O Espalha-Factos encontrou-se com Bernardo RamosGuilherme Simões e Rodrigo Domingos, fundadores de uma nova editora independente nacional: a Chinfrim Discos. Os três amigos e colegas de trabalho explicam-nos—na “Cave”, o seu sítio de reunião—o seu objetivo com o projeto emergente e o que o torna singular no panorama português.

CHINFRIM DISCOS | Guilherme, Rodrigo, Bernardo | Fotografia: Diana Matias

Quem é a entidade Chinfrim e como surgiu?

B: Basicamente, a Chinfrim somos nós os três: eu (Bernardo), o Guilherme e o Rodrigo. Estamos a fazer isto juntamente com uma bela equipa de pessoas com quem vamos trabalhar em diversas áreas: agenciamento (Pedro Oliveira), design (Francisco Morais Soares e Inês Graça), produção de vídeo (Diana Matias), entre outras.

Como é que o projeto começou? Como se juntaram?

G: Nós os três estudamos na Escola Superior de Música (Lisboa), em Tecnologias da Música, que pretende dar-nos capacidades para sermos engenheiros de som, entre muitas outras funções relacionadas com a música e som. Conhecemo-nos nesse contexto e percebemos logo no primeiro ano que estávamos os três dentro do mesmo background de música. Ouvíamos todos cenas diferentes, mas havia pontos em comum de bandas e de sonoridades.

B: Havia muitos artistas de que os três gostávamos mesmo muito e que valorizávamos bastante.

G: Exato e, assim, ao longo do primeiro ano, fomo-nos conhecendo melhor. Os três temos projetos e fomos mostrando as nossas cenas uns aos outros e fomo-nos entreajudando com ideias e críticas. Daí surgiram ideias do que fazer durante esse ano, porque também tivemos algum tempo livre e [passamo-lo] juntos. Foi assim que surgiu a ideia de formar uma editora.

Ao início, foi um bocado à balda, na verdade, porque só nos preocupámos em arranjar um nome e um logotipo e “ok, temos uma editora”. Só que depois, à pala disso, tentámos perceber mesmo bem como efetivamente funcionavam as editoras e como é que era a estrutura duma editora: quem fazia o quê e qual era o seu verdadeiro papel.

B: Mantivemo-nos sempre em contacto durante o verão, falávamos uns com os outros e continuávamos a encontrar-nos. Tínhamos ainda a ideia de criar uma editora e tínhamos combinado que, em setembro, íamos pôr isto tudo a funcionar como deve ser. Foi numa de “vamos voltar a estar juntos, por isso é para pôr a coisa a andar”.

Portanto, estão agora no segundo ano de faculdade?

G: Sim, estamos no segundo e a ideia surgiu durante o primeiro. Com o início da faculdade voltávamos a estar juntos e a ideia era também uma maneira de nos ocupar nos tempos “mortos”: entre estudar, fazer os projetos e os trabalhos. Queríamos investir numa cena em que realmente podemos ser úteis.

Chinfrim Discos | Divulgação

B: Foi a única cena em que pensámos “Sim, isto era o tipo de coisa que nós podemos fazer os três e realmente ser bons ou úteis, pelo menos”.

G: Começamos a definir objetivos e a tentar de facto cumpri-los e é isso que está a acontecer agora. Formámos uma equipa de pessoas em quem confiamos e que achamos que vão fazer um bom trabalho dentro dos seus papéis, porque, lá está, também nos identificamos com elas, não só em termos de música e sonoridade, mas na própria maneira de estar e de trabalhar dentro disso.

R: Basicamente é pessoal que entra no nosso círculo, mas que também tem algo a acrescentar.

Falando nessa “zona” em que vocês todos se encontram: qual é a identidade do que vos ligou aos três e ao resto da equipa? É uma sonoridade ou uma maneira de estar e de olhar para a música, ou outra coisa qualquer?

R: São as várias sonoridades dentro do grupo que criam um misto e uma só coisa, que é a adição de todas as outras.

G: Todos nós temos bandas e amigos que têm bandas, e são todas diferentes entre si, apesar de ser claro que se tocam nalguns aspetos. Há mesmo de tudo e, na verdade, eu não sinto que me encaixe num grupo específico. Tudo isto me motiva, porque me dá prazer ver o pessoal feliz por estar a fazer algo dentro do estilo deles. A cena da editora passa um bocado por isso também.

R: Ajudar o pessoal e dar críticas construtivas em relação ao trabalho dos artistas e ajudá-los a progredir.

