Lê-se por aí que dia 13 de outubro é o National Album Day no Reino Unido. Como a maior parte destes dias, é arbitrário, ou seja, uma invenção sem grande filosofia. Mas reparem que o título disto não é, ao contrário de mil e um artigos carregados de números de streaming e vendas físicas, ‘Estará o álbum a morrer?’ Hoje é o dia do álbum, não o funeral pela sua morte fictícia.

Aí está a importância de uma data, mesmo que fabricada. Celebra-se o álbum (de estúdio, ao vivo, colaborativo, mini, etc.), o peso-pesado dos formatos de consumo musical. E é bom que tenhamos um pequeno lembrete salutar disto e que possamos honrar a sua longevidade, em vez de declará-lo defunto mais uma insuportável vez. Não, não vai morrer. Não, a indústria não desistiu de o usar para balizar os momentos da carreira de um artista, apesar de se ter tornado menos rentável.

Esta parvoíce britânica não inspira grandes iniciativas (fora o esperto convite à população para rodar o seu álbum favorito às 3:33 PM); faz coisas melhores. Conduz as pessoas nas redes sociais a partilharem os discos que mais (as) tocaram ao longo de uma vida, motivará umas vendas extra desses e doutros. E talvez faça com que umas dezenas de novatos conheçam o que pode ser isto que se informalmente convenciona (e hoje se questiona) como faixas reunidas numa sequência de duração considerável.

Também é importante pensar no porquê de falarmos em filmes, séries e livros como expoentes da arte e alhear os álbuns da conversa. (Podia estar a falar da música de grosso modo, sem ser aquele diálogo nebuloso que costuma passar pelo ‘género favorito’.) Assim como é repensar a sua audição, tantas vezes na sombra de trabalho ou leitura. E, como o estou a fazer neste momento, não o critico; é natural e ajuda-nos. Contudo, quantas vezes ouvimos um disco desligados do mundo, sem o interromper (indefinidamente)? Invertendo a questão, é interessante comparar: quantas vezes vemos um filme em segundo plano, parando-o a meio? É certo que a estrutura compartimentada de um disco se dá a uma maior maleabilidade, mas não é exatamente um romance.

Do disco grande de plástico ao bloco de fita falível, dos discos menores e translúcidos aos ficheiros que descansavam seguramente numa pasta informática e agora flutuam no ar sem sabermos bem se daqui a um ano nos continuam acessíveis. Um álbum foi confinado ao material durante muito tempo e hoje evade-se dessas restrições. Não se pode romantizar o conceito, porque um intérprete e/ou os produtores e/ou os A&R fazem dele o que querem. Sim, há projetos cínicos, calculados, de erosão rápida, um repositório de áudios desconexos. Sim, há coisas gravadas por razões contratuais e pela proximidade do Natal.

Mas os álbuns que subsistem na memória coletiva, por norma, são expressões de um artista. Obras de conceito arquitetado ou ímpeto incontrolado. Pedras de toque que definem um autor, ou lançamentos que marcam transições entre fases de um criador. E coisas que não são nada disto e que resultam porque sim. Artefactos que se tornaram clássicos mesmo que a sua feitura tenha tido zero de ortodoxia, sido verdadeiras novelas impregnadas de drama e substância, ou levado uma gravadora à insolvência.

Todos os discos se apresentam, tanto selados em caixas como à distância de um clique, prontos para que qualquer ouvinte os aloje num cantinho de si. Somos humanos: altamente permeáveis à arte, quando a recebemos somos instintivos. Tome ela a forma de um manifesto sonoro validado pelas elites, ou algo sem tanta pretensão, que incite a piada de quem se recusa aos simples prazeres da vida. Durante um período variável de tempo, imergimos num mundo de som. Podemos ser tocados num nervo, sair irreparavelmente transformados, sentir algo novo.

E enquanto haja alguém no mundo a abrir-se à sua experiência, nos moldes que queira, o álbum vive. Embora esta narrativa já vos possa estar a aborrecer de tanto otimismo. Desculpem. Permitam-me reformular: ‘Estará o álbum a morrer?’