O prémio alternativo ao Nobel da Literatura foi atribuído, este ano, pela Nova Academia a Maryse Condé, autora francófona de Guadalupe de 81 anos. O Espalha-Factos dá-te a conhecer tudo sobre ela.

A cerimónia de atribuição do prémio pela Nova Academia aconteceu na Biblioteca de Estocolmo no dia 12 de outubro, após um processo de votação deliberadamente mais transparente comparativamente ao da Academia Sueca na seleção do Nobel. Este foi realizado em três etapas, com as primeiras nomeações a serem feitas por bibliotecários suecos, seguida de uma votação do público online que os reduziu a quatro finalistas, dois homens e duas mulheres de cidadanias, etnias, línguas e estilos diferentes. Por fim, de entre os finalistas, um júri de especialistas escolheu o vencedor, dando um caráter ao prémio propositadamente mais contemporâneo e inclusivo.

Os outros finalistas eram o britânico Neil Gaiman e a vietnamita-canadiana Kim Thuy. Inicialmente, Haruki Murakami também fazia parte do leque de finalistas, mas desistiu do prémio afirmando que pretendia “focar-se na sua escrita, longe da atenção dos media”, segundo a página da Nova Academia.

LÊ TAMBÉM: PRÉMIO ALTERNATIVO AO NOBEL DA LITERATURA: NEIL GAIMAN E MURAKAMI ESTÃO ENTRE OS FINALISTAS

Porquê Maryse Condé?

A Nova Academia justifica a atribuição deste prémio àquela que considera “a grande senhora da literatura francófona caribenha” e possuidora de uma voz única e mágica de narrar histórias. Sempre com uma importante e relevante exploração das temáticas do poder, género e raça numa perspetiva pós-colonial, onde também há espaço para a magia, o sonho, o terror e o amor, e onde ficção e realidade se cruzam para descrever o caos pós-colonial, mas também o calor e a beleza do mundo de onde a autora provém.

Maryse Condé agradeceu o prémio, que vê como uma forma de mostrar ao mundo a voz do povo guadalupino, até aqui ignorada, mas que ela vê como uma maravilhosa cultura com influências de todo o mundo, tanto europeias como africanas, indianas e até chinesas.

LÊ TAMBÉM: NOBEL DA LITERATURA: CONHECE ESTES DEZ GÉNIOS NÃO CONSAGRADOS

Quem é Maryse Condé?

Maryse Condé

Foto: página oficial da Columbia University

Maryse Condé nasceu em 1937, em Pointe-à- Pitre, Guadalupe, território francês nas Caraíbas. É a mais nova de oito irmãos. Inspirada pela obra O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, quando criança, sempre sonhou em ser escritora (tendo mais tarde escrito um romance que reimagina esta história nas Caraíbas, Windward Heights).

Aos dezasseis anos muda-se para Paris para estudar na prestigiada Universidade Sorbonne, de onde obtém um doutoramento em Literatura Comparada, em 1975, estudando a representação negra na literatura caribenha. Condé trabalhou numa série de países na África Ocidental durante 12 anos, nomeadamente Guiné, Gana e Senegal, onde ensinou francês. Retornou à França em 1973 para ensinar Literatura Francófona em universidades parisienses.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Apesar da vontade para a escrita, Condé só se estreia na escrita quase aos 40 anos com o seu romance Heremakhonon (1976), inspirado pelas suas experiências na África Ocidental. No entanto, foi somente com a publicação do seu terceiro romance, em 1984, que se estabeleceu no panorama literário caribenho. Desde aí, publicou regularmente uma obra que se estende a cerca de 20 romances, simultaneamente dedicando-se à carreira académica.

Após se mudar para os Estados Unidos com o marido, o tradutor Richard Philcox, passou pelas universidades americanas de Berkeley, Virginia, Maryland, e Harvard, até chegar à Universidade de Columbia, em Nova Iorque, em 1995, onde lecionou literatura francófona caribenha e dirigiu o Centro de Estudos Franceses e Francófonos, entre 1997 e 2002. Reformou-se em 2005 e vive agora na Provença francesa com o marido.

A sua vasta obra, que inclui Ségou, Traversée de la mangrove, Desirada, En attendant la montée des eaux, La vie sans fards, e Célanire, já foi traduzida para inglês, alemão, holandês, taliano, espanhol, português e japonês.

A Nova Academia

Maryse Condé

A Nova Academia foi fundada com o intuito de atribuir um prémio literário em 2018, depois do anúncio de que a Academia Sueca não iria conferir um Nobel da Literatura este ano, devido à “reduzida confiança do público”,após o escândalo de abuso sexual que sentenciou Jean-Claude Arnault a dois anos de prisão por violação e que manchou a reputação da Academia Sueca.

O prémio será entregue a Maryse Condé, com a presença da autora, numa cerimónia a 9 de dezembro. Após esta cerimónia, a Nova Academia planeia ser dissolvida, tendo em conta a previsão de que a Academia Sueca volte a atribuir um Nobel da Literatura em 2019, possivelmente a dois autores para compensar a inexistência, este ano, desta que é considerada a maior honra para um escritor a nível mundial.

Mais informações sobre a autora e a Nova Academia podem ser encontradas na página oficial da Nova Academia, e no documentário Maryse Condé: Une voix singulière (Maryse Condé: Uma voz singular, em português), sobre a autora, que está disponível no Youtube.

LÊ TAMBÉM: TODAS AS FÁBULAS DE LUIS SEPÚLVEDA REUNIDAS NUM SÓ VOLUME