Concedido anualmente desde 1901, o Prémio Nobel da Literatura tem levantado, ao longo do tempo, controvérsias acerca das decisões da Academia Sueca. Ora por questões de ordem política, ora porque nem sempre aqueles que reconhecemos hoje como grandes escritores assim foram celebrados na época em que viveram. Fica, então, com uma lista cuidadosamente selecionada de 10 gigantes da literatura que nunca foram contemplados com o prémio.

Jorge Luís Borges

Aos sete anos de idade, revela ao seu pai que seria escritor. Aos nove, escreve o seu primeiro conto A víscera fatal, inspirado num episódio de Dom Quixote. E por coincidência ou pré destinação, tornou-se não apenas escritor, mas um dos mais aclamados da América Latina e apontado como renovador da linguagem ficcional.

No entanto, apontam-se motivos de ordem política e ideológica para nunca ter sido galardoado com o prémio sueco. Basta folhear algumas páginas do Dicionário de Borgearias que reúne comentários e opiniões do escritor sobre os mais diversos temas, para constatar a polémica das mesmas, nomeadamente declarações de apoio a ditadores na América Latina.

Nobel

J.L. Borges

Liev Tolstói

Reconhecido como um dos maiores escritores de todos os tempos, o impacto da sua obra foi tal que deu origem a uma corrente filosófica e religiosa baseada nos seus ideias: o tolstóismo.

Tolstói perdeu o prémio para o poeta francês Sully Prudhomme, decorria apenas o primeiro ano da sua atribuição. Na altura, a decisão foi contestada e houve até um grupo de artistas suecos que escreveu uma carta ao escritor, lamentando a decisão da Academia.

Nobel

L. Tólstoi

Marcel Proust

Não existe nenhum país tão galardoado com o prémio como a França e, ainda assim, Marcel Proust não teve esse reconhecimento. Nascido numa família rica, viveu sempre uma vida desafogada. Nos seus últimos anos de vida, entregou-se de forma desmedida à escrita e concluiu os sete volumes em que está dividido o seu Magnum opus: Em Busca do Tempo Perdido. Contudo, estes só foram publicados na totalidade após a morte de Proust, facto apontado para não ter sido escolhido pela Academia Sueca.

Nobel

M. Proust

Franz Kafka

É considerado pela crítica como um dos mais influentes escritores do século XX, a ponto de ter associado à sua obra o termo “kafkiano”, utilizado para caracterizar situações surreais, complicadas e labirínticas. No entanto, Franz nunca foi agraciado pelo prémio, talvez por motivos semelhantes aos de Pessoa: publicou poucas obras em vida, sendo que duas das consideradas mais relevantes (O Processo e O Castelo) só foram divulgadas após a sua morte.

Nobel

F. Kafka

James Joyce

Poeta e romancista irlandês, impactou a literatura do século XX através de obras como Gente de Dublin, Retrato do Artista Quando Jovem ou Ulisses (obra considerada por muitos como o livro mais complexo alguma vez escrito), na qual reconstrói a Odisseia de Homero à luz do modernismo.

Contudo, não são conhecidos fatores concretos para o não reconhecimento pela Academia, nem é possível aferir para que outro grande autor terá perdido o prémio, dado que não constou sequer na lista de nomeados.

Nobel

J. Joyce

Fernando Pessoa

Nome incontornável do modernismo do século XX e da literatura e cultura portuguesas, Fernando Pessoa não foi, porém, admirado e lido com o mesmo entusiasmo na época em que viveu. Poeta e tradutor, mas também publicitário e astrólogo. Alberto, Ricardo, mas também Álvaro e engenheiro. Viveu mil vidas, vestiu igual número de peles, existindo sempre através da poesia.

Podemos apontar a extravagância das suas ideias face ao paradigma literário anterior como um motivo para a pouca admiração da sua escrita na época, e, como consequência, da não atribuição do prémio. Mas sabe-se também que publicou em vida apenas uma obra, Mensagem, fator que poderá ter contribuído para tal.

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F. Pessoa por Almada Negreiros

Virginia Woolf

“Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever ficção”, é uma das suas mais famosas citações. Considerada uma figura de destaque no modernismo britânico, construiu uma narrativa de sensibilidade rara face à análise do psicológico das suas personagens. Assim como muitos outros nomes brilhantes, não foi também a sua obra agraciada com o prémio. De facto, a sua escrita só ganhou mais força graças a correntes feministas da crítica literária em 1970, cerca de trinta anos após a sua morte.

Nobel

‘Diários’, com o rosto da própria na capa

Carlos Drummond de Andrade

Na linha de frente daquela que foi a segunda geração do modernismo brasileiro, Carlos Drummond de Andrade é largamente nomeado como o poeta brasileiro mais influente do século XX. A sua obra possui a particularidade de se dividir em função da dialética “eu vs mundo”, desdobrando-se em três diferentes fases da sua escrita: o eu maior que o mundo, o eu menor que o mundo, e o eu igual ao mundo.

Apesar do seu tradutor sueco ter enviado material para que Drummond fosse indicado ao prémio, o próprio referia publicamente que quem o merecia era Jorge Amado.

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Drummond de Andrade

Jorge Amado

É um dos escritores brasileiros mais aclamados de todos os tempos. Traduzido para quase 50 línguas, foi autor de clássicos como Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Sabe-se hoje que, em 1967, o seu nome constava na lista de nomeados, a par com o seu contemporâneo Drummond de Andrade. No entanto, a Academia Sueca acabou por eleger o guatemalteco Miguel Angél Astúrias, “pela sua vivida conquista literária profundamente enraizadas nas características nacionais e tradições dos povos indígenas da América Latina”.

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J. Amado

Vlamidir Nabokov

“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma”. Assim principia a obra mais marcante e controversa do escritor russo-americano, Lolita. E tão polémico como a narrativa de uma paixão entre um professor universitário de meia idade e Dolores, de doze anos, (ou, para si, Lolita) são também as suas opiniões políticas e até acerca de literatura feminina.

Não podemos saber com certeza se estas questões influenciaram a Academia Sueca, mas sabe-se atualmente, dado o término do sigilo de 50 anos, que Nabokov e Borges estiveram de facto indicados ao prémio em 1965. Contudo, perderam para Mikhail Sholokhov, autor russo, dada a “força artística e integridade” do seu romance Thiky Don.

Nobel

Nabokov, apaixonado por borboletas e leptidopterista

De recordar que, na passada sexta-feira, foi divulgada, durante uma cerimónia em Estocolmo, a vencedora do prémio alternativo ao Nobel da Literatura, a guadalupense Maryse Condé. Este galardão só será atribuído este ano pela Nova Academia, um órgão que se extinguirá em dezembro, após a sua entrega no dia 9 desse mesmo mês. O prémio foi criado, este ano, em protesto contra o cancelamento da atribuição do Nobel da Literatura, na sequência de um escândalo de assédio sexual.

Em agosto, foi anunciada a lista com os quatro finalistas do prémio, que incluíam também a vietnamita Kim Thúy, o britânico Neil Gaiman e o japonês Haruki Murakami (que acabou por se retirar da corrida para se concentrar na escrita). Os candidatos ao prémio foram votados online pelo público, a partir de uma lista inicial de 47 nomeados pelos bibliotecários suecos.

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