Após o lançamento de cinco singles, os Muse deixam nas nossas mãos Simulation TheorySem descaramento, é-nos apresentada uma imagem menos séria e preocupada da banda que glorifica um universo virtual retirado diretamente dos anos 80. Conseguirão eles convencer-nos a prosseguir os mesmos interesses?

Muse, synths, e anos 80: um potencial subaproveitado

Com um sorriso quase que ingénuo, Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard vestem uma nova palete de cores. Fortemente inspirada, se não mesmo unicamente, pela estética de synthwave e retrofuturista, a banda parece querer esquecer as suas obras anteriores e o seu dramatismo, optando por deixar prevalecer a teatralidade.

A nível instrumental, as diferenças são óbvias. Como em The 2nd Law, estão de volta batidas com um cheirinho a EDM manhoso e o espírito mais vocacionado para a variedade. Prova disto é a dificuldade em identificar um só género específico ao longo do alinhamento de Simulation Theory. Na verdade, o mesmo se pode comentar em relação aos esforços criativos da banda. Sente-se uma certa preguiça na composição de diversas músicas que gravemente enfraquecem a experiência.

Apesar de tal ser claro, Simulation Theory berra constantemente a sua admiração pelos anos 80. Agora, isto não quer dizer que lhes consiga fazer justiça. Aliás, esse está longe de ser o caso: demonstra que os Muse meramente arranham a superfície do potencial da fusão entre o seu talento e todo o universo sónico que há a explorar vinda dessa década, revivida pelo género synthwave.

Para além de Algorithm, The Dark Side e Propaganda, nenhuma canção consegue ultrapassar a ideia de que a banda se tenha deixado influenciar e ficado por aí. Pura e simplesmente, nada soa genuíno. É como que tudo o que se pode ouvir fosse emprestado ou imitado.

Algorithm e The Dark Side destacam-se pois são exemplos da via que a esta direção dos Muse deveria ter percorrido mais vezes. Ambas são canções com melodias bastante agradáveis e que jogam os seus enfeites a seu favor. Já Propaganda sabe conjugar diversão com a presença em falsetto de Matt Bellamy.

Pressure quase replica o feito das duas músicas supracitadas, no entanto, excede a sua presença com a sua repetitiva mudança de riffs e vozes secundárias. Excessiva é, inclusive, Break It To Me, com um outro que não vai a lado nenhum interessante que pudesse resolver a complicada e não exatamente apelativa mistura de ideias até então apresentadas.

A desonra em Simulation Theory pertence sem qualquer sombra de dúvida a Something Human e Get Up and Fight. Something Human não passa de uma canção pop extremamente rudimentar e com uma instrumentação atabalhoada. No que diz respeito a Get Up and Fight, é incompreensível como é que um conjunto de músicos com o histórico que os Muse têm conscientemente concebe tamanho desastre. Absolutamente nada há a aproveitar e demasiado há a escusar. Ora, são os forçados samples femininos, ora é o refrão com um melodrama completamente ultrapassado pelo tempo, ora é a letra vergonhosamente simples e infantil.

Por vezes, o nome dos Imagine Dragons pode surgir na mente do ouvinte. Blockades e Thought Contagion são os hospedeiros desta reminiscência graças à presença de coros cheesy e inofensivos. Não são momentos descartáveis, mas também não agarram as atenções de quem não está já disposto a gostar do que vai ouvir.

Influências a mais, inspiração a menos

O desfecho de Simulation Theory conta com Dig Down e The Void, duas peças dramáticas que jogam pelo seguro. São de uma qualidade que não transcende o “okay”.

Enfim, com Simulation Theory, os Muse dão a entender que os seus fãs muito provavelmente levam atualmente a banda mais a sério do que é suposto. Não há censura que seja possível de estabelecer a vontades de fazer um álbum mais colorido e influenciado, todavia, isso não é desculpa para varrer inspiração e originalidade para o canto.

Simulation Theory falha em ser dono de si mesmo, representando uma fase de interesses da banda por um género mais fácil de apreciar do que propriamente dominar. Os Muse acabam por transparecer o seu lado mais foleiro demasiadas vezes. Nós talvez ignoremos isso e olhemos para este álbum como precisamente um trabalho apenas aceitável, com os seus altos e baixos, mas fica subentendido que esta banda consegue e devia fazer melhor.

Pontuação: 6/10