G: Estando numa escola de música, estamos rodeados de todas as influências possíveis, que cobrem o espectro todo: malta do jazz, do metal, do clássico, do noise…  É um bocado juntar pessoas que nos dizem algo, com quem temos alguma intimidade e com quem somos capazes de beber uns copos e estimular essas pessoas a fazerem a sua cena. Não há uma identidade muito específica.

B: É isso, não somos uma editora de garage, ou de eletrónica ou assim. Não excluímos à partida nenhum estilo. Acho que isso é que é a nossa identidade.

Sentem que era isso que estava a faltar nas outras editoras? Como se pretendem destacar dessas tantas outras?

B:

Queremos acompanhar todo o processo de produção de cada disco dos artistas que estão associados connosco e dar os nossos inputs criativos e técnicos e ajudá-los com o que quer que seja.

Se quiserem gravar connosco, podemos fazê-lo, e se quiserem gravar fora também podemos dar as nossas recomendações acerca disso. Se quiserem fazer um vídeo, nós arranjamos maneira desse vídeo acontecer. Aliás, é por isso que estamos a criar toda uma equipa, também.

G: É uma vontade de participar nos discos duma maneira mais ativa. Em vez de recebermos discos já feitos e editarmos, é mais “Queres fazer um disco? Diz-nos o que já tens e o que é que precisas e nós podemos ajudar nisso”. Queremos ser uma orientação durante o processo todo.

B: Se alguém nos mandar uma demo e nós curtirmos, é para tentarmos gravar isso com qualidade. Temos a vantagem de o podermos fazer na faculdade, temos muito equipamento à disposição, aí e em casa, e conhecimentos que também podem ajudar nessa parte. O objetivo a partir daí, é fazer uma cena que achamos que tem qualidade e editar, não só como algo que recebemos, mas também como algo em que participámos.

G: Além de que podem chegar artistas que, por exemplo, querem gravar violinos ou uma flauta para uma música, mas não conhecem ninguém que toque. Nós estamos numa faculdade em que é só vir à rua e vemos pessoas a passar com todo o tipo de instrumentos. Podemos falar com essas pessoas, perguntar se querem gravar para um disco, damos-lhes as partituras, e faz-se com facilidade.

Vocês estão em Lisboa, a criar esse projeto em Lisboa. Sentem isso mais como uma vantagem ou uma desvantagem para vocês, tendo em conta que há imensas editoras cá?

B: A nossa ideia é não ser uma editora de Lisboa, na verdade. Muita gente que trabalha connosco não é de Lisboa. O Guilherme é de Ourém e tem muitos contactos nessa zona e quem trabalha connosco na parte do agenciamento também não é de Lisboa. A nossa pequena equipa de designers também não é de Lisboa. A ideia é também trabalhar com músicos que sejam de fora. Lá está, os artistas lisboetas têm muito apoio das outras editoras independentes que existem.

R: A vantagem é que se trabalharmos com artistas que não são de Lisboa, como aliás já temos a Bia Maria, e que não têm contactos cá, podemos exatamente tratar dessas coisas para aqui e, ao mesmo tempo, expandir os contactos para fora.

B: Exato, queremos trabalhar para fora de Lisboa.

Bia Maria | Fotografia: Carolina Tavares

Desviando-nos agora um bocadinho desta temática, houve algum momento específico em que souberam que era na música que queriam trabalhar para o resto da vida, ou foi sempre um dado adquirido?

B: Não foi bem um dado adquirido. Eu sempre tive muitas dúvidas do que queria fazer e tenho tocado com bandas desde o 7º/8º ano. No secundário continuei a tocar, embora com bandas diferentes, e pronto, foi sempre algo que continuei a fazer. Entretanto, cresceu a paixão pelo som e, pronto, agora estou aqui metido e não há forma de sair (risos).

R: Eu comecei a tocar e defini desde cedo que queria ser músico. Só que pensei que saxofone era mesmo a minha escolha de vida, que queria ser saxofonista e ir mesmo estudar para a ESML. Depois, conheci o Bernardo, que me influenciou muito na escolha e começámos a falar de som e ele pôs-me a ouvir música a sério, mesmo antes de começar a pensar entrar para o curso. Achei que foi uma boa escolha, porque também não tinha bem a certeza do que queria fazer, além da opção do saxofone, e surgiu a hipótese de som.

