Bohemian Rhapsody é o mais recente filme sobre Freddy Mercury e os Queen. Como é natural, a obra cinematográfica aborda aspetos da vida da banda e do cantor. Para além de revelar a relação entre o grupo, expõe a vida pessoal de Freddie e ainda mostra os vários concertos da banda.

A verdade é que muitos desses aspetos são concentrados ou reconfigurados com o objetivo de dramatizar e “apressar” a história. Por isso, o Espalha-Factos reuniu 10 aspetos de Bohemian Rhapsody que não correspondem totalmente à realidade.

1 – Quando Freddie conhece Brian May e Roger Taylor

O encontro entre Freddie Mercury e os restantes membros dos Queen, na realidade, foi bem diferente do que mostra Bohemian Rhapsody.

Na versão cinematográfica, Freddie (Rami Malek) vê um concerto dos Smile, a banda de Brian (Gwilym Lee) e Roger (Ben Hardy), em 1970. No final, Freddie procura por eles nos bastidores e é nesse momento que descobre que o cantor e baixista, Tim Staffell, desistiu. No começo, Brian e Roger não sabem como reagir à personalidade tímida de Freddie, mas logo ficam impressionados quando ele começa a cantar.

Gwilym Lee e Ben Hardy como Brian May e Roger Taylor | Foto: Divulgação

De acordo com as biografias autorizadas Queen: As It Begin e 40 Years of Queen, Mercury já conhecia May, Taylor e Staffell quando os Smile existiam. Os quatro chegaram até a dividir um apartamento. Quanto à timidez, May recordou a sua primeira impressão de Freddie como extremamente confiante. “Ele acreditava que era um astro do rock”.

2 – John Deacon foi o baixista original da banda?

Freddie Mercury era conhecido  ser um perfeccionista. Em maio de 1970 ele queria criar a banda perfeita. Foi nessa época que a banda de Brian May e Roger Taylor perdeu o baixista, que saiu para se juntar aos Humpy Bong. Freddie juntou-se a May e Taylor e, entretanto, convenceu-os a mudar o nome da banda para Queen.

“Bohemian Rhaspody”, Queen | Foto: Divulgação

Eles, de facto, recrutaram John Deacon para tocar baixo, mas só em 1971. Ele não foi o baixista original da banda como nos mostra o filme. Deacon nem sequer tocou no primeiro concerto dos Queen, em 1970. Na verdade, ele foi o quarto baixista que tiveram.

3 – A relação entre Freddie e Mary Austin

No início do filme, quando Freddie estava à procura dos membros de Smile nos bastidores, encontrou Mary Austin (Lucy Boynton) e ficou logo assente uma química entre os dois.

Mas de acordo com a biografia da banda, Is This the Real Life? (2011), de Mark Blake, Mercury conheceu Austin em 1970, quando trabalhava como rececionista numa loja de roupa. Ele só se interessou por ela depois de já ser o vocalista da banda. Na realidade, Brian May teve um relacionamento com a Mary Austin. O guitarrista confessou que Freddie lhe perguntou se a relação entre ambos era séria e se podia convidá-la para sair. Depois de o fazer, Freddie e Mary foram amantes durante anos.

Lucy Boynton como Mary Austin | Foto: Divulgação

O que não está em causa é o relacionamento próximo deles, mesmo depois de terem terminado no final dos anos 70 e de Freddie ter relações com homens. Quando Mercury morreu em 1991, deixou a sua casa e 50% da sua propriedade a Mary.

4 – Jim Hutton, companheiro amoroso de Freddie

Em Bohemian Rhapsody, depois de Freddie fazer uma festa luxuosa e selvagem em casa, conhece Jim Hutton (Aaron McCusker), um dos empregados, e bêbado bate-lhe. Freddie pede desculpa pelo comportamento e depois disso têm uma conversa íntima e profunda. No filme, eles separam-se e Mercury encontra Hutton, anos depois, após procurá-lo na lista telefónica.

Aaron McCusker e Jim Hutton e Freddy Mercury | Foto: Divulgação

Uma verificação de factos de Bohemian Rhapsody revela que o parceiro de Freddie Mercury tinha sido um cabeleireiro na Irlanda antes de se mudar para Londres, onde conheceu o cantor numa boîte. Jim confessou numa entrevista ao The Times que rejeitou Mercury depois de ele lhe oferecer uma bebida. Um ano e meio depois, eles encontraram-se novamente numa discoteca. Mercury ofereceu-lhe, mais uma vez, uma bebida e, desta vez, Hutton aceitou. O relacionamento de sete anos com Mercury tinha começado em 1985 e continuaram juntos até a morte de Freddie, em 1991.

5 – O que aconteceu entre os Queen e o agente, John Reid

De acordo com Bohemian Rhapsody, Queen nomeou John Reid (Aiden Gillen) como agente no período em que começaram a trabalhar no A Night at the Opera.  Outro cliente dele, na altura, era Elton John. Mais tarde, no início dos anos 80, durante uma viagem de carro, Freddie expulsa Reid por insinuar que ele deveria deixar os Queen para seguir uma carreira solo.

