“Não a Ti, Cristo, Odeio ou Menos Prezo” é o nome da nova antologia que vai reunir vários textos do escritor Fernando Pessoa, já no próximo dia 20 de Novembro. É a primeira vez que uma só edição reúne textos em prosa e poemas do escritor acerca da figura de Jesus Cristo. Entre o olhar de Pessoa ortónimo e dos seus heterónimos surgem por vezes contradições e perguntas que ficam por responder: características desde já habituais na escrita de um dos mais emblemáticos poetas do século XX.

Será que Pessoa acreditava em Jesus Cristo?

Esta é a pergunta que dá mote à compilação organizada por Manuel S. Fonseca, o responsável pela escolha dos poemas e das prosas do misterioso poeta Fernando Pessoa. Passados anos da sua vida e escrita, a visão do poeta sobre a religião continua a não ter resposta fácil.

O livro agora editado demonstra “por um lado, uma imagem de inocência e pura vitalidade a convocar uma devoção comovente, por outro lado, um livro doutrinamente anti cristão”, segundo a sinopse do mesmo. A obra, publicada pela editora Guerra&Paz, conta com 36 textos (poesia e prosa) com inúmeras visões acerca de Cristo e dos pensamentos que Pessoa tecia acerca do tema da religião.

A sinopse revela também que “a extravagância pressupõe uma determinada, mas indirecionada, vontade de vaguear. Fernando Pessoa gostava de vaguear por Jesus Cristo”. E é nessa viagem pelos pensamentos das inúmeras ‘pessoas’ que deambulavam na mente do poeta, que o livro nos promete levar.

Fonte: Comunicação Editora Guerra&Paz

12 Apóstolos, inúmeros heterónimos

Sabe-se que Fernando Pessoa criou, ao longo da sua vida, inúmeros heterónimos – sendo que os mais conhecidos são Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

Escreveu um dia Alberto Caeiro o poema “Vi Jesus Cristo Descer à Terra” – neste poema é evidente a forma simples e naturalista com que Caeiro abordava muitos temas, no entanto, com algumas frases que dão que pensar:

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

“Se é que ele as criou, do que duvido”

Nesta estrofe, Pessoa faz claramente uma crítica à Igreja Católica, sendo difícil perceber onde acaba o heterónimo e começa o ortónimo Fernando Pessoa. Na altura era conhecida a sua opinião acerca das instituições católicas, das quais discordava completamente – constituindo-se como um cristão gnóstico. A sua fé em relação a Jesus Cristo, acredita-se, estava interligada às suas ligações com a Maçonaria e a essência oculta da mesma.

Ricardo Reis, conhecido por ser o heterónimo pagão, crente em vários deuses devido à sua educação clássica ligada à Roma e à Grécia antigas, também refletiu acerca da existência de Jesus Cristo com o poema que dá nome ao novo livro:

“Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo

Que aos outros deuses que te precederam

Na memória dos homens.

Nem mais nem menos és, mas outro deus.”

Entende-se facilmente que Reis não negava a existência de Cristo, apenas a sua superioridade em relação aos restantes deuses da antiga Roma e Grécia.

Estes e outros tipos de reflexões estão presentes na obra “Não a ti, Cristo, Odeio ou Menos Prezo” que chega às bancas já no próximo dia 20 de Novembro.

 

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