G: Sempre me dediquei à música, mas não de uma maneira profissional. Daqui a um ou dois anos, supostamente, eu tenho de me sustentar sozinho, e não quero mesmo estar dependente dos meus pais. Então, comecei a pensar que se calhar devia mesmo encarar isto de uma maneira mais séria. Se já estou a estudar música, não posso deixar que isto seja uma cena de “tempos-livres”. Para mim o ponto de viragem foi esse (risos). Quero levar isto [da forma] mais profissional possível, e mesmo que algumas vezes não me apeteça levantar e ir fazer música, eu sei que me vai compensar fazê-lo.

B: Dá-nos mais gozo do que ir trabalhar num café, ou assim.

G: Exato, e como eu não quero estar a explorar demasiado a parte de tocar e criar, é fixe investir neste tipo de projetos. Ao mesmo tempo, estou ligado à música e a trabalhar com pessoas na área da música. Estou lá durante todos os processos: produção, mistura, tudo na parte da abordagem do som. É uma forma de estar sempre em algo relacionado com isto, sem me saturar por estar sempre a fazer a mesma coisa.

B: Isso foi uma das coisas que me motivou também. Quando estive a gravar o Ribamar com os Môno! apercebi-me que quando era a minha vez de gravar as minhas partes ficava mais aborrecido. Estava a curtir mais de estar a gravar as partes dos outros e dar a minha opinião em relação a isso. Motiva-me mais estar envolvido noutros processos que não a parte de interpretação com um instrumento.

Ao longo da vossa experiência, porque todos vocês já fizeram coisas na área da música e já tiveram formação musical além do vosso curso atual, havia mesmo uma preferência para vocês entre as partes de produção e de tocar/criar? Para ti, Bernardo, é produção?

B: Sim, para mim é produzir.

G: Eu curto muito das duas cenas. Há pessoas na net a dizer para não fazer ambas ao mesmo tempo e para não as misturar e eu estou a tentar não o fazer.

B: Eu por acaso acho que podes misturar as duas cenas. Acho que é fixe. Não quero nunca deixar de tocar.

G:

Sim, porque ao mesmo tempo eu não quero definir uma linha entre ambas [tocar e produzir]. Eu quero ser profissional na produção, e também profissional na parte de tocar. Nenhuma delas é um part-time, nenhuma delas é lazer só. Quero mesmo estar lá sempre, e não só quando estou motivado.

Eu vou fazer ambas, porque é o meu trabalho, e quero encará-las como tal.

R: Nesta fase da vida, quero mesmo juntar as duas. Curto mesmo de tocar [saxofone] e curto mesmo de produzir, e de estar lá desde o início e avaliar as gravações e o projeto em si.

Vocês disseram que uma das razões pelas quais se uniram os três e pelas quais isto sequer é um projeto que está a acontecer é que vocês gostavam mais ou menos do mesmo tipo de música e de sonoridade…

B: Eu e o Rodrigo já nos conhecíamos. Uma vez, topamos a pulseira do Bons Sons do Gui [Guilherme] (risos).

G: Foi do Paredes!

R: Não foi nada. Quando entrámos para o curso eu sentia que já conhecia a cara do Gui e eu sentia que ele olhava para mim assim também (risos).

G: Sim, é verdade. Recentemente, fui ao meu telemóvel ver as fotos que tinha desse Bons Sons e numa foto que tirei à toa eles aparecem os dois!

B: (risos) Não eramos o foco da foto, mas estávamos lá.

G: Foi engraçado, porque, às tantas, foi uma foto que tirei já um bocado bêbado e eles estão os dois lá. Não sei o que isso quer dizer, mas quando descobri isto pensei “fogo, isto é mesmo fixe”. Mas outra coisa que está aqui a faltar e que impulsionou o projeto foi o álbum do Rodrigo (RAKUUN). Ele e o Bernardo já tinham gravado o álbum do Johannes, que era um estudante de Erasmus que conhecemos no nosso primeiro ano, e, apesar de eu não ter participado nisso da mesma forma que eles participaram, acabei por estar presente bastantes vezes. Entretanto, o álbum ficou gravado e saiu; não sei como está a ser a receção, mas eles vão os dois à Alemanha graças ao Johannes.

B: (risos) Ver o concerto de lançamento do álbum!

G: Com o álbum do RAKUUN, começámos a trabalhar os três a fundo e a perceber que as cenas resultam entre nós. Percebemos que os três conseguimos contribuir de formas diferentes para o resultado final daquilo em que trabalhamos. Isso motivou-me imenso.

RAKUUN | © Rodrigo Domingos

Se cada um de vocês tivesse de escolher um álbum português, mais ou menos recente, para ter o carimbo da Chinfrim, qual seria?