Aidan Gillen como John Reid | Foto: Divulgação

Na vida real, Reid separou-se dos Queen em 1977, e o rompimento foi bastante amigável. Jim Beach, o advogado da banda na altura, assumiu o comando dos Queen e permaneceu nesse cargo até hoje. Roger Taylor disse, no documentário Queen of Days, Days of Our Lives, que tiveram uma boa relação de trabalho com John: “Ele era muito hostil e mal-humorado, mas nós também éramos, então não tivemos medo dele.”

6 – Quem é Ray Foster, o executivo da EMI Records que se recusou a lançar “Bohemian Rhapsody” ?

Mike Myers surge no filme como Ray Foster, um executivo da EMI Records, gravadora britânica dos Queen. Durante uma reunião com a banda, Foster recusa-se a lançar ‘Bohemian Rhapsody’ como single, uma vez que as estações de rádio só tocam músicas de três minutos. Queen, e especialmente Freddie, não recuam e saem do escritório de Foster, expondo, por eles próprios, o single de êxito.

Mike Myers como Ray Foster | Foto: Divulgação

Na realidade, a personagem é fictícia. Não existe qualquer evidência de um Ray Foster em artigos, livros ou documentários sobre os Queen. Há rumores de que a personagem pode ser baseada no chefe da EMI, Roy Featherstone, mas ao contrário de Foster no filme, Featherstone era um grande fã de Queen. No entanto, ele queixou-se de que a música ‘Bohemian Rhapsody’ era muito longa para ser lançada como single.

7 – Paul Prenter, o assistente pessoal de Mercury

Em Bohemian Rhapsody, o principal vilão é Paul Prenter (Allen Leech). Ele aparece como assistente de John Reid e mais tarde torna-se assistente pessoal de Freddie. Depois de Prenter ter escondido o evento Live Aid do cantor, Freddie despede-o. Posteriormente, Paul relatou à imprensa os aspetos mais comprometedores da vida pessoal de Freddie Mercury.

Allen Leech como Paul Prenter | Foto: Divulgação

Na vida real, Prenter foi despedido aparentemente por outro motivo. O assistente de Mercury deu uma festa na sua casa, que foi completamente destruída. Brian e Roger disseram em entrevistas que o impacto de Prenter em Freddie era prejudicial. O guitarrista da banda escreveu no seu livro, Queen in 3-D, que Paul “foi responsável por levar o Freddie para um caminho diferente”. Paul Prenter morreu, também em 1991, com um problema relacionado com HIV.

8 – ‘We Wiil Rock You

Em Bohemian Rhapsody, Brian está no estúdio a ensinar aos outros membros da banda uma música que envolve palmas e batidas de pés. O objetivo era dar algo ao público para fazer em uníssono nos concertos dos Queen. Essa música tornou-se o hino imortal ‘We Will Rock You’.

É verdade que May quis escrever um hino para a plateia depois de ver o público cantar no final de um concerto no Bingley Hall. O guitarrista relembra em Days of Our Lives que depois desse concerto foi dormir a pensar “O que é que uma plateia pode fazer?”. E no dia seguinte surgiu ‘We Will Rock You’.

Cena de ‘We will rock you’ | Foto: Divulgação

Contudo, o que não corresponde à realidade é a aparência de Freddie Mercury nessa cena. No filme, Freddie é visto com cabelo curto e um bigode grosso, o look dele associado aos anos 80. A gravação real da música aconteceu em 1977, quando Mercury não tinha bigode e ainda tinha cabelo comprido.

9 – Os Queen separaram-se mesmo?

Os quatro membros de Queen tinham personalidades e ideias musicais muito diferentes. O filme capta muito bem as discussões entre eles sobre álbuns e singles. No início dos anos 80, Freddie anuncia ao resto da banda que quer seguir uma carreira a solo, o que dá a entender que foi ele que acabou com os Queen.

Malek, Lee, Hardy e Mazello como Queen | Foto: Divulgação

Porém, de acordo com artigos e documentários, foi acordado pelos quatro membros que a banda precisava de uma pausa, em 1982. Apesar de se terem separado, nunca perderam o contacto. Para além disso, Mercury não foi o único a gravar o seu primeiro álbum a solo. Taylor estava a preparar o seu álbum de 1984, Strange Frontier e May já estava a gravar o seu singleStar Fleet. Em 1983, os Queen reuniram-se para gravar The Works.

10 – Diagnóstico de HIV da Mercury

No filme sobre Freddy Mercury, um dos momentos mais comoventes foi quando este descobre que é HIV positivo após uma consulta médica. Isto acontece antes da exibição dos Queen no Live Aid, em 1985. No final de um ensaio para o grande evento, Freddie revela aos seus companheiros a sua condição.

Rami Malek como Freddie Mercury | Foto: Divulgação

No entanto, segundo vários relatos, o diagnóstico de HIV de Mercury aconteceu depois do Live Aid e os outros membros de Queen não souberam da doença até cerca de 1988. Apesar de ser perseguido pela imprensa sobre a sua saúde, Mercury não revelou publicamente que tinha SIDA até 23 de novembro de 1991, um dia antes da sua morte.