O dia 8 de outubro de 1998 deu-nos o primeiro, e até agora único, Prémio Nobel da Literatura não só português, mas também de todos os países lusófonos. Hoje, no mesmo dia e passadas duas décadas, não podíamos deixar de celebrar o escritor que o recebeu, José Saramago, o eterno expoente da literatura.

José de Sousa teria sido o seu nome se o funcionário do Registo Civil não lhe tivesse acrescentado a alcunha pela qual a família do seu pai era conhecida na aldeia: Saramago (uma planta que em tempos de carência servia de alimento na cozinha dos pobres). Nasceu em 1922, na pequena aldeia de Azinhaga, “uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, a uns cem quilómetros de Lisboa”.

Nunca viveu um verdadeiro desafogo económico quando era jovem e a falta de meios forçou os seus pais a tirarem-no do liceu e a entrar numa escola de ensino profissional, onde aprendeu o ofício de serralheiro mecânico durante cinco anos. A paixão pela literatura veio dos livros escolares de Português, únicos livros a que conseguia deitar as mãos, e essa paixão cresceu com escapadinhas noturnas à biblioteca pública de Lisboa, onde foi guiado apenas pela sua curiosidade.

Recordar quem “nunca esperou nada da vida e por isso teve tudo”

Em 1947 estreou-se no universo literário, com o seu primeiro livro, que intitulou A Viúva, mas que por razões editoriais, viria a sair com o título de A Terra do Pecado. Só se voltaria a fazer ouvir no universo literário em 1966, com os seus Poemas Possíveis. A isso seguiram-se coletâneas de poemas e recolhas de crónicas, deixou para trás a vida operária e saltou de editora para editora, de jornal para jornal.

Chega abril de 1974 e é com dois livros que assinala a época revolucionária que fez tremer Portugal: O Ano de 1993, considerado o primeiro das suas muitas futuras obras de ficção e Os Apontamentos onde reuniu artigos de teor político, críticos do regime salazarista, que tinha publicado nos jornais onde tinha trabalhado.

É também importante recordar que a política entrou cedo na vida de Saramago. O autor possui um historial de luta contra o Estado Novo, tendo sido apoiante e interveniente ativo na candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República, nas presidenciais de 1949. Viria mesmo a filiar-se no Partido Comunista Português, em 1969, uma ligação que permaneceu até ao fim da sua vida.

É em 1976 que se vê novamente sem emprego e se decide dedicar por inteiro à literatura: “já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor”. O refúgio que encontrou foi a ruralidade alentejana, na pequena Lavre, que inspirou o romance Levantado do Chão.

A década de 80 é a década dos seus grandes romances: Memorial do Convento, em 82, O Ano da Morte de Ricardo Reis, de 84, A Jangada de Pedra em 86 e História do Cerco de Lisboa em 1988, e começa assim o seu percurso de merecedor do Prémio Nobel da Literatura.

A isto seguiu-se a polémica que rodeou o seu romance O Evangelho segundo Jesus Cristo, em 1991, cuja censura exercida pelo Governo português vetou a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu, sob o pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos. O resultado foi Saramago ter decido ir viver para Espanha, para a sua casa na ilha de Lanzarote. A década de 90 é igualmente recheada com grandes romances como Ensaio sobre a Cegueira, em 95 e dois anos depois publicou Todos os Nomes e O Conto da Ilha Desconhecida

Prémio Camões em 1995 e Prémio Nobel de Literatura em 1998, o autor português deixou a sua marca também na história da defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, uma luta que a sua fundação, criada em 2007, continua.

Viajou pelos cinco continentes, ofereceu conferências, recebeu graus académicos, nunca se limitando ao universo literário, estimando sempre a luta pelos Direitos Humanos, “pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas”.

