Quem conta um conto, acrescenta um ponto. Já todos ouvimos isto uma vez na vida e Thom Yorke levou-o à letra. Luca Guadagnino implorou-lhe que tomasse conta da música de Suspiria, o seu novo filme, e justiça foi-lhe feita. Na verdade, o músico nunca trabalhou no formato de soundtrack, mas a estreia confere-lhe já o estatuto de mestre.

O britânico lançou-se à descoberta, abraçou o desafio e soube explorar todas as lacunas deixadas pela imagem. O remake do clássico de Dario Argento (com a composição dos Goblin) tem em Yorke um ombro amigo. Compreendeu a estética cinematográfica e enfeitiçou-a com o seu dom especial para conceder melancolia à música. Não é que seja intrinsecamente nostálgico, o som do filme, no entanto o músico nunca o esconde. Há falsettos, pianos morosos e sintetizadores desconcertantes. Frenesins de eletrónica, violinos cortantes e até música para embalar. Enfim, ouvindo Suspiria (Music for the Luca Guadagnino Film) deixa pouco para a imaginação de quem não viu o filme.

Arrepiante, transcendente e desigual: uma banda sonora para quem gosta de ser desconcertado

Satisfatoriamente ligado à sua discografia solo e curiosamente distinta da mesma, Thom Yorke convida os seis sentidos para a audição do disco. Suspirium é, sem dúvida, o ponto mais alto do soundtrack da perspetiva única do álbum. Ainda assim, em contexto fílmico ainda há muito que se lhe diga pela existência de temas como The Room of Compartments ou Belongings Thrown in the River.

O mistério flutuante que se perpetua de música para música não cede a pressões como no caso de Unmade, que inspira pela simplicidade e beleza única. Não há quem o explique, mas todos o podem sentir. The Jumps aprofunda Unmade de uma forma ainda mais imersiva quase transcendentemente. Has Ended poderia facilmente estar inserida em King of Limbs, dos Radiohead, que Yorke não deixa de lado nunca.

The Hooks agarra-nos ao sistema de som que traz Yorke até nós. O horror propaga-se pela banda sonora adentro e linhas barrocas vão aparecendo timidamente, tal como se entrássemos numa casa assombrada. É aqui que Thom Yorke pontua na captação essencial da ideia de Guadagnino, ao longo de umas meras 25 músicas.

Open Again conduz a voz do músico novamente por atmosferas misteriosas e guitarras repetidas. Volk, previamente lançada, sugere com precisão o drama inquietante que Suspiria oferece mesmo sem ver o filme. Yorke escreve linhas desassossegadas, como que em carne viva, ao longo do soundtrack.

Repito: por muito que custe acreditar, esta é a estreia de Thom Yorke nas lides cinematográficas

Suspirium Finale começa a fechar o disco numa versão mais obscura de Suspirium. Eis que chegamos a A Choir of One: 14 minutos de coros difundidos num ambiente perturbador. A audição desta banda sonora exige alguma concentração até nos apropriarmos dela. Tal como em Tomorrow’s Modern Boxes, último disco a solo do músico, a influência “glitchy” sobressai nas últimas faixas, onde o vemos no seu habitat natural.

The Epilogue fecha Suspiria em jeito de confluência de todos os sons que compuseram o disco. Se sobreviveram íntegros a 1h20 disto, arrisco afirmar que finalmente descodificaram o enigma que é a mente de Thom Yorke. Saindo da zona de conforto sem nos desabituar ao seu estilo de fazer música, ele manteve-nos lá do início ao fim. Aprendeu, talvez, com Jonny Greenwood a manter no ar a narrativa musical de um filme para o qual estão a compor.

Um disco extremamente visual, objectivo, evocativo. Uma estreia absolutamente bem conseguida pelo génio do inglês que teima em surpreender e elevar expectativas sempre que anuncia um novo trabalho. Agita-nos, atira-nos ao chão, eleva-nos e funde-nos com a sua música: tudo isto mesmo ouvindo-o de olhos fechados. Isto de fazer coisas tão boas começa a ser aborrecido, Sr. Yorke.