Chegados ao último do Milhões de Festa, o Espalha-Factos conta como foi o último dia de festival barcelense.
Mais uma vez, as atividades começam cedo para o festival de Barcelos, com o Palco Taina a abrir ao meio-dia. Desde SuNA Yoga, as aulas que aconteceram todos os dias às quatro da tarde no Taina, até International Music Podcast, de tudo um pouco foi feito o palco.

Palco Piscina

Paisiel abriram o palco Piscina. Com mais uma assinatura da Lovers & Lollypops, Paisiel é um dos projetos mais ligados à experimentação. João Pais Filipe junta-se ao saxofonista alemão Julius Gabriel, entregando um som indecifrável e indefinível que caracteriza a sua entrega à liberdade artística em todos os pontos da criação.

Tajak foram os seguintes a pisar o palco Piscina. A banda mexicana de rock psicadélico entregou-nos uma sonoridade flutuante e introspetiva, algo obscura, mas sempre terrena e despretensiosa. Pharaoh Overload foi a banda que se seguiu. Dela, fazem parte três elementos de Circle, a banda de kautrock que já tinha tocado no segundo dia de festival, cujo objetivo era criar uma ode ao stoner rock. Assim o fazem, portanto, autodescrevendo Pharaoh Overload como uma banda de hypno-improv-stoner-rock finlandesa.

De seguida, Suave Geração tomou conta da piscina municipal de Barcelos, num DJ set que ofereceu fruta e vendeu merch a quem por lá passasse. Exatamente como se apresentam, foi entregue em Barcelos uma matiné que cruzou o espírito de descanso domingueiro com a dança dum festival, obtendo uma plateia bem composta a aproveitarem os “hits ligeiros” que uma tarde de domingo pressupõe.

De seguida, foi na piscina que o Palco Cidade, que mudava de localização em Barcelos todos os dias, pousou no último dia de Milhões de Festa. Johnny Hooker, foi, assim, o último artista a pisar o palco Piscina na edição de 2018. O artista brasileiro tem vindo lutar pela destruição dos preconceitos raciais e de género e tem sido uma voz ativa tanto na música como fora dela para a luta LGBTQ+ no Brasil. Deu um concerto apaixonante em mais do que um sentido, reinventado definições e sensações de amor e paixão que muita gente já tinha tomado por garantidas. A música transmite carinho e calma em simultâneo à força bruta que é preciso para enfrentar toda a sociedade conservadora. Foi um espetáculo que apaixonou todos em Barcelos.

The Heliocentrics

The Heliocentrics foram a primeira banda a pisar o Palco Milhões no último dia. No concerto, a banda explicou perfeitamente tudo aquilo que pode haver de psicadélico no jazz ou no funk, sendo um som nascido de um cruzamento invulgar e até exótico. É disso que é feita a arte, da matéria da novidade de pegar num estilo, e destruí-lo até ser algo original, sem sombras do que podia ter sido antes. Com a amálgama de referência que conseguimos detetar na música que nos dão, seria de esperar que a sua identidade fosse confusa. Não é o caso: a sua identidade é, apenas, única e inigualável.

Mouse on Mars

A dupla de artistas alemães Mouse on Mars atuou no Palco Lovers. Mais uma vez ouvimos o resultado da aliança entre o processado e o vivo; entre o digital e o orgânico. De processado havia os sons dos sintetizadores, cuja intensidade marca a música eletrónica de Mouse on Mars. Já a instrumentalidade do som, menos presente, confere-lhes a organicidade do que é térreo. O resultado é frenético e estimulante, feito numa linguagem única, inteligível apenas aos que entram naquele mundo.

Juntos há 24 anos, a única regra dos artistas é versatilidade. Oscilando entre o caos e os padrões estruturados, o seu som é, ele próprio, eclético e variado. Tal reinvenção artística própria é difícil de encontrar em qualquer lado, e foi-nos abundantemente apresentada no palco Lovers, em Mouse on Mars.

Os Tubarões

A banda cabo-verdiana era, sem dúvida, um dos nomes mais esperados do festival ou, pelo menos, que mais ressoava aos ouvidos de quem do Milhões de Festa ouviu falar. A banda foi muito importante na altura da luta independentista do país. Deram-os os ritmos sempre quentes do funaná, morna e coladeira, música tradicional cabo-verdiana. Tendo uma relação de longa data com atuações em Portugal, a banda atuou sem Ildo Lobo, o seu icónico frontman, falecido em 2014. Provando a possibilidade de ligações intergeracionais em temas destes, foi em passos de dança que o público barcelense agradeceu aos muitos músicos que atuaram em cima do Palco Milhões, aquecendo a última noite de festival como só o clima equatorial podia ter feito.

UKAEA

Techno-ritualístico era a promessa para a performance de UKAEA, sigla para United Kult of the Animist Endgame Apostles. O coletivo artístico envolve-nos numa instalação artística além-palco, com construções e artistas no meio da plateia. No meio da hipnose de ruído, dos sintetizados e dos ritmos techno, apareciam caras pintadas de tinta, que “batizaram” pessoas, escolhidas, do público. Os artistas juntam a rave à espiritualidade com um método inesperado, que envolve progressivamente o público, no obscuro da noite e das despedidas.

Para fechar o festival, a Red Bull promoveu uma discoteca silenciosa, no espaço do Palco Taina. Eram dois DJ Sets em simultâneo, podendo cada pessoa do pública mudar de estação nos seus headphones consoante o seu mood. O resultado, de fora, era um mar de silêncio e de gente dançando e, de dentro, algo sem dúvida diferente.

É caso para dizer que as despedidas são sempre cedo demais, e custou despedir do Milhões de Festa. Com conceitos inovados, e sem nunca perder aquilo que o faz diferente, o festival deste ano acabou com a certeza de que não poderíamos ter vivido o que vivemos lá, em qualquer outro sítio. É único o festival barcelense, pelo que faz e pelo que todos anos inventa, sem nunca errar, mantendo-se fiel ao que as pessoas que vão sempre esperaram da organização: versatilidade e uma experiência única, todos os anos, todos os dias, todos os concertos. Esperamos por ti para o ano, Milhões.

Fotografias de Inês Graça