O Prémio Nobel não foi, contudo, razão para abrandar o seu trabalho. Desde 1998 publicou Folhas Políticas (1976-1998) em 1999, A Caverna em 2000, A Maior Flor do Mundo em 2001, O Homem Duplicado em 2002, Ensaio sobre a Lucidez em 2004, As Intermitências da Morte em 2005, As Pequenas Memórias em 2006 e em 2008 a fábula A Viagem do Elefante

Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra que se assumiu como incontornável, não só na literatura portuguesa, mas na literatura mundial, com obras traduzidas por todo o mundo.

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Quem é José Saramago, pelas suas próprias palavras

“Eu chamo-me José de Sousa Saramago, mais conhecido por José Saramago. Nasci numa aldeia do concelho da Golegã, distrito de Santarém, chamada Azinhaga. No meu bilhete de identidade diz que nasci no dia 18 de novembro de 1922, mas não é verdade, nasci no dia 16, porque como a declaração de nascimento se fez dois dias atrasada em relação ao prazo, para não pagar a multa mudaram-me o dia de nascimento para o dia 18. Divido a minha vida por entre Lisboa e Lanzarote. Sou escritor, quer dizer, escrevo, tenho o privilégio infinito de viver daquilo que escrevo. E não sei se há mais alguma coisa para contar..”.

(Depoimento recolhido pelo realizador Miguel Gonçalves Mendes e publicado no livro José e Pilar –Conversas Inéditas, em 2011. Disponível aqui.)

Regressar a 1998 para celebrar o Nobel de Saramago, o nosso Nobel

Para comemorar os 20 anos da atribuição do Prémio Nobel a Saramago, a Porto Editora criou uma página online onde recupera “entre outras curiosidades, mensagens e reações de vários amigos e personalidades a essa grande notícia”.

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A entrega dos Prémios Nobel de 1998, uma cerimónia que podes ver e rever aqui, é até hoje, considerado um momento marcante na história do país e um motivo de grande orgulho nacional. 20 anos depois nada mudou, pelo contrário.

No comunicado enviado à imprensa, em 1998, a Academia Sueca considerou assim a escrita de Saramago: “que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível de uma realidade fugidia”.

Foi com 75 anos que o escritor português foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. O prosador, de raízes humildes da classe trabalhadora, só viu chegar a fama pelos seus livros com 60 anos.

No início de dezembro de 1998, foi quando José Saramago foi a Estocolmo para oficialmente receber o prémio. Lá, a cerimónia dividiu-se em dois momentos, eternizados pelos seus discursos. Na cerimónia de entrega, a 7 de dezembro, Saramago revisitou a sua vida e os seus maiores livros, sem se esquecer de homenagear o homem mais sábio que conheceu – o seu avô. No banquete com os reis da Suécia e a Academia Nobel, dia 10, Saramago preferiu recordar a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos e lançar a chave para a criação da Declaração Universal dos Deveres Humanos. Desde então, a Fundação José Saramago orientou a conceção daquela que é a Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos, que este ano foi enviada para a Organização das Nações Unidas.

Podes ler os seus discursos de Estocolmo, aqui.

Os livros que lhe deram o Nobel

Saramago destacou-se através da sua escrita multifacetada e obstinada. Independente e crítico, que despedaça a tradição numa série de projetos onde constantemente se contradiz, mas onde todos “representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia”. E não gostaria que o recordássemos sem recordarmos também a obra que o eternizou.

Manual de Pintura e Caligrafia: um romance, publicado em 1977, conta a história do nascimento de um artista, tanto o de um pintor como o de um escritor. O livro, que é tido como uma autobiografia de Saramago, na sua intensidade não deixa de refletir sobre o amor, a ética, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A liberdade conquistada com a queda do regime salazarista e a sua importância para o autor português que nunca pediu desculpa pela sua visão crítica do passado português

Memorial do Convento, de 1982, é o romance que viria a deixar Saramago nas bocas do mundo. O texto, que ainda hoje é estudado pelos alunos do 12.º ano, reúne nas mesmas páginas uma perspetiva histórica, social e individual. O texto multifacetado, inteligente e rico em imaginação é algo transversal a toda a obra “saramaguiana”, mas é no Memorial do Convento que melhor se mostra aos seus leitores.

