Adaptado do livro bestseller homónimo de Ann Patchett, 17 anos depois Bel Canto chega finalmente aos cinemas, após já em 2015 se ter tornado uma ópera. Com um elenco internacional, a trama posiciona a música ao centro, qual língua pela qual se ultrapassam barreiras.

A narrativa é inspirada na crise dos reféns em Lima, no Peru, em 1996, tendo um grupo rebelde invadido uma festa privada na residência do embaixador japonês, levando a um cerco e negociações que duraram, até caírem por terra, quatro meses.

A realização está a cargo de Paul Weitz. O realizador do original American Pie (1999), tem tido uma carreira diversa ao longo das últimas duas décadas. O seu grande momento terá sido Era Uma Vez Um Rapaz (2002), escrito e realizado em conjunto com o irmão, Chris Weitz, que lhes valeu uma nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado.

Seguiram-se anos de filmes mornos e já esquecidos, com destaque para Avozinha (2015), que conseguiu uma nomeação ao Globo de Ouro para Melhor Atriz em Comédia a Lily Tomlin. Três anos depois, Weitz está de volta ao grande ecrã, desta vez com a vencedora do Oscar Julianne Moore (O Meu Nome é Alice, 2014) e o nomeado Ken Watanabe (O Último Samurai, 2003) à frente das câmaras, em Bel Canto.

Ambientado num país fictício da América do Sul, a dramática história de amor segue uma famosa soprano (Moore) que viaja para dar um concerto privado numa festa para um magnata industrial japonês (Watanabe).

No auge da glamorosa reunião de diplomatas e políticos, a mansão é assaltada por uma guerrilha rebelde que exige a libertação dos seus camaradas presos. Ameaças são feitas e vidas perdidas, à medida que uma negociação tensa começa.

Enquanto estão presos na mansão, os reféns e seus captores, que falam línguas diferentes, são forçados a encontrar formas de comunicar, e a música desperta uma camaradagem comum e até o amor. Assim se vão formar laços e ultrapassar diferenças, enquanto descobrem a humanidade que partilham.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Bel Canto tem uma premissa interessante, personagens distintas – no papel, pelo menos -, e nomes conhecidos à frente e atrás da câmara. Nada do resultado final é assim tão bonito, no entanto.

Com 100 minutos de duração, mais parece ter 200, numa trama que se estende e estende, sem qualquer noção de consequência. O conflito inicia-se rápida e fugazmente, sem dar qualquer chance de empatia com as personagens; rapidamente descobrimos que vamos ter de passar o filme com todas elas, todas tão aborrecidas e desenxabidas que nem chegamos sequer a desejar que o foco recaísse somente numas quantas.

A realização é vazia, sem arte nem arrojo, e nunca é evidente qualquer apreço pelo storytelling; os eventos desfilam até ao final, numa linha narrativa quase predestinada, que não desperta atenção nem tão pouco cativa.

Moore e Watanabe são intérpretes de talento, mas a vaga sugestão do seu protagonismo não é suficiente para os evidenciar num mar de outras performances, todas elas reprimidas na condição da fita.

Watanabe acaba por ser limitado ao máximo, dado a sua personagem apenas falar japonês e necessitar constantemente de um intérprete, nunca tendo qualquer oportunidade de se expressar diretamente para a câmara. Já Moore faz o que pode, mas de destacar as cenas em que (não) canta ópera; a soprano Renée Fleming tem uma soberba voz, mas esta faz-se sempre ouvir em alguns dos piores playbacks vistos recentemente no grande ecrã.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Chegado o final, Bel Canto é somente mais uma adaptação literária insípida, quase atroz, sem qualquer rasgo de génio. Um produto atabalhoado e por polir, sem qualquer noção de passagem do tempo – real e fictício -, que já nem devia ter lugar nas salas de cinema.

Trocam-se ideias básicas sobre a natureza humana, certo e errado, justiça e injustiça, mas pouco fica, tudo da mesma espessura das folhas de um paperback de aeroporto, que até dificilmente quereria ter algo a ver com esta narrativa medíocre.

Um desastre.

 

2/10

Título original: Bel Canto
Realização: Paul Weitz
Argumento: Paul Weitz, Anthony Weintraub
Elenco: Julianne Moore, Ken Watanabe, Christopher Lambert, Sebastian Koch, Tenoch Huerta, Ryo Kase, María Mercedes Coroy
Género: Drama, Música, Romance
Duração: 102 minutos