criticados por ignorar certos partidos e ideologias; o backstage da vida política “vai nu” em cena. Trolha pode ser o monstro imaginário que ainda não chegou a Portugal mas existem na realidade outros males que tentam minar a democracia e se regem pela regra do “cada um por si”.

Em qualquer peça, o espetador tem um papel crucial para que a peça corra na sua maior naturalidade. Por vezes, o público sente-se no direito de intervir, impedindo a peça de chegar a bom porto. Após uma fala com a ideia “eu sou preto mas eu fico aqui”, ouviu-se na plateia “eu também!”. Esta intervenção, à partida indesejável, acabou por trazer à superfície uma especificidade única desta performance teatral.

Donald Trolha envolve-nos numa espécie de peça-comício, onde os atores e o público se juntam para reivindicar uma democracia que lhes pertence mas que está ameaçada pelo populismo. Os atores apontam o dedo e relembram “todos somos políticos”, chamando o espetador a ocupar o seu lugar na trama.

Uma viagem teatral e social

Embarcamos assim numa viagem cómica, ridícula, que arranca um sorriso até ao espetador mais difícil, escondendo-se por detrás da gargalhada a mensagem principal. É, no fundo, uma sátira social ao panorama político português e mundial, num mundo onde (infelizmente) parecem existir cada vez mais “trolhas”.

A trama leva-nos, no entanto, para o abismo perigoso e anestesiante do riso e coloca-nos a questão: rir é o melhor remédio, ou será o nosso maior erro? Todo o enredo parece retirado de um filme cómico mas não é. É sim retirado de uma realidade nua, crua, violenta e bem real. Hoje na América e no Brasil, amanhã na pátria portuguesa. Enquanto rimos achamos que tudo é demasiado ridículo para se tornar verídico, até o populismo nos vir bater à porta.

“Não o deixes entrar” é a mensagem principal de Donald Trolha: uma comédia para ser levada a sério.

Para veres

Se ainda não tiveste oportunidade de assistir, sabe que restam apenas duas datas. Podes encontrar todas as informações aqui.

LÊ TAMBÉM: RUSSIAN NATIONAL BALLET APRESENTA O LAGO DOS CISNES E A CINDERELA EM DEZEMBRO

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Iminente
Festival Iminente transmite evento solidário no Instagram