A exploração espacial é um tema que já foi muitas vezes retratado no entretenimento. Mas o potencial da descoberta talvez nos impeça muitas vezes de olhar para o custo humano de um empreendimento destes. Claro que o espaço é sempre assumido como sendo incrivelmente perigoso, mas o sucesso da descoberta acaba quase sempre por ofuscar esse perigo.

O Primeiro Homem na Lua pode ser baseado numa história de exploração espacial bem-sucedida, mas é um filme que está mais interessado em olhar para os sacrifícios que levaram a esse sucesso do que no sucesso em si.

Ryan Gosling volta a reunir-se com o realizador Damien Chazelle, desta vez numa obra biográfica centrada em Neil Armstrong. O desfecho da história é algo que já se sabe, e por isso, o filme está mais interessado em experienciar o treino pelo qual o astronauta passa para chegar à lua.

A narrativa navega ainda pela perspetiva da sua mulher, que se vê constantemente afastada por um Neil Armstrong que permanece emocionalmente distante. A experiência de Primeiro Homem é uma constante de tristeza e preocupação. Seja no espaço ou na terra. Essa tensão que permanece no ar devido ao perigo que Armstrong enfrenta faz com que possamos sentir que, esta sim, é uma história pessoal. Mas por outro lado, o facto de o filme não nos deixar sair temporariamente dessa tensão, também faz com que haja um permanente distanciamento de Armstrong.

Neil Armstrong é conhecido por ser um homem estóico. Ao contrário de outros astronautas, a sua vida permaneceu maioritariamente privada. Devido a isso, é normal que Ryan Gosling o interprete de uma forma estóica e emocionalmente desconectada.

Mas tal como o som constantemente opressivo, essa dimensão acaba por enfraquecer algum do impacto emocional. Armstrong pode ser conhecido pelo seu estoicismo em comparação com outros astronautas, mas em qualquer entrevista vê-se que emotiva mais do que Ryan Gosling em todo o filme.

O problema não vem de limitações do ator; Gosling já demonstrou balançar bem o estoicismo e as emoções. O que aqui acontece é que o argumento e a realização partem do pressuposto que uma figura estóica está permanentemente estóica, até em ocasiões mais íntimas. Um mero sorriso parece ser demasiado para o Neil Armstrong de Ryan Gosling.

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A Intimidade de Armstrong

A forma como o filme não consegue quebrar a barreira da personalidade reservada de Armstrong faz com que haja sempre uma barreira emocional que não nos permite entrar dentro da sua relação familiar. O filme tenta dar-lhe alguns momentos em que passa tempo com os filhos, mas estes mesmos momentos nunca são particularmente desenvolvidos.

São ternos, mas superficiais, e nada mais do que isso. Não há um único momento que demonstre interações únicas entre seres humanos como havia em filmes como Tubarão (1975). Todas as sequências e lembranças de família podiam ter sido facilmente fabricadas por um Don Draper, pois estas têm muito pouco de pessoal e demasiado de universal.

Não é que a interpretação tenha errado completamente por isto. Afinal, Gosling é um ator que consegue facilmente comunicar com um olhar. A dor de Armstrong ao ver tantas pessoas que lhe eram chegadas morrer à sua volta é transmitida de forma direta pelo ator. Não há um exagero nas suas ações nem qualquer espécie de melodrama. Ryan Gosling consegue que sintamos a sua dor interior. Essa acaba por ser a maior especialidade de todo o filme em si: a de transmitir dor.

Claire Foy transmite a mesma perícia de nos fazer sentir o custo humano que cerca as personagens. Interpretando Janet Shearon, a mulher de Armstrong, Foy está constantemente tensa. Em vez de experienciar os treinos para a exploração espacial, esta personagem mostra-nos o estado da vida pessoal destes astronautas.

Ela confraterniza com outras mulheres de astronautas que estão no programa Apollo e tenta educar os seus filhos sem o apoio do pai deles. A atriz pode não estar a interpretar uma figura tão mítica como a de Neil Armstrong mas consegue demonstrar a força de personalidade que esta pessoa certamente precisou de ter.

A Direção de Fotografia de Linus Sandgren transporta-nos para a década de 1960 de uma forma incrivelmente eficaz. A propositada utilização de grão pode, no filme errado, criar uma sensação de “kitsch”. Em Primeiro Homem, esta escolha é apropriada. Há ainda o recorrente uso de câmara à mão que faz com que a imagem trema, seja quando Armstrong está a pilotar uma nave, ou quando se encontra em casa com a família. Devido à tensão constante que se sente no ar, esta imagem instável acaba por ser sempre apropriada.

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Há pouco uso de música para além de variações do tema principal de Justin Hurwitz. Na maior parte do tempo escutamos apenas aquilo que o protagonista está a ouvir no momento, normalmente é o tremer do metal, captado pelos impecáveis efeitos sonoros. Juntando a isso os efeitos especiais realistas e a forma como o filme se deixa limitar pela perspetiva de Neil Armstrong e Janet Shearon, esta obra consegue ser aquilo que Damien Chazelle pretendia: uma experiência.

Só é pena Chazelle esquecer que momentos de tensão também podem ter impacto quando há outros mais calmos a ocorrer pelo meio. Esta abordagem funciona melhor em obras como Dunkirk e Gravidade devido a essas se localizarem num período mais curto de tempo, mas Primeiro Homem decorre ao longo de quase uma década e realmente tenta passar algum tempo parado pela vida na casa de Armstrong.

Mas os poucos problemas de O Primeiro Homem na Lua surgem do facto de um dos seus objetivos ter sido demasiado bem-sucedido. Porque este é um filme incrivelmente cinemático que mantém a sua tensão num crescendo constante, mesmo que isso enfraqueça o impacto emocional que por vezes também tenta alcançar.

8/10

Título original: The First Man
Realização: Damien Chazelle
Argumento: Josh Singer
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy
Género: Biografia, Drama
Duração: 141 minutos