Há uma semana a sala de Marvila recebeu o trio americano Low para ouvir as canções do recente álbum Double Negative mas foi nas antigas, como o público, que as emoções subiram.

Os Low entraram de mansinho na vida daqueles que nos anos noventa andavam a tentar perceber o que era isso do rock alternativo. E com eles sempre foi diferente, como o seu próprio nome indica, e deram nome aquilo que se tem apelidado de slowcore. Oriundos de Duluth, Minnesota, terra que deu Bob Dylan ao mundo, souberam desde cedo manejar, ao seu ritmo, os três instrumentos essenciais da trilogia do rock e dar-lhes alma própria. Foi o baixo, a bateria e a guitarra que estiveram desde o princípio na base das composições da banda mas este ano, ao 12.º disco, arriscaram dar nova atmosfera ao registo de estúdio.

Em palco, a aridez dos Low não advém da maquinaria, como no mais recente disco, mas da guitarra que Alan Sparhawk tanto acalma quanto atiça e não descontrola o corpo mas controla a mente. É ele o feiticeiro-mor que, com a sua voz tão poderosa como sempre, nos embala, a par da doce voz de Mimi Parker com aquele timbre inigualável. E o equilíbrio que criam com Steve Garrington, dono do baixo, também consegue ser a metáfora do que são os Low. Ora de pé, ora sentado, foi flutuando pelos sons que ele próprio cria, pavoneando-se nessa atmosfera tão bela quanto trágica.

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Abriram com Quorum, do novo disco e seguiram para No compreendo de Ones and Sixies (2015) onde voltariam pouco depois com Innocents e a lamuriante Lies. A Double Negative foram buscar temas como Tempest e Always Up e tudo estava a ir bonito, mas foi com Do You Know How to Waltz que a garganta começou a apertar e as lágrimas a precisar de disfarçar-se. É o regresso há 22 anos e a The Curtain Hits The Cast que levam a plateia madura do Lisboa ao Vivo numa viagem pessoal no tempo. E, como se os Low quisessem continuar a arranhar-nos docemente o coração, chegou Lazy (de I Could Live in Hope, 1994).

Dos novos temas, deste novo e diferente disco, foram apresentadas Always Trying to Work it Out, Poor Sucker, Rome (Always In the Dark) ou a grandiosa Fly, que com o seu ar de feiticeira perdeu o poder que tem em disco. Em Holy Ghost (The Invisible Way, 2013) em que Mimi tem o protagonismo, eriçam-se de novo os pelos, porque a voz dela dança debaixo dos tons azuis e arroxeados da sala, como fantasmas de estimação que todos guardamos.

Numa prestação em que fizeram as emoções ferver em lume brando, os Low mostraram uma vez mais porque são uma espécie de seita das boas, que seguimos com devoção e respeito, de forma discreta e silenciosa mas que nos faz explodir quando, já no encore, dispara Murderer, de Drums and Guns (2007), lembrando-nos que somos todos feitos mesma matéria, quer no Bem, quer no Mal. Estaríamos, pois, dispostos a fazer o trabalho sujo pelos Low.