Num local isolado rodeado de árvores algures em Cannon Falls, Minnesota, situa-se o estúdio de gravação de Pachyderm. Foi lá que, em fevereiro de 1993, começou a ser gravado o terceiro álbum de estúdio dos Nirvana, In Utero.

Quase dois anos depois do disco que popularizou a banda, Nevermind, os fãs aguardavam ansiosamente pela edição do novo álbum. A 21 de setembro de 1993, In Utero chegava oficialmente às lojas. O mundo mal sabia que este viria a ser o último grito do grupo de Seattle.

No total, foram gravadas à volta de 18 músicas para este disco, incluindo demos. Alguns foram produzidos num estúdio do Rio de Janeiro no início de 1993 já que a banda se tinha deslocado ao Brasil para participar no festival Hollywood Rock.

Entre as músicas gravadas está também Marigold. Trata-se da única canção que o baterista Dave Grohl, agora vocalista dos Foo Fighters, compôs para os Nirvana.

À procura de um som mais autêntico

Após a consagração de Nevermind, o expectável para muitos seria que a banda continuasse a fazer o mesmo tipo de música. Uma música que permitisse à banda manter-se no trilho dos êxitos massivos. Mas não. Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic optaram por seguir o caminho contrário. Decidiram voltar às suas raízes sonoras e produzir um álbum que funde a sonoridade dos dois primeiros álbuns.

Em Bleach, o primeiro álbum, os Nirvana mostravam-se pouco preocupados com o sucesso comercial da sua música e com a amplitude da sua audiência. Eram orgulhosamente encarados como um grupo de punk-rockers avesso ao mainstream. Todavia, com a fama suscitada por Nevermind, isso mudou e fê-los aperceberem-se de que tinham deixado de ser fiéis a si próprios. Faltava autenticidade naquilo que faziam.

Daí a vontade em contratar Steve Albini para produzir o novo álbum. Albini fez parte das bandas de noise rock Big Black e Rapeman. Mas ficou mais conhecido pela produção do LP de estreia dos Pixies, Surf Rosa. Colaborou ainda com os Breeders, os Tad e PJ Harvey.

Cobain, em 1993, em entrevista à revista Request, revelou que quis trabalhar com o homem responsável por ter produzido dois dos seus “discos preferidos, Surfer Rosa dos Pixies e Pod dos Breeders”. Noutra entrevista, ao segmento da NME, Uncut Legends, o vocalista regozijou-se por este ser o álbum mais desejado. Era o disco que continha o som que os Nirvana sempre quiseram e que ainda não tinham conseguido concretizar.

A afirmação como banda lendária

Na primeira semana após o lançamento, In Utero vendeu 180 000 cópias e passou a liderar o Billboard 200. Alcançou também o topo da tabela no Reino Unido. Os singles Heart Shaped Box e All Apologies ficaram em primeiro lugar na tabela de canções alternativas da Billboard.

O disco já vendeu 15 milhões de cópias em todo o mundo e atingiu cinco vezes a platina, atribuída pela Recording Industry Association of America. Além de bem acolhido pelo público, In Utero recebeu ainda a aclamação da crítica. NME, Rolling Stone, Blender, Entertainment Weekly, entre outros, aprovaram o álbum com classificações elevadas.

O equilíbrio entre as músicas mais barulhentas e as mais digeríveis pelo público em geral também contribuiu para o sucesso de In Utero. Na verdade, os singles All Apologies e Heart Shaped Box tiveram mesmo de ser remisturados de modo a torná-los mais radio-friendly. Steve Albini, contudo, recusou-se a fazer quaisquer mudanças. Por isso, os Nirvana contrataram o produtor dos R.E.M., Scott Litt, que fez pequenas alterações no som do LP.

Ainda assim, os Nirvana não se livraram de alguns problemas na comercialização de In Utero. As lojas Walmart e K-Mart estavam relutantes em vender o álbum. Por conseguinte, a banda viu-se forçada a alterar alguns aspetos da capa nas cópias enviadas para esses estabelecimentos.

O título da canção Rape Me passou a escrever-se Waif Me e todas as imagens de fetos humanos foram retiradas. Os Nirvana concordaram em fazer as alterações porque estas eram as únicas duas lojas onde Cobain e Novoselic compravam música em miúdos.

Um álbum premonitório?

A 5 de abril de 1994, Kurt Cobain cometia suicídio, aos 27 anos. A partir de então, tornou-se difícil não ouvir In Utero como uma carta de despedida do músico oriundo de Aberdeen, Washington. A letra obscura, conjugada com o som abrasivo da maior parte das músicas, subitamente adquiriu outro sentido ainda mais sombrio.

Eram conhecidos os problemas de Cobain com o vício da droga e com a fama. Alguns interpretam a música Rape Me como uma crítica aos media, que invadiam e importunavam a vida privada de Kurt. Porém, o vocalista pretendia apenas que esta fosse uma música de suporte às mulheres e contra a violência de género. Sobre Pennyroyal Tea, Kurt Cobain chegou a afirmar que era uma canção acerca de “alguém que está para lá de depressivo”.

O fim trágico que o álbum teve, como em muitos outros casos na música, deve servir para relembrar a importância de falar sobre os problemas mentais no meio musical. Isso mesmo lembrou o próprio Dave Grohl aquando das mortes de Chris Cornell e Chester Bennington em 2017: “A saúde mental e a depressão devem ser levadas a sério“.

Apesar do fatalismo a que ficou associado o álbum, este prevaleceu como uma das obras mais influentes do rock moderno.