Com uma carreira extensa, de mais de quatro décadas, aos 74 anos, Glenn Close, uma das mais aclamadas atrizes americanas do seu tempo, nunca venceu um Oscar. Conta seis nomeações até à data, e talvez as suas mais pesadas derrotas tenham ocorrido em 1988 – com o papel que a imortalizou em Atração Fatal, perdendo para Cher em O Feitiço da Lua – e em 2012 – o ano em que tudo poderia ter dado certo com Albert Nobbs, mas em que Meryl Streep, numa terceira vitória, roubou o galardão com A Dama de Ferro.

Close está então de volta à corrida com A Mulher, filme antestreado em 2017 no Festival de Toronto, que desde este agosto tem vindo a estrear internacionalmente, e que lhe pode vir a conseguir uma sétima nomeação.

Joan Castleman (Close), há quarenta anos uma esposa devota por completo, sacrificou o seu talento, sonhos, e ambições para apoiar o marido, Joe (Jonathan Pryce), e a sua carreira literária em constante ascensão. Ignorando-o condescendentemente as infidelidades e desvios pela sua arte, o casamento de ambos assenta num compromisso desonesto que dura há décadas a mais.

Prestes a atingir o limite, Joan vai finalmente confrontar tudo o que sacrificou pela carreira de Joe, na véspera de este receber o Prémio Nobel da Literatura, numa viagem de autodescoberta e libertação.

a mulher

Fonte: Divulgação/Cinemundo

Baseado no livro homónimo de Meg Wolitzer, A Mulher é um drama ousado, cheio de momentos de impacto, num enredo intrigante até à sua grande revelação. Pena que Björn Runge, o realizador, não consiga tirar total partido de tal. Para tamanha história, A Mulher tantas vezes não passa de um básico telefilme, cumprindo o seu dever e pouco mais.

Há também escolhas no mínimo bizarras, como o uso de flashbacks desnecessários e distrativos para contar a história de Joe e Joan – esta interpretada em juventude pela filha de Close, Annie Starke. Escolhas de elenco, como Max Irons enquanto filho dos Castleman, ou Christian Slater no papel de um biógrafo perseguidor, saem também ao lado, e não são raros os momentos em que pouco parece natural, como o aproximar de Joe e da sua fotógrafa pessoal.

Não obstante, a obra de Runge não deixa de ser efetiva no seu sentido mais básico. É no fundo, a narrativa sobre uma mulher ao encontro de si mesma, depois de anos relegada para as sombras, e a mensagem, mais que importante, faz-se impor a cada passo. Estamos indubitavelmente perante um guião cujo espírito transcende a própria realização, o que ameniza muitas das duvidosas escolhas. Isso e os protagonistas.

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Fonte: Divulgação/Cinemundo

Pryce está excelente, também ele um eterno subvalorizado. Mas Close, Close não passa cartão a ninguém.

Sublime, em graciosidade e subtileza, cada sorriso tímido e cada esgar ressentido contam. Uma performance que nem é a melhor da sua carreira, mas que certamente a coroa, qual grito de presença, tal como o da sua personagem, e também aquele que queremos ainda ver um dia no palco da Academia.

Se será já em 2019? Depois de uma tímida estreia no verão americano, e perante a oposição de novas candidatas em mais uma época de prémios em que as memórias são curtas, só o tempo pode dar uma nomeação, e quem sabe uma vitória. Uma coisa é certa: não importa o quão mediano A Mulher é como filme. Close é imponente e poderosa como em todos os seus grandes papéis nos habituou.

Só por ela, já todo o filme vale.

 

6/10

Título original: The Wife
Realização: Björn Runge
Argumento: Jane Anderson
Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Annie Starke, Harry Lloyd, Karin Franz Körlof, Elizabeth McGovern, Alix Wilton Regan
Género: Drama
Duração: 100 minutos