O ano da Morte de Ricardo Reis foi publicado em 1984 e é um dos pontos altos do seu legado literário. Saramago escreve-nos sobre uma Lisboa, no ano de 1936, em plena ditadura, mas rodeada de um ambiente sobrenatural. As repetidas visitas do falecido poeta Fernando Pessoa a casa da personagem principal e as suas conversas sobre a existência humana exemplificam isso. Tanto Fernando Pessoa como Ricardo Reis deixam o mundo juntos, após o seu último encontro.

A Jangada de Pedra, livro de 1986, que reúne uma série de acontecimentos sobrenaturais que separam a Península Ibérica do resto do continente europeu e se perde no Oceano Atlântico, em direção aos Açores. Saramago, sendo Saramago, aproveita para contar a sua história e recheá-la com comentários sobre as grandezas e “pequenezas” da vida e especialmente ironizar sobre os jogos de poder que os políticos tanto gostam de jogar. Os livros de Saramago nunca se livram da sua mordaz crítica à realidade em que o autor vivia.

História do Cerco de Lisboa, de 1989, que se trata de um romance sobre um romance. Um não dá ao livro um percurso diferente do que contam os livros de História e, assim, oferece ao autor rédea solta à sua grande imaginação e alegria narrativa, sem nada que o impeça de mergulhar fundo no mar das suas dúvidas.

Em 1991, Saramago, confessado ateu, escreve um romance sobre a vida de Jesus Cristo no seu livro O Evangelho segundo Jesus Cristo. Deus e o Diabo negoceiam sobre o Mal e Jesus contesta o seu papel e desafia Deus. De lembrar que nenhum livro de Saramago se vê livre da prosa franca do autor, que encerra reflexões sobre as grandes questões que fazem o mundo rodar.

Quatro anos depois a estatura literária de Saramago dá outro salto considerável. Em 1995 é publicado O Ensaio sobre a Cegueira que nos leva numa horrenda viagem através da interface formada pelas perceções do ser humano e pelas camadas espirituais da civilização. A riqueza metafórica, a escrita recheada com excentricidades e a agudez de espírito do autor encontram neste livro a sua expressão máxima.

“Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.”

Como o mundo reagiu ao Prémio Nobel de Saramago?

Para Mia Couto foi “um prémio para toda a literatura portuguesa”. Agradeceu a amizade que o escritor luso sempre teve com Moçambique, “país que várias vezes visitou e noutras ocasiões combateu pela divulgação da literatura moçambicana”.

Foi com “extraordinária alegria” que Lídia Jorge acolheu as notícias da conquista de Saramago, responsável por “uma obra profunda, grande, de amplitude não só portuguesa como também universal”. “Escritores que aqui estavam [em Frankfurt] abraçaram-se todos como se fosse uma alegria que cabe a cada um. Ao ganhar Saramago, ganha a literatura portuguesa”.

“Um sinal de que o mundo não está tão parado. Uma das poucas provas de que a justiça existe”, foi com palavras fortes que Eduardo Galeano considerou a conquista de Saramago.

“Um ato de justiça” para a “nossa literatura de grande qualidade”, foi como Mário Soares celebrou, com um “até que enfim! Até que enfim temos um Nobel para a literatura de expressão portuguesa!”.

António Guterres procurou “felicitar vivamente José Saramago e com ele todos os escritores portugueses”. A distinção, há muito tempo merecida pela literatura portuguesa, foi “um motivo de profundo orgulho”. “É um testemunho de reconhecimento internacional do papel que Portugal tem na construção do mundo moderno. Um papel em que a literatura portuguesa sempre se afirmou, com uma enorme pujança”.

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