James Scully é um diretor de casting cujo trabalho consiste em selecionar modelos para campanhas ou desfiles em grandes eventos da moda internacional. Este outono, trocou o emprego que o tornou célebre pelo voluntariado na campanha eleitoral do estado de Nova Iorque. Contudo, o afastamento não é decisivo e, como forma de homenagem, o Espalha-Factos guia-te pelo seu percurso na luta pelos direitos dos modelos.

james scully denuncia abusos

Publicação de James Scully no Instagram, onde denuncia a exploração de modelos na indústria.

Diz que quer insurgir-se como a voz dos ignorados ou menosprezados pela indústria – e pelo grande público. Os escândalos que abalam o mundo da moda são variados: assistentes maltratados por trazerem o visual errado, modelos pressionadas a emagrecer para caber em tamanhos minúsculos e demasiados testemunhos de assédio sexual. O objetivo de Scully é proteger as vítimas, denunciando os agressores.

As consequências de vir a público

É raro observar-se pessoas influentes no setor a abrir discussão sobre assuntos tão delicados. Contudo, Scully aproveitou a sua posição privilegiada na moda para denunciar a exploração de modelos. Em entrevista à Vogue americana, o diretor garantiu que ”não tinha nada a perder”. Se não houvesse reformas na área, então recusar-se-ia a trabalhar nela.

Denúncias de tratamento abusivo de modelos

Durante a sua carreira, o diretor de casting assistiu a múltiplos exemplos de exploração financeira, sexual e emocional de modelos. Entre algumas das suas denúncias, encontram-se:

  • Provas de roupa (fittings) a horas ”deploráveis”, sem compensação por tempo perdido com atrasos ou cancelamentos;
  • Blackballing (prática de votar contra a admissão de uma pessoa como membro de uma organização ou grupo) a modelos que não cumpram com as exigências de superiores;
  • Redução dos tamanhos-amostra e consequente pressão às modelos para emagrecer de modo a que consigam vestir as peças;
  • Seleção de menores para desfilar e tentativa de infiltração de raparigas de 15 anos em desfiles em França, onde a idade mínima legal para desfilar é de 16 anos;
  • Atraso ou ausência de pagamento por trabalhos e projetos;
  • Assédio sexual.

Apesar de todas as instâncias de exploração, James Scully, numa publicação no Instagram, salientou alguns episódios em particular. Estes ocorreram durante a época de castings para a Paris Fashion Week, em fevereiro de 2017.

O caso do casting para Balenciaga

De acordo com Scully, Maida Gregori Boina e Rami Fernandes, diretores de casting para a Balenciaga, trancaram 150 modelos numa escadaria escura enquanto saíam para almoçar. As raparigas esperaram durante três horas e a única fonte de iluminação disponível era a lanterna dos seus telemóveis. Este ficou a saber do incidente através de testemunhos de várias modelos presentes.

A Balenciaga garantiu ter despedido os diretores de casting envolvidos e comprometeu-se a oferecer aos modelos condições de trabalho seguras. Porém, após o incidente, muitas raparigas recusaram oportunidades de desfilar para a Hermès e Elie Saab, onde estes diretores também trabalham, por não quererem ser ”tratadas como animais”.

balenciaga abuso de modelos

Modelo desfila para a coleção de outono/inverno da Balenciaga, na Paris Fashion Week, em fevereiro de 2017.

Lanvin recusa candidaturas de mulheres de cor

O profissional repreendeu a marca de luxo Lanvin por recusar mulheres de cor nos seus desfiles da Paris Fashion Week. A informação chegou a Scully através dos bookers (agentes) das modelos rejeitadas. No entanto, a Lanvin nega as acusações.

Apesar do progresso da indústria, ainda são vários os designers europeus que não incluem pessoas de cor nos seus desfiles. Os jovens talentos discordam desta abordagem, procurando a inclusão. Marcas como a Vetements e a Off-White apelam a um público que carecer de representação suficiente nesta indústria.

mulheres de cor

Às portas do desfile da Balenciaga na Paris Fashion Week de 2017, modelos exigem mais diversidade na indústria, mas também igualdade de direitos e oportunidades.

James Scully: “A situação está a resvalar para o domínio do tráfico”

Scully denuncia uma grande casa de luxo – não nomeada – por tentar infiltrar raparigas de 15 anos em desfiles parisienses, apenas tendo em vista contratos de exclusividade com modelos-revelação.

Para além da idade mínima legal para desfilar em França ser 16 anos, o Conselho de Designers de Moda da América (CFDA) também recomenda a proibição de modelos menores de 16 anos nas passerelles.

roos abels modelo

Roos Abels desfilou para a coleção primavera/verão da Prada, durante a Milan Fashion Week de 2015. Tinha apenas 14 anos.

Os modelos acabam por ceder aos abusos, sob pena de fazerem inimigos e, assim, perderem a oportunidade de trabalhar com grandes profissionais da área. Caso não correspondam às exigências dos seus superiores, são confrontados com a possibilidade de outra pessoa ocupar o seu lugar.

O desespero por sucesso abre, então, caminho à chantagem e exploração. E o preço a pagar pelo êxito na carreira é, quase sempre, o mal-estar físico e mental das vítimas.

O embaraço do tabu

Com medo de represálias, muitos continuam silenciosos relativamente às práticas exploratórias e discriminatórias da indústria da moda. Outros ignoram o problema.

James Scully viu esta realidade de perto. Recebeu milhares de mensagens de modelos com quem havia trabalhado, pais preocupados, editores de moda, diretores criativos, entre outros. Todos admitiram saber dos abusos, mas ninguém quis falar sobre isso.

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Romee Strijd e Gigi Hadid no backstage de Brandon Maxwell./Instagram

Esperança para a indústria

Como parte dos seus esforços na luta pelos direitos dos modelos, James Scully ainda trabalhou com Sara Ziff, fundadora da Model Alliance, uma organização norte-americana que visa a segurança e o bem-estar dos modelos na indústria da moda.

Scully também se juntou à Condé Nast, grupo que detém revistas como a Vogue e Allure, na criação de um novo código de conduta que protege os direitos dos modelos. Entre as suas diretrizes, encontram-se a proibição de modelos com menos de 18 anos em set ou o requerimento de assinatura de uma licença para qualquer sessão fotográfica que requeira nudez. O código deve ser respeitado por todos os parceiros a trabalhar em campanhas do grupo.

Para além destas, vigoram muitas outras iniciativas que pretendem condições de trabalho dignas para os modelos. No entanto, Sara Ziff explica ao Business of Fashion que ”os padrões e códigos da indústria, sem mecanismos de aplicação” são apenas ”aspirações”. É necessário mudar toda a cultura da indústria desde o interior e, ainda, tomar ação real.