Se eras criança em 2009, é provável que tenhas visto Coraline e a Porta Secreta. Mas se ficaste traumatizado com “outra mãe” da história, tens de conhecer o conto em que Neil Gaiman a baseou.

Neil Gaiman escreveu “Coraline” em 2002, mas foi com o aclamado filme de 2009 que a história passou a ser conhecida por um público muito mais vasto. Distribuído como Coraline e a Porta Secreta em Portugal, é um filme de Henry Selick, realizador de The Nightmare Before Christmas.

A protagonista, Coraline, encontra um mundo paralelo atrás de uma porta secreta da sua nova casa. Ao princípio, este novo universo parece uma versão idealizada do mundo que conhece, mas acaba por se revelar bastante mais sinistro e perigoso. A “outra mãe”, aparentemente uma versão melhor e mais atenciosa da mãe da protagonista, é um monstro que rouba as almas das crianças e lhes cose botões em lugar dos olhos. A criatura, a que as outras crianças capturadas chamam “Beldam”, é um dos detalhes mais arrepiantes da história. Mas não foi Neil Gaiman o primeiro a explorar a ideia de um monstro que se parece exatamente com a nossa mãe.

Segundo a Bustle, a personagem de Gaiman é inspirada numa história da autora vitoriana Lucy Clifford. Mas também Clifford retirou a inspiração de um conto popular chamado The Pear Drum. E em 2015, o escritor Alvin Shwartz reinventou o conto como The Drum na antologia Scary Stories to Tell in the Dark.

Uma mãe com olhos de vidro

Embora as versões variem, existem vários pontos em comum entre todas as histórias. Duas irmãs encontram uma rapariga a tocar um estranho instrumento, a tal “bateria” em forma de pêra do título. A rapariga diz-lhes que há um pequeno casal dentro do instrumento, e que quando ela toca eles saem para dançar. Mas quando as irmãs pedem para ver o homem e a mulher dançar, a rapariga recusa. Diz-lhes que só os mostra a crianças que se portem mal.

Quando as duas irmãs voltam para casa, começam a chorar por quererem ver o casal mas não saberem como ser más. E é quando a mãe ouve que as filhas se planeiam portar mal que diz que nesse caso teria de se ir embora e de as deixar “com uma nova mãe, com olhos de vidro e uma cauda de madeira.”

Embora fiquem assustadas, as raparigas não acreditam totalmente na ameaça. Quando voltam a ver a rapariga do instrumento, ela garante-lhes que não existe nenhuma mãe de olhos de vidro e de cauda de madeira.

As raparigas decidem, então, começar a portar-se mal. Mas cada vez que voltam à rapariga do instrumento, ela diz-lhes que ainda não foram más o suficiente. Até que as irmãs decidem fazer algo realmente mau. Na versão de Schwartz, espancam o irmão bebé. É então que a mãe cumpre com a promessa e se vai embora. E nem assim a rapariga do instrumento as deixa ver o casal a dançar. Diz-lhes que não foram suficiente más e que o homem e a mulher se foram embora, antes de desaparecer ela também.

As irmãs ficam sozinhas numa casa vazia. Mas não por muito tempo. Um dia, alguém bate à porta. É a nova mãe.

Trazer o perturbador às histórias para crianças

O final da história varia conforme as versões. Na de Clifford, lida por Neil Gaiman em novo, as crianças fogem para o bosque e permanecem lá para o resto dos seus dias.

Mas numa entrevista com a Booklist, o escritor recorda o final de uma forma diferente: “elas olham para o final da estrada, no escuro, onde vêm a vir em direção a elas as chamas dos olhos da nova mãe, e ouvem o arrastar da cauda de madeira dela. Isso marcou-me. Aqui estava alguém a escrever ficção para crianças, ao mesmo tempo que Alice [no País das Maravilhas] foi escrito, e que estava disposta a ir até ao fundo, até algo realmente perturbador e visceral.

Para todos os que leram a história de Coraline ou viram o filme em crianças, a “outra mãe” que cose botões nos olhos das crianças cumpriu o mesmo propósito.