Há algum tempo atrás, a época dos festivais acabava com o fim do verão. Felizmente, desde há uns anos para cá que qualquer melómano que se preze pode continuar a praticar a sua religião ao longo do ano, e ver vários (dezenas?) de concertos num par de dias.

O Super Bock em Stock, que já foi conhecido como Vodafone Mexefest e regressou, em 2018, ao seu nome original, afirmou-se como um dos mais relevantes festivais além verão. Nos dias 23 e 24 de novembro, a Avenida da Liberdade, em Lisboa, vai receber mais de 50 artistas, em atuações que vão decorrer em mais de dez salas da capital.

Para que não te sintas perdido e desorientado, deixamos-te aqui um possível roteiro, que longe de ser único, pode ajudar-te na ingrata tarefa de escolher o que ver e ouvir nestes dois dias de festival.

O primeiro dia de festival

Como não há formas certas e erradas de abrir as hostes, deixamos-te três opções que poderão depender em grande medida do teu estado de espírito neste primeiro dia de festival.

Os fogo fogo prometem nada mais, nada menos, do que ousadia e alegria. Os ritmos africanos contagiantes e o funaná não deixarão, pela certa, ninguém indiferente. Com membros vindos de vários projetos musicais, vão decerto incendiar o palco da Sala EDP, como têm feito ao longo da digressão de lançamento de Nha Cutelo, o EP lançado em junho.

Se quiseres dar início à tour de uma maneira mais calma e recatada, nada melhor do que ir espreitar um dos casais mais queridos do panorama musical português. Os Birds Are Indie vêm de Coimbra e trazem-nos a doçura de um casal apaixonado que pegou em instrumentos simples, aprendeu a manejá-los com destreza, e transformou o amor em música. Desde o lançamento do seu primeiro EP, em 2010, foram crescendo e criando temas cada vez mais elaborados, assumindo-se atualmente como uma das bandas de indie-rock-fofinho mais interessantes do nosso cantinho.

Se, por outro lado, o hip hop for a tua vida, podes começar a preparar-te para passar muito tempo no Cineteatro Capitólio. É lá que vais encontrar as principais atuações do género deste Super Bock em Stock, e podes começar por RUSSA, uma das novas vozes do hip hop português no feminino. RUSSA alterna com mestria entre temas doces e melancólicos e gritos de raiva e força. Direta ao assunto, e transparecendo verdade na música que faz, é uma das atuações a não perder neste primeiro dia de festival.

No caso de teres sido contagiado pelas rimas e batidas, nada melhor do que ficar para ver NGA, rapper angolano que cresceu nas ruas da linha de Sintra. Inspirado por Black Company e Boss AC, NGA afirmou-se no hip hop tuga e cresceu com ele. O filho das ruas vem apresentar o seu mais recente trabalho, Filho das Ruas II, que marca o seu regresso aos palcos e à criação artística.

Achamos que, nesta fase, Conan Osiris dispensa já apresentações. Soltemos os cães, deitemos o lixo no contentor, e deixemos de nos preocupar com questões estéticas. Rumemos ao Teatro Tivoli BBVA e cantemos em uníssono letras desconexas e, ao mesmo tempo, repletas de complexidade. Dancemos e abanemos a anca – podemos até aventurar-nos no twerk – e, principalmente, façamos da vida uma festa estranha durante alguns momentos. Claro que, aqui, não nos dirigimos aos fãs de The Smiths. Esses estarão já a ocupar os seus lugares nas primeiras filas de Johnny Marr.

Marr, um dos fundadores dos The Smiths, em conjunto com uma das figuras mais relevantes, geniais e impertinentes da cultura musical internacional, o incontornável Morrissey, traz-nos uma das (se não a) atuações mais relevantes deste Super Bock em Stock. Traz-nos também um disco novo, Call The Comet, lançado em junho, e (muito) provavelmente, alguns temas dos Smiths. Temos que admitir que a perspetiva de ouvir canções como Bigmouth Strikes Again ou How Soon Is Now? nos faça assinalar de imediato a atuação do ex-Smith nos nossos horários. Mas vamos por Marr, que é muito mais do que a banda que o celebrizou.

Mas a noite não fica por aqui, e ainda temos mais um par de sugestões para acabares este primeiro dia de festival em bom. Masego traz-nos uma mistura interessantíssima de sonoridades e merece um regresso ao Cineteatro Capitólio. A fusão de hip hop, jazz, soul e r&b do norte-americano, nascido na Jamaica, é sensual e cativante. Masego estreia-se em território nacional e é, seguramente, um nome a manter debaixo de olho.

Natalie Prass não é uma estreante nas atuações em terras lusas, mas é uma excelente alternativa para quem preferir singer-songwritters delico-doces a batidas mais quentes. A voz cândida de Prass, o folk com salpicos de soul e a simplicidade bela dos temas que compõe, fazem com que esta seja uma escolha acertada para deixar a Avenida da Liberdade e começar a fazer as escolhas musicais do segundo dia de festival.

O Super Bock em Stock arranca sexta-feira, dia 23 de novembro. Os bilhetes ainda estão disponíveis e podem ser adquiridos nos locais habituais.