Caminhando para o meio do Milhões de Festa, o Espalha-Factos conta como foi o terceiro e penúltimo dia de festival.

Como já tinha acontecido no dia anterior, os concertos começaram cedo, no Palco Taina, ao meio-dia, onde os festivaleiros podiam encontrar Eduardo Morais. O Palco Piscina, por outro lado, abria as portas à música às duas da tarde, com Kink Gong. Gong é um artista cuja criação tem dois passos importantes: o primeiro é recolher e gravar o máximo de música tradicional do sudoeste asiático, o segundo é fazer uma espécie de “corta e cose” no trabalho de estúdio. Aglomerado, o resultado é um som novo, psicadélico, de naturalidade desconhecida.

Gonçalo seguiu-se no Palco Piscina, um artista bracarense dos já conhecidos Long Way to Alaska. Com o carimbo da Lovers & Lollypops, segue uma nova direção, sempre com a doçura melódica a que nos tínhamos habituado, e explorando novas sonoridades mais cruas e terrenas, criando um conceito novo. Aliados os sons digitais e processados à instrumentalidade do acústico, é através da experimentação que o artista cria, e nos dá a conhecer o seu som.

Segue-se Natalie Sharp apresenta BodyVice, um espetáculo concebido especialmente para o Milhões de Festa. Esta foi uma performance mais do que apenas um concerto, com o reforço de um dos novos conceitos introduzidos no festival nesta edição: a interação com o público. É toda uma instalação artística criada em volta do público, que desde o som à maquilhagem e cenografia nos transportam para um abismo emocional de perturbação pura. Explorando a ideia da integração do ser humano na sua própria criação tecnológica e digital, Natalie ensina-nos que é preciso ser, além de existir.

Afrodeutsche fechou o Palco Piscina neste dia. A artista é uma produtora ganeso-russa-inglesa, que junta sons mais etéreos como os do piano aos mais processados como o house e o techno. Esta mistura é acompanhada de uma presença política forte, criando todo o pacote artístico que nos entregou em Barcelos.

WWWater

A artista belga foi a primeira a pisar o Palco Milhões. Conhecida por colaborar com Soulwax, baterista deste projeto ao vivo, entregou-nos um dos seus projetos musicais de música eletrónica. Aliada à voz, surgem ritmos latejantes e dançáveis que roçavam o techno.

Gazelle Twin

Elizabeth Bernholz é produtora, compositora e performer. A artista usa o seu espaço de intervenção artística para tratar temas fraturantes da sociedade, como a identidade de género ou a dualidade fascismo/consumismo e a linha ténue que existe entre um e outro. Colaborando muito com Natalie Sharp, a apresentação de ambas é semelhante e Gazelle Twin cria uma atmosfera de instalação artística única. Antecipou em Barcelos o seu próximo álbum Pastoral, a ser lançado no final deste mês ainda. No concerto do Milhões de Festa, deu-nos um som que tanto tinha de agressivo como de espiritual, com um pano de fundo de ritmos compassados e esvoaçantes sons de flauta de bisel que nos transportavam para o lugar a que a artista nos escolheu levar.

Nubya Garcia

Nubya Garcia apresentou jazz a Barcelos, prometendo ser sem dúvida uma revelação de grande nome no panorama musical dos próximos anos. O público foi inundado duma sonoridade descontraída e efervescente, com o som do saxofone tocado pela artista a encaminhar-nos para universos paralelos de ambientes simultaneamente simples e celestiais. Pedindo desculpa por não poder vender álbuns no festival (por estarem mundialmente esgotados) conquistou a dança e os aplausos das pessoas que assistiam.

Electric Wizard

Frequentemente descritos como a banda mais pesada do mundo, apresentaram o seu doom característico, tendo dado um concerto para uma plateia bem composta e eclética. Tendo como fundo visual projeções psicadélicas viciantes e arrebatadores, encheram os ouvidos do público do Milhões de Festa com um stoner rock icónico e inigualável, atingindo quase o patamar de mito.

The Bug ft. Miss Red

É sob os nomes de The Bug, Techno Animal, King Midas Sound ou Ice Ice, Kevin Martin que o artista apresenta um espetáculo de dub e noise, assente sobretudo na ideia de experimentação. Já Miss Red, por sua vez, é uma MC israelita que se juntou a The Bug com a sua voz. O som, que começou a animar as after-hours do terceiro dia de festival, com claras influências hip-hop e de música tradicional criava ritmos compassados, graves, sem nunca perder a leveza e descontração do dançável.

Para terminar a noite, houve DJ Paypal a animar os festivaleiros mais resistentes, que a partir das quatro da manhã não baixou dos 160bpms. O DJ apresentou o resultado da afinação do footwork dos anos 90, transportando-o para Barcelos, em 2018, e como só podia ser, no Milhões de Festa.

Fotografias de Inês Graça