G: Isso é uma pergunta difícil… O 8, dos Sensible Soccers, de 2014. É o disco que eu escolho, por ser um disco tão particular e único, não há nada em Portugal e até me arrisco a dizer no mundo que se possa dizer que soa ao mesmo. Isso não existe. O disco é instrumental, o que até facilita a sua projeção, por não ter a barreira da língua, não é exclusivo para portugueses, é para quem quiser ouvir.

Não significa que seja necessariamente o meu disco favorito, mas dar-me-ia imenso prazer editar uma banda que criou algo realmente novo e singular e que criou uma identidade própria, que é exatamente o que nós queremos fazer.

B: Escolho o Verão Eterno, dos Capitães da Areia. Também não é o meu disco preferido, mas tenho um carinho especial por ele. Houve um verão em que acho que ouvi esse disco todos os dias. É duma banda que praticamente desapareceu, mas que tinha imenso potencial. É uma sonoridade também um bocado única dentro do que se faz em Portugal. Não necessariamente lá fora, porque os Vampire Weekend nesta altura já faziam estas melodias e ritmos mais tropicais. Mas as letras do Pedro de Tróia são muito particulares.

R: O Navia, da Emmy Curl, não só pela sonoridade do disco, mas também pela pessoa que o criou. Gosto bastante da estética dela, não só em termos de música, mas de toda a imagem que ela criou. Sendo que na Chinfrim queremos estar envolvidos nos percursos dos artistas até na parte do vídeo e imagem e tudo o mais, acho que teria sido interessante trabalhar com ela. E ainda pode, talvez.

B: Está tudo em aberto, estamos abertos a propostas.

G: São três discos completamente diferentes, é engraçado.

Então, por isso mesmo, se tivessem de escolher só um álbum entre vocês os três que gostariam de ter editado, qual seria? Pode não ser nenhum desses que disseram.

B: Agora é ainda mais difícil…

R: Curtia de trabalhar com os Salto.

B: Olha, sim, os Salto!

G: O álbum Salto, dos Salto. Eles até tiraram o nosso curso, mas na ESMAE, no Porto. Se calhar foi uma banda que começou mais ou menos como nós estamos a começar a editora.

B: E até são uma influência grande nesse sentido, para nós.

G: Para mim foram mesmo uma influência gigante. Descobri estes cursos a ver entrevistas dos Salto a dizerem que estudavam isto e eu fui pesquisar. Este disco acho que foi gravado no último ano em que eles lá andaram.

Ainda há pouco mencionaram o álbum do RAKUUN. Que outros projetos é que já estão mais ou menos encaminhados para este início da Chinfrim?

B: Estamos a trabalhar com uma banda de Lisboa, que são os Los Antúrios. Gravaram o seu primeiro disco no estúdio de um amigo do Gui, que é o António Monteiro, em Caxarias. O Gui falou-nos deles e já reunimos com eles e a coisa está bastante encaminhada.

G: A Bia, que é uma rapariga da nossa faculdade. Eu sabia que ela fazia música e fomos falar com ela a explicar o projeto e a dizer que estávamos interessados em gravá-la e ela ficou logo super interessada. Ela é de Ourém, também. Além da Bia Maria e dos Los Antúrios, temos o álbum do RAKUUN. É melhor não contar mais nada (risos).

B: Sim, estamos mais focados agora nestes projetos.

E planos futuros para a editora? O que é que podemos esperar? O que querem dizer às pessoas?

B: Mais artistas, estamos abertos a propostas. Não queremos ser uma editora fechada sobre um grupo de amigos. Queremos trabalhar com pessoas que ainda não conhecemos, e que vamos conhecer através da música que fazem. Queremos trazer pessoas de fora para o nosso círculo.

G: Exato. Não estamos à procura de amigos nossos, estamos à procura de bandas e artistas e se nos identificarmos com os objetivos delas, depois falamos com elas e vemos no que podemos ajudar. Acaba por ser sempre uma surpresa.

B: Não editamos os nossos amigos dos copos, editamos pessoas que eventualmente se podem tornar também amigos dos copos.

R: Temos de falar da festa!

B: Temos uma ideia de fazer uma festa, no início de dezembro, para celebrar o nascimento da editora, com atuações ao vivo de artistas com quem estamos a trabalhar, dj sets e um ou outro convidado.

Então, podemos esperar uma festa da Chinfrim no início de dezembro.

B: Sim, e, entretanto, alguns concertos, possivelmente.

G: E até lá, vão sair singles. Em 2019, arrancamos e vão estar muitas coisas a acontecer.

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