Depois do Festival de Veneza, chegaram aquelas premiações que são o bilhete de passagem para os Oscars: o Festival Internacional de Cinema de Toronto.

Bradley Cooper e Lady Gaga, de Assim Nasce Uma Estrela (2018), receberam uma ovação em pé, Alfonso Cuarón, com Roma (2018), lavou o público a lágrimas, e Michael Moore, através do seu Fahrenheit 11/9 (2018), acelerou a audiência, com um documentário contra a administração do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

Assim, tanto Bradley Cooper, que se lança no campo da realização com Assim Nasce Uma Estrela, como Alfonso Cuarón, um tanto mais experiente na área – são exemplos disso Gravidade (2013) e Os Filhos do Homem (2006) -, solidificaram as suas posições na corrida aos Oscars.

Mas o Festival de Toronto não é apenas uma montra.

Neste evento, as maiores distribuidoras em Hollywood compram os filmes para os fazerem chegar a todo o mundo. Mas, este ano, nem tudo correu como o habitual. “Foi muito mais lento do que no ano passado“, concluiu o gerente de filmes e TV na distribuidora The Orchard, Paul Davidson.

Fomos procurar filmes narrativos com elencos que pensássemos poderem ser apelativos para todas as audiências. Não havia muitos desses“, acusou o gerente.

Tom Bernard, co-fundador da produtora e distribuidora Sony Pictures Classics, remou com a corrente dos outros agentes: “Não vi filmes que merecessem o preço de quatro ou oito milhões [de euros]“.

O veterano também notou a falta de afluência às salas de visionamento, mesmo nos presumidos filmes-chave deste ano. “Não pareceu lotado, e eu não vi muitos compradores por lá“, contou Tom Bernard. Este pode ser um sinal da falta de agressividade por parte dos estúdios na frente de aquisição de filmes.

Mesmo que tenham cruzado o festival à procura de filmes para comprar, as distribuidoras de Hollywood deixaram muitos deles na tal montra: ainda há dezenas de filmes sem comprador. E este pode ser o ponto de partida para uma crise sem precedentes.

A maior venda no festival prendeu-se com Greta (2018), de Neil Jordan, um thriller com Chloë Grace Moretz como protagonista , por pouco mais de cinco milhões de euros. Ao lado de Topo Cinco (2014), do e com o comediante Chris Rock, que foi então comprado pelo estúdio de cinema Paramount Pictures por quase 11 milhões de euros, Greta é quase uma brincadeira, financeiramente falando.

Também a plataforma de streaming Netflix, que comprou Roma por um preço bem acima do expectado (quase 13 milhões de euros), e a empresa Amazon se encostaram, muito embora costumem abrir a carteira neste género de festival. A Amazon não comprou filme algum e o maior negócio da Netflix foi a aquisição dos direitos da comédia nigeriana Lionheart (2018), que não deixa de ser resultado de uma pequena produção.

Por outro lado, a produtora e distribuidora Neon chegou-se à frente com cheques na mão, tendo sido a maior compradora em Toronto, embora seja uma empresa em ascensão. A Neon saiu de cena com três filmes que podem vir a ser importantes no bolso: Vox Lux (2018), com Natalie Portman, Wild Rose (2018), com Julie Walters, e o documentário de John Chester The Biggest Little Farm (2018).

Ainda assim, é sabido que o Festival Internacional de Cinema de Toronto surge cronologicamente depois tanto de Veneza como de Telluride. Os filmes a visionar já foram, portanto, vistos, e até criticados por jornalistas de cinema e críticos. Essa pode ser uma desculpa para a falta de audiência, especialmente nos filmes que carregam altas expectativas.

O próprio evento está a mudar: o diretor do Festival de Toronto, Piers Handling, está para abandonar o cargo, depois de mais de 30 anos no comando. Handling vai ser substituído pela parelha constituída por Cameron Bailey e Joana Vicente.

Na véspera do festival, o diretor consentiu que a notoriedade dos filmes está a desvanecer-se. A verdade é que o filme mais aguardado do ano, até agora, é Roma, e a sua própria distribuição para sala esteve em causa.

No entanto, Piers Handling mostrou-se otimista face à crise: embora os cineastas estejam a fugir ao grande ecrã, migrando para a TV ou outras tecnologias, de alguma forma os filmes continuarão a existir.