Dias chuvosos podem tornar o sofá mais apetecível, mas a presença dos Unknown Mortal Orchestra em Lisboa contrariou-o. Depois de uma visita de rajada ao NOS Primavera Sound, em junho, os neozelandeses rapidamente quiseram rever a cara dos seus fãs portugueses. Apesar de terem “orchestra” no nome, não se entendeu a escolha da Aula Magna para acolher a banda. No entanto, não desiludiram e o concerto até se tornou menos disperso do que em ambiente festivaleiro.

Ainda antes da grande banda subir ao palco, Iguana Garcia aqueceu a plateia para o que viria a ser uma noite de alegria contagiante. Entre sintetizadores, loops e guitarras abafadas, o camaleão incendiou o ambiente que os Unknown Mortal Orchestra traziam.

Tudo começou com a velhinha From The Sun. A calma, com os músicos ainda bastante reservados, simplesmente adivinhou a tempestade que se seguiria com Ruban Nielson, o vocalista, a saltar para a plateia. De instrumento em punho e um público pronto a saltar das cadeiras, deu voltas à sala enquanto brincava aos solos de guitarra. Seguiu-se a introvertida Ffunny Ffriends a aquecer uma noite que se preparava impressionante para os céticos da qualidade ao vivo dos UMO.

Na linha de antiguidades, surge a divertida e lustrosa Swim and Sleep (Like a Shark), que os mais desinibidos entoavam já a querer corromper o espírito severo do espaço do espetáculo. Voltando-se de vez para os grandes êxitos, Ruban e companhia atiram-se de cabeça para Necessary Evil e assim se inicia uma noite psicadélica sem fim. Os primeiros acordes de Sex & Food, disco editado este ano, induzem-nos num sonho translúcido com Ministry of Alienation. A sonoridade destes meninos está cada vez mais demarcada.

O caleidoscópio sonoro dos Unknown Mortal Orchestra está cada vez mais presente

Bom filho regressa a casa e, tal como esperado, nunca iriam deixar passar So Good at Being in Trouble, a música que os lançou num mundo nada preparado para a sua singularidade. O caleidoscópio sonoro regressa com Major League Chemicals e, partindo daqui, os hits foram lançados para todos perdermos as estribeiras. A transição para American Guilt deu-se sem ninguém dar conta: os feixes de luz aliados à energia contagiante dos Unknown Mortal Orchestra faziam-nos ser ouvidos do outro lado do mundo. 

Um dos momentos altos ocorreu quando o frontman decidiu deixar o seu lugar de destaque no palco para se sentar na plateia. Comum mortal, postura serena e microfone na mão: tudo a postos para cantar Not In Love We’re Just High. Nada o deteve e não havia formalidades que o impedissem de se colocar no lugar de alguém que tem o prazer de testemunhar os UMO ao vivo. Saltou cadeiras, cumprimentou pessoas pelo caminho e revolveu as almas dos presentes. Entretanto era tempo de Multi-Love e todos (finalmente!) se levantaram para fazer a festa.

O tema orelhudo testou as capacidades vocais de toda a gente e o freestyle seguido pela banda continuava a dar cartas. Não havia ali regras, não havia ninguém a dizer como se tocar: o público e os Unknown Mortal Orchestra eram um só, tentando quebrar a barreira das cadeiras. Saíram a fim de recuperar energias e, a partir daí, tudo era festivo. Hunnybee, o ponto alto da noite, irrompeu do silêncio. A nostalgia da canção começava a deixar saudades da banda que ainda estava em palco e tudo culminou com Can’t Keep Checking My Phone. Deixamos a música eletrizante percorrer o nosso corpo e as luzes de todas as cores marcar-nos: tudo estava numa comunhão perfeita.

Os neozelandeses deixam-nos assim em mais uma visita a este país à beira-mar plantado. Pedimos apenas que tragam mais música e que a festa seja noutro lado. Apesar de tudo, os Unknown Mortal Orchestra mostraram que sabem reproduzir a magia que fazem em estúdio e tudo à nossa frente.