A fama pode ser uma espada de dois gumes. Por um lado, oferece a um artista a possibilidade de a sua arte ser validada e a oportunidade de uma carreira financeiramente viável através dessa mesma arte. Por outro lado, a fama leva a que a vida pessoal do artista deixe de ser privada. Assim Nasce Uma Estrela pode ser um romance, mas também ilumina a faceta mais perigosa da fama.

Ally é uma jovem cantora que passa os seus dias num trabalho pelo qual não sente qualquer paixão e as suas noites a cantar num bar . Claro que esta personagem não é uma cantora normal, ou não seria interpretada por Lady Gaga. O talento de Ally é descoberto por Jackson Maine (Bradley Cooper), um cantor famoso com um problema grave de alcoolismo. Como é de se esperar de um romance, as duas personagens vão interagindo e apaixonam-se, enquanto Ally tenta ajudar o seu parceiro a lidar com o vício que promete fazer toda a sua vida pessoal descambar.

Uma estrela vai-se iluminando cada vez mais, à medida que outra se vai apagando. Assim Nasce Uma Estrela pode ser um reflexo do mundo da música, mas também poderia representar Hollywood. A universalidade desta história é a razão de já ter sido contada tantas vezes no cinema. Este Nasce Uma Estrela não é meramente um veículo para Lady Gaga e Bradley Cooper, mas também o terceiro remake de um filme de 1937. Pinceladas mais gerais desta história podem ainda ser vistas em O Artista (2010).

Mas aqui o importante não é que tenhamos uma história original, mas sim que Lady Gaga e Bradley Cooper tenham pegado nela para lhe dar uma nova perspetiva . Nesse sentido, pode-se dizer que é um remake bem-sucedido em que o romance e a melancolia caminham de mãos dadas. Mas isso não significa que esta versão esteja desprovida de cair nas armadilhas que costumam assombrar remakes.

No que diz respeito às músicas, estas servem para informar sobre as personagens. Geralmente revelam o que estas sentem uma pela outra. Mas a música tem impacto fora das alturas em que é tocada, sendo discutida constantemente dentro da própria narrativa. Escusado será questionar a voz de Gaga, mas Cooper também se deixa soltar em melodias que canta de coração. Estas músicas originais são o pilar da narrativa e as personagens usam-nas para se lerem uma à outra. Mas considerando o quanto ambos os músicos assumem a intimidade das letras, é desapontante que estas batam todas na mesma tecla temática. Ally ganha atenção pela sua perspetiva única, mas os temas das suas canções são tão comuns no mundo da música que é difícil compreender o que Jackson Maine viu aí de único. São músicas boas, mas falta-lhes a perspetiva única que a história tantas vezes lhes atribui.

Lady Gaga já demonstrou ser uma atriz com uma forte presença em American Horror Story. Aqui revela ainda maior vulnerabilidade enquanto atriz que está a começar a sua carreira. As suas feições únicas também se adequam bem a uma personagem cuja carreira só não foi ainda lançada  devido a ter “um nariz grande”. Gaga demonstra que para além de conseguir ser bombástica, também consegue ser intimista.

Bradley Cooper encarna um papel que o obriga a revelar o seu lado mais negro. Apesar do seu sucesso, Jackson parece estar constantemente à beira de afundar toda a sua vida pessoal. O problema é que enquanto figura pública, esses problemas deixam de ser privados. Tal como Gaga, Cooper desafia-se numa área que até à data desconhecia-se ter o potencial de dominar: a música.

Em parte, o filme está a ser publicitado como sendo parcialmente biográfico para ambos os atores. Cooper confiou que Gaga seria capaz de fazer uma interpretação dramática, enquanto Gaga confiou que Cooper poderia cantar ao nível de grandes músicos. Sendo este o mundo do espetáculo, é provável que as semelhanças entre a ficção e a realidade tenham em parte sido fabricadas. Afinal, isso é um gancho muito bom para vender o filme. Mas os dois atores têm uma química tão completa que nos conseguem convencer da sua história muito bem. E sendo isto um filme, o mais importante é mesmo isso: que nos convençam.

O problema que assombra esta narrativa é a sua familiaridade. Não é preciso ter-se visto as versões anteriores desta história para se ter uma ideia do que vai acontecer a seguir. Mesmo que este não seja um musical tradicionalista, é uma história com uma estrutura tradicionalista. Juntando a isso o facto de as temáticas já terem sido várias vezes abordadas no cinema, há aqui pouco mais para além das atuações das suas estrelas.

A imagem captada por Matthew Libatique é impecável. O diretor de fotografia estabelece um meio termo que permite manter a ambiência romântica necessária, enquanto se mantém uma incerteza que nos promete que a tragédia poderá surgir a qualquer altura. Libatique não procura planos particularmente únicos, mas sim planos que se foquem nas emoções das personagens que habitam o ecrã. Apesar da fotografia sombria, há um forte uso das cores, que se mantêm realistas, mas também se adequam ao que as personagens estão a sentir no momento. Quase toda a obra é filmada com câmara à mão, de modo a tornar a perspetiva realista. Duvido que isso tivesse sido necessário em tantas cenas. Mas pelo menos esta abordagem funciona na maior parte do filme.

De certa forma, Assim Nasce Uma Estrela representa um “Hollywoodismo” clássico. Não é um projeto que seja marcado pela realização de Bradley Cooper, mas sim pelo facto de este decidir atuar ao lado de Lady Gaga num musical, abrindo o horizonte a ambos. É o tipo de filme cuja narrativa se consegue sintetizar num trailer. Mas independentemente de clichés ou da inevitável previsibilidade, é inegável que esta é uma obra que faz bem aquilo que pretende fazer…e isso por si não era uma tarefa fácil.

 

7/10

Título original: A Star Is Born
Realização: Bradley Cooper
Argumento: Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters
Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Dave Chappelle, Andrew Dice Clay, Anthony Ramos, Michael Harney e Rafi Gavron.
Género: Musical, Drama, Romance.
Duração: 135 minutos