Uma migrante, um camião, um camionista, uma estrada, um cenário cinzento, e, tudo somado, Carga. A prova está nos cinemas, mas, para melhor a comprovar, o Espalha-Factos foi conversar com Bruno Gascon. O realizador português apela a que o público português retorne a encher as salas do país. De preferência, na nossa língua. Esperemos só que ninguém se perca pelo caminho.

Espalha-Factos: O que o levou a tocar na questão do tráfico de seres humanos em Carga?

Bruno Gascon: Há sensivelmente dez anos, comecei a fazer programas de TV e documentários muito relacionados com migrações. Fui ouvindo imensas histórias, mas muitas vezes só era possível contar um lado da história. As pessoas vinham, mas essas migrações eram contadas pelo lado positivo. Eu fiquei com essas histórias na cabeça, e então decidi compilar todas as histórias numa só e, daí, surgiu a Carga.

EF: Conte mais sobre o enredo do filme…

BG: A Carga é um filme que fala sobre tráfico de seres humanos. Conta a história de Vitória, uma rapariga que é apanhada numa rede de tráfico de seres humanos, e que vinha à procura de uma vida melhor, e de António, que é um camionista que, por força da crise, teve de começar a fazer este transporte de carga. É um filme sobre escolhas, ou seja, todas as personagens no filme têm uma escolha para fazer, e têm vários caminhos. O filme é falado em inglês, português, e russo, e existem muitas falhas de comunicação. Existem personagens que só falam inglês, outras que só falam russo e outras que só falam português. Isto vai fazer com que as personagens não se entendam, não só pela linguagem, mas também pela própria cultura que têm.

EF: Por que cineastas se deixou influenciar para fazer este filme? Tudo isto me faz lembrar ‘Mr. Nobody’ (2009)…

BG: Sim. Podia dizer muitos, na verdade. Posso adiantar dois ou três nos quais me revejo muito: [Alfred] Hitchcock, [Stanley] Kubrick e Roman Polanski. São três realizadores de que gosto bastante e identifico-me muito com a forma como eles filmam, a maneira como eles contam as histórias, e toda a parte cinzenta à volta da sociedade que eles criam dentro do filme.

EF: E vamos poder ver algumas das marcas desses realizadores no seu filme?

BG: A minha ideia é sempre criar uma identidade própria. Ando à procura de uma identidade pessoal. Já o tinha feito nas minhas duas curtas anteriores, com temas também bastante pesados – uma sobre esquizofrenia, e outra sobre suicídio. Mas são temas de que gosto bastante, de que gosto de falar, porque acho que a sociedade só evolui se falarmos desses temas; acho que não devem existir temas tabus.

EF: Mas gosta de iluminar esses lugares mais escuros?

BG: Gosto mesmo de mostrar às pessoas, porque as pessoas muitas vezes têm a tendência de olhar para o lado. Não deixa de ser ficção, mas gosto de mostrar que isto é uma realidade que existe não só em Portugal, mas no mundo. E tento fazê-lo ao utilizar muito mais o psicológico das personagens, o interior das pessoas, para poder mostrar alguma coisa. Muitas vezes, andamos totalmente atarefados, não olhamos para o lado, e não conseguimos perceber o que se passa à nossa volta. E tudo isso fica muito vincado em todos os filmes… e vai continuar.

Sara Sampaio em Carga (2018)

EF: Como se sente por finalmente lançar uma longa-metragem sob a sua autoria?

BG: Não estava à espera de que o filme chegasse onde chegou: já vendemos para os Estados Unidos, para o Canadá, para a China. Hoje (15 de novembro) foi anunciado que vendemos para toda a América Latina, portanto superou as minhas expectativas.

EF: O que o levou, na altura, a ir estudar para Amesterdão? E como descobriu que a carreira enquanto cineasta havia de passar por lá?

BG: Acima de tudo, eu desde miúdo que via muitos filmes. Era viciado em filmes. Desde pequeno, ainda tinha videocassetes, eu gravava e via os filmes vezes e vezes sem conta. E via desde o mais autoral ao mais comercial, do pior ao melhor, eu vi de tudo, porque eu gostava mesmo de ver filmes. Chegava a ver cinco, seis filmes por dia. Sempre tive essa curiosidade, mas nunca pensei que poderia ser eu a realizar aqueles filmes. Eu tinha 18, 19 anos, tinha acabado o secundário e estava meio perdido, não sabia muito bem o que haveria de fazer, e tive um problema familiar… então, eu comecei a mudar um bocadinho a minha perspetiva de futuro. Ou seja, se [o cinema] era uma coisa de que eu gostava tanto de fazer, porque não tentar? Agarrei em tudo o que tinha, nas poucas coisas que tinha, levei as malas e fui daqui [Portugal] para Amsterdão.

Eu já ia com a ideia de estudar cinema lá fora, e esse problema familiar deu-me o clique de agarrar em todas as coisas que tinha e pensar, “porque não vou fazer isto?” Eu achei que era sempre um objetivo um bocado difícil. Devido a isso, eu alterei um bocadinho a minha filosofia de vida e, então, fui atrás do meu sonho.

Foi lá que acabei por conhecer o meu professor de realização, um dos meus mentores, que é argelino e que me ensinou muitas das coisas que eu sei hoje sobre realização. Eu acabo por beber muito da sua influência, porque ele também fala sobre temas sociais. Foi uma pessoa que me motivou muito durante aqueles três anos em que estive em Amesterdão. Foi a partir daí que eu decidi que queria realizar. Depois vim para Portugal, comecei a fazer documentários e programas televisivos, mas a minha ideia sempre foi fazer filme, independentemente de fazer outras coisas. Então, tentei aprender o máximo que consegui para que, quando fizesse cinema, saísse exatamente aquilo que eu queria que acontecesse.

EF: Esse ziguezague em direção ao cinema foi propositado? O que leva do documentário para os filmes?

BG: Não, não foi propositado. Na verdade, foi a oportunidade que me foi apresentada quando cheguei cá, e eu de certa maneira precisei de agarrá-la para aprender o máximo possível. Acima de tudo, eu achei que depois de Amsterdão ainda não tinha a experiência suficiente para me dedicar sozinho a fazer um filme. E isso serviu para a minha aprendizagem enquanto realizador e pessoa: fiz muitos programas de TV, muitos documentários…

EF: O público português é mais retraído em relação ao cinema nacional. Teve medo disso enquanto fazia este Carga?

BG: Medo existe sempre, mas em relação ao cinema português, estamos a começar a assistir a uma evolução. Não só eu com a Carga, mas existem “n” realizadores que estão a surgir e a evoluir, e a ganhar festivais lá fora. Acho que devia existir uma campanha muito maior em relação aos espectadores e às pessoas para retirar aquele tal estigma do cinema português que já existe há muitos anos. É isso que ainda falta… falta as pessoas aperceberem-se de que, em Portugal, nós conseguimos fazer tão bom cinema quanto em todos os países do mundo.

EF: Por agora, tem o primeiro filme lançado. Repousar um bocado e ver como corre, ou fazer um próximo?

BG: Não. Eu não sou pessoa de parar. Não faz parte de mim parar e repousar. Termino um filme e já estou a pensar num próximo. Aliás, o próximo já está escrito, e tudo. A minha ideia é trabalhar todos os dias para fazer mais e melhor. Não sou de